quarta-feira, abril 22, 2009

VERA SALBEGO



Imagem: Alpha, de Hugo Macedo.

OS VERSOS SENSUAIS DE VERA SALBEGO

ALUCINAÇÃO

Lençois caidos ao chão.
Corpos suados num só ritmo.
Alucinante de paixão.
Boca na boca.
Olhos nos olhos.
Maõs nas mãos.
Pernas entre pernas.
Tudo num só compasso.
Numa emoção.
Num êxtase total.
Dois corpos perdidos.
Na imensidão das madrugadas.
Nos delirios de amor.
De dois amantes
No calor dos corpos.

TEU BRINQUEDO

Naquela noite,
Eu nervosa e tímida
Você soube ultrapassar barreiras.
Fazer cair por terra, preconceitos.
E com suas mãos experientes
Fez do meu corpo, seu brinquedo.
Eu nada sabia do desejo da carne.
Mas, teu corpo soube penetrar minha alma.
Mostrando o encanto do prazer.
Você ficou
E soube
Fazer-me
Feliz!

DOIS CORPOS NUS...

Corpos nus
Sobre a cama com lençóis vermelhos
Corpos belos
Desnudos da imundície do mundo.
Pecado, volúpia
Prazeres, sensualidade.
Nisso tudo dois corpos
Perdidos na imensidão
Da madrugada.
A luz da lua
Iluminando aquelas curvas
Lábios vermelhos
Seios maravilhosos
Cobertos apenas com lençóis.
Esperando as mãos que buscam
Na volúpia de um beijo.

AMOR

Amor é sentimento
Que nasce do coração
Que vem da emoção.
Nasce de um olhar
De um gesto de carinho.
Amor é ternura
Caminhar na mesma direção
Namorar com a luz do luar.
E calar frente ao outro
E deixar o ritmo do coração
Falar mais alto.
Deixar a musica do coração
Penetrar a alma
Deixar os pensamentos
Fluírem para além da imaginação.
Amar é deixar-se abraçar
Sentindo o outro no fundo da alma.

CORPOS SOBRE A AREIA

Dois corpos
que se procuram...
Movidos pelo calor da paixão.
inebriados pelos suspiros do amor.
Unidos,entrelaçados.
Num gozo maior.
Num climax de tesão.
Numa musica que só a noite traz
exalando seu cheiro
suas canções.
Apenas estrelas a contemplar.
Aqueles dois corpos nus.
Na areia da praia.
Envolvidos com o manto do luar.
Num ritmo em que só o amor.
Dita as razões da alma.

NAMORADA

És minha eterna namorada
Que eu tanto amo
E te quero com todo ardor.
Amada, minha.
És a flor mais bela
Da minha existência.
Penso em nós
A todo instante
Como fossemos borboletas
Ao vento
Sobrevoando os jardins da vida.
Colhendo o néctar do amor
Espalhando nosso mel
Para a doçura do nosso olhar.

NO RITUAL DO AMOR

As duas moças passeavam ao redor da pequena praça daquela cidade de Santa Catarina. O grau de amizade era muito forte e cada uma dedicava a outra um amor incondicional. Não sabiam desse sentimento que crescia como relva nos gramados dos jardins.
Naqueles tempos as pessoas eram amigas e havia uma cumplicidade entre elas.
As duas viviam intensamente esse amor amizade e se divertiam entre os bailes e os rapazes que ali freqüentavam.
Até que certo dia uma delas precisa partir, pois seus pais vão se mudar de cidade. O dia da partida chega e as duas não querem se separar, mas o destino o quis.
Bia e Carol abraçadas choram por não saberem quanto tempo ficaram separadas. Seus pais não percebem o quanto elas se gostam.
O carro sai de mansinho levanto sua amiga Carol para longe de seus olhos que ficam umedecidos pela saudade.
Os meses passam rápidos e as amigas continuam telefonando, mandando e-mail não deixa matar esse sentimento forte uma pela outra.
Mas a vida tenta dar uma guinada.
Carol estuda Medicina Estética na Universidade de Santa Catarina e encontra uma nova amiga a Laura.
Laura é uma moça loira de corpo bronzeado, corpo de curvas delineadas belíssima.
Elas agora se encontram para estudar nos recantos da Universidade.
Carol e Laura agora não se separam, vivem uma para a outra e saem juntas para passearem.
Bia sente saudade de sua amada e percebe que a distancia mexeu com seus sentimentos, pois agora não se comunicam mais.
E tenta então ligar para Carol.
_ Querida como tu está?
_Tudo bem contigo?
As duas conversam e Carol lacônica não diz muita coisa.
Despedem-se é Bia fica pensativa.
Bia voltase –se para seus afazeres e percebe que sua amiga já não corresponde aos seus sentimentos. Fica entristecida e continua a viver sua pacata vida.
Enquanto isso Carol vive sua relação com Laura, saciando suas vontades e sua paixão.
Entregam-se ao amor entre duas mulheres e vivem felizes.
Mas certo dia Laura recebe um telefonema de casa pedindo sua presença. Seus pais estão indo embora do pais e querem que ela venha com eles também terminar seus estudos na Itália.
Ela resolve contar ao seu grande amor.
_Querida meus pais me convidaram para ir para a Itália com eles estou pensando em aceitar. Adoraria que você me acompanha-se.
Que achas da idéia.
Carol fala:
-Gostaria muito de ir com você, mas tenho meu ultimo ano na Universidade. Quem sabe no final do ano.
_Amaria se você fosse.
As duas se abraçam e se beijam demoradamente.
Chega o dia da partida e Laura se despede da amiga e se dirige para o avião.
Carol fica então com seus pensamentos e imagina Laura maravilhosa passeando pela Itália naqueles lugares belíssimos.
Os dias passam e Carol liga diariamente para seu amor para matar as saudades e conversam demoradamente sobre suas vidas.
Na Universidade tudo continua igual e as tarefas são muitas fazendo Carol se envolver com seus últimos trabalhos. Seus dias passam lentos mas seus pensamentos buscam Laura no distante da Itália.
Enfim chega o dia da Formatura e Carol feliz recebe seu diploma e percebe que agora esta livre para partir para a Itália para os braços de seu amor.
Chega a casa arruma suas coisas e liga para uma agência de viagem e compra sua passagem para a Itália. Então chega o momento da partida.
Vai para o aeroporto e encontra lá sua amiga de outrora com flores e um sorriso nos belos lábios.
-Bia querida que bom que vieste se despedir.
-Carol vim para desejar uma ótima partida e que você seja feliz. Apesar de eu estar sentindo tristeza não irei atrapalhar tua partida.Vá e seja feliz e se caso não de certo teu relacionamento não esqueça que estarei aqui de esperando.Abraça-se e se despedem.
O avião parte deixando em terra um amor verdadeiro que soube separar seu querer para a felicidade da outra.
Carol chega à Itália e não encontra Laura e fica pensando o que poderia ter acontecido. Pega um táxi e dá o endereço e seguem pelas avenidas daquele belo lugar.O carro chega numa casa toda arborizada e com belas flores nos jardins.
Então Carol desce e toca a campainha.
A porta se abre e ela e recebida pelo mordomo da família de Laura.
-Seja bem vinda senhorita. A família está no quintal tomando chá,por favor siga-me.
Então ela percebe que ali a situação esta diferente e Laura não estava esperando.
-Bom dia diz o pai de Laura.
-Bom dia.
A mãe de Laura de longe observa Carol e então entra na conversa.
-Seja bem vinda filha, Laura não está, mas avisou-nos que você chegaria.
_Aceitas um chá?
-Claro.
A família continuou conversando e tomando chá naquele quintal deslumbrante.
Então chega Laura cheia de carinho para seus pais e se surpreende com Carol.
-Você já chegou amiga.
-Sim eu havia avisado.
-Desculpe surgiu um compromisso de ultima hora e tive que sair.
-Não te preocupa o importante e que eu cheguei.
Daí em diante começaram a viver intensamente seu amor, mesmo em que algumas horas Laura se distanciava de Carol.
Os meses foram passando e Carol percebeu que sua ida para a Itália não estava legal. Tentou arrumar emprego e não conseguiu e Laura com sua linda Clinica fazia sucesso entre as mulheres do lugar.
Laura tinha uma linda Clinica de estética na Itália e dirigia com afinco sua empresa.
Carol foi percebendo o distanciamento de Laura e ficou calada. Começou a visitá-la na Clinica e viu o carinho especial que a médica dispensava a empresária.Carol ficou calada e só observava o comportamento de Laura.
Laura estava fria com ela e pensava somente no trabalho 24 horas por dia.
Já havia passado oito meses que ela chegou e hoje trabalhava numa Clinica tão famosa como a de Laura. Dedicava-se integralmente ao trabalho para poder esquecer sua amiga.
Até que um dia recebe uma ligação do Brasil de sua amiga Bia falando que esta com muita saudade e que gostaria de passar as férias na Itália. Carol então percebe a bobagem que tinha feito e diz a amiga que venha passar suas férias ali.
Os dias passam e chega o momento da chegada de sua amiga Bia.
Carol vai cedo para o aeroporto.
O avião pousa e Carol olha de longe aquela linda mulher que se dirige ao seu encontro.
Abraçam-se e sentem que hoje será um novo dia.
Carol leva sua amiga para seu apartamento e ficam conversando noite adentro.
Laura não aparece naquele dia e Bia nota a falta, mas não fala nada para sua querida amiga.
Os dias passam e as duas passeiam pelos museus, parques da cidade e vão a um café.
Chegando lá notam que Laura está acompanhada de outra mulher conversando carinhosamente e não percebem que elas estão ali.
Bia repara na decepção de sua amiga e diz:
-Vamos para outro lugar querida. Não tens que estar assistindo isso.
Saem então a caminhar e Carol chora copiosamente, Bia abraça a miga para dar conforto a ela.
E percebem que o carinho é maior do que elas imaginavam.
À noite Laura chega em casa feliz da vida e Carol pede para falar com ela.
-Laura quero que você seja sincera. Diga-me esta apaixonada por alguém?
-Ah!Como!
-Abra o jogo, vou sofrer, mas me fala.
-Certo, estou apaixonada por Sônia a médica de minha Clinica. Eu estava esperando para te contar.Mas se queres saber aconteceu logo após eu ter chegado do Brasil.Não queria te falar assim.Já que sabes então vou pegar minhas coisas e vou embora.
Laura pega seus pertences e se despede de sua amiga e vai para a casa de Sonia.
Aqui termina um episódio dessa estória de amor.
Laura fica arrasada com a situação e Bia conforta sua amiga.
Ficam abraçadas e adormecem no sofá.
No amanhecer Carol acorda e vê o café da manhã que Bia fez para elas tomarem. No centro da mesa flores vermelhas e uma musica suave toca no fundo.Então Carol dá-se conta do que tinha deixado de lado sua querida amiga Bia que a amava profundamente.
Bia convida Carol para voltar para o Brasil e colocarem uma Clinica juntas já que são formadas na área da Estética.
Resolve partir com sua amiga, mas precisa resolver algumas situações no emprego e o aluguel do apartamento.
Daquele momento em diante a relação das duas toma um novo rumo para viverem felizes.
Agora Carol feliz com sua amiga passa a sorrir e ver o belo da vida junto com ela.
No ritual do amor nada é impossível, basta querer e entregar-se firmemente num delírio de amor.
Assim elas voltaram para o Brasil e montaram uma Clinica e viveram felizes.

VERA LUCIA MARTINS SALBEGO – A professora e poeta gaucha Vera Salbego é formada em Letras pela PUC e pós-graduada em Psicopedagogia pelas Faculdade de Amparo – SP. PE autora de vários livros e tem participações em diversas antologias nacionais e internacionais, participando do Clube de Poetas Uruguaianenses, da Associação Gaúcha de Escritores e Membro Efetivo da Academia e Sala de Poetas e Escritores Virtuais, Poetas Del Mundo, Revista Paralelo 30 e tem diversos trabalhos publicados no Recanto das Letras.Em dezembro de 2006 foi agraciada em Porto Alegre com o Diploma Destaque Cultural pelo Jornal Revolução Cultural do Escritor Benedito Saldanha. Também edita o blog Vera Salbego.

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terça-feira, abril 21, 2009

DECAMERON DE BOCCACCIO



Imagem: poster do filme “Decameron” de Pier Paolo Pasolini.

A QUARTA NOVELA DE PAMPINÉIA – PRIMEIRA JORNADA DO DECAMERÃO DE BOCCACCIO

Um monge, que caira em pecado merecedor de punição muito severa, escapa dessa pena repreeendendo seu abade, uma culpa semelhante.

(...) Em Lunigiana, povoado não muito distante deste, existiu um mosteiro que fora, em outros tempos, mais rico, tanto em santidade quanto em monge, do que o é hoje. Havua neste mosteiro, entre outros, um monge ainda jovem, cujo vigor nem a aspereza do clima, nem os jejuns, nem as vigilias conseguiam abater. Certa vez, por volta do meio dia, quando estavam todos os demais monges dormindo a sesta, o jovem monge, por um simples acaso, saiu a passear, sozinho, pelas cercanias de sua igreja. O tempo estava localizado em local muito solitário.

Aconteceu que o monge viu uma jovem lindissima, filha, talvez, de algum dos lavradores da região. A jovem estava apanhando algumas ervas pelos campos. Assim que o monge a viu sentiu-se logo acometido pela concupiscência carnal. Por esta razão, acercou-se mais da jovem. Travou conversa com ela. E tanto saltou de uma palavvra a outra, que terminou por firmar um acordo com ela. Por esse acordo firmado, levou-a à sua cela, sem que ninguém o percebesse. Instigado por um desejo excessivo, brincou com ela mas de um modo, porem, menos cauteloso do que seria conveniente.

Sucedeu que o abade do mosteiro, onde dormira, e passando sem fazer ruido, em frente à sala do tal monge, escutou a barulheira que ele e a moça faziam, juntos lá dentro.
(...) Apesar de ocupado com a jovem, e ainda que disso gozasse enorme prazer, o monge não deixou de desconfiar de algo; a certa altura, tivera a impressão de ouvir um arrastar de pés, pela ala dos quatos de dormir. (...) Conhecendo o monge que, por esta razão, seria punido com grave castyigo, mostrou-se profundamente aborrecido. (...) Depois, fingindo já ter ficado o suficiente em companhia da jovem, disse-lhe:
- Quero achar uma maneira de você sair daqui de dentro sem que a vejam; assim sendo, fique aqui mesmo, calmamente, até que eu regresse.

Deixou a cela. Trancou-lhe a porta com a chave. E encaminhou-se diretamente para a cela do abade. Dando-lhe a chave, conforme a tradição a que todo monge obedecia, quando se ausentava do mosteiro, disse, com expressão tranquila e amiga:
- Senho abade, não pude, esta manhã, ordenar que trouxessem ao mosteiro toda a lenha que pude arranjar; por esta razão, com sua permissão, desejo ir ao bosque, para mandar que a tragam.

O abade, desejando informa-se por completo com relação à falta praticada pelo monge, ficou satisfeito com o seu modo de agir. Contente, recebeu a chave, e deu ao monge permissão para ir ao bosque.

(...) Bastou o monge retirar-se, e o abade procurou resolver o que seria mais certo fazer (...) Cogitando, entretanto, que a jovem podia muito bem ser esposa ou filha de algum homem que ele não gostaria de fazer passar por essa vergonham, decidiu que o melhor seria tratar, primeiramente, de saber quem era aquela moça, para depois resolvetr o que faria. Silenciosamente, dirigiu-se para a cela do monge; abriu-lhe a pota, entrou/ e outra vez fechou-a por dentro, naturalmente. Vendo entrar o abade, a moça ficou desconcertada. Cheia de vergonha e de medo, pôs-se a chorar. O senhor abade olhou-a por muito tempo; vendo=a tão bela e sensual, sentiu inesperadamente, aidna que um tanto idoso, os apelos da carne. Eram apeklos não menos ardentes do que aqueles que sentira o jovem monge. E a si mesmo começou a dizer:

- Enfim, que razão há para que eu deixe de desfrutar um prazer, quando posso desfrutá-lo, se, por outro lado, os aborrecimentos e os tédios estão sempre preparados para que eu os prove, queira ou não? Ai está uma bela moça; está nesta cela, se que nenhuma pessoa, no mundo, saiba disso. Se posso fazer com que me proporcione os prazeres pelos quais anseio, não existe nenhuma razão para que eu não a induza. Quem é que virá a saber disto? Ninguem, nunca o saberá! Pecado oculto é pecado meio perdoado. Um acaso destes quiçá jamais venha a se verificar de novo. Julgo ser conduta acertada colher o bem que Deus Nosso Senhor nos envia.

Assim refletindo, e tendo modificado inteiramente o proposito pelo qual fora até ali, acercou-se mais da moça. Com voz melíflua, pôs-se a confortá-la e a pedir, com instancia, que não chorasse. Palavra puxa palabvra, até que ele chegou ao ponto de poder evidenciar à moça o seu desejo. A jovem, que não era construida de ferro nem de diamente, atendeu, muito comoda e amavelmente aos prazeres do abade. O padre abraçou-a; beijou-a muitas vezes, seguidamente; atirou-se com ela na cama do monge. (...) o abade não se pôs sobre o peito da moça, antes colocou-a sobre o seu próprio peito. E durante muito tempo, entreteve-se com ela.

O monge, que havia fingido ir ao bosque, mas que, na verdade, esconde4ra-se na ala dos dormitórios, viu quando o abade entre em sua cela.

(...) Quando pareceu ao abade que já se demorara o bastante em companhia da jovem, deixou-a trancada na cela, e retornou ao seu quatro. Passado algum tempo, ouvindo que o monge chegava, e pensando que ele regressasse do bosque, decidiu censirá-lo e mandar que o prendessem no cárcere. (...) O monge, sem nenhuma hesitação, retrucou:
- Senhor abade, não estou, ainda, há pouco tempo bastante na Ordem de São bento para conhecer todas as singularidades de sua disciplina. O senhor não me mostrara ainda que os monges precisam fazer-se mortificar pelas mulheres, assim como devem faze-lo com jejuns e vigilias; agora, contudo, que o senhor acaba de mo demonstrar, prometo-lhe, se me conceder o perdão por esta vez, que nunca mais pecarei por esta forma; ao contrário, procederei sempre como vi o senhor fazer.

O abade, como homem astuto que era, reconheceu logo que o monge não só conseguira saber a seu respeito muiti além do que o suposto, mas ainda ver quanto ele fizera. Por esta ra~zoa, o abade sentiu remorsos pela sua propria culpa; e ficou vexado de aplicar ao monge o castigo que ele, tanto quanto o seu subordinado, merecera. Deu-lhe o perdão, mas impos-lhe silencio, sobre quanto vira. Depois, levaram ambos a moça para fora do mosteiro; e, depois, como é facil presumir, inumeras vezes a fizeram retornar ali.

BOCCACCIO – O Decamerão, numa tradução de Torrieri Guimarães, foi escrito em 1350 pelo escritor italiano que nasceu em Paris, Giovani Boccaccio (1313-1375), uma obra em prosa que relata em dez histórias curtas, contadas por sete moças e três rapazes que se refugiam no campo para escapar da peste negra, os conflitos entre os valores cristãos e o espírito libertino da época, questões ligada à transição para o Renascimento. O “Decameron” é composto por cem histórias que abrangem as mais peculiares paixões e comportamentos humanos, e mantêm em viva presença, os clamores da carne, a infidelidade e as trapaças sexuais A obra tem a propriedade de revelar em cada conto que o proibido e o pecaminoso vigiados pelas autoridades no final da Idade Média, concretizavam-se em práticas habituais no dia-a-dia das pessoas comuns, do clero e da nobreza. Na obra, conforme dito anteriormente, há dez personagens principais que, para fugir da peste, refugiaram-se em um castelo, onde nada havia a fazer. Teriam que passar ali muito tempo, até que o ambiente externo voltasse à salubridade. Para ocupar-se, cada um dos personagens contou uma história em cada um dos dez dias. Essa obra, apesar der ter sido escrita há mais de seiscentos anos, ainda pode ser lida como enorme prazer. Por isso, tornou-se um clássico da prosa ocidental e um dos maiores livros eróticos de todos os tempos.

FONTE:
BOCCACCIO, Giovani. Decamerão. São Paulo: Abril, 1979.

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segunda-feira, abril 20, 2009

JOSÉ SARAMAGO



Imagem: Torso of Nude Woman Before a Mirror, detail, 1916, do pintor francês Pierre Bonnard (1867-1947]

O EVANGELHO DE SARAMAGO

“(...) Em verdade vos digo, não há limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes”.

“(...) entre as pernas de Maria, que assim têm de estar abertas as pernas das mulheres para o que entra e para o que sai”.

“(...) Maria parou ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse, és belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos, hesitando Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, as curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus dois seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o pubis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, aprende, aprende o meu corpo. Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava uma vez mais, outra ainda, e dizia, aprende o meu corpo, aprende o meu corpo. Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta caricia, na direção uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçavam o movimento. Não aprendeste nada, vai-te, dissera pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida. Agora Maria de Magdala ensinara-lhe, aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, aprende o teu corpo, e ele aí o tinha, o seu corpo, tenso, duro, ereto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que diz, calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti, então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se unira ao corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando, impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frêmito”.

“(...) em todo o caso o mais provável foi que nenhum daqueles homens, moradores de Magdala ou passantes informados, tivesse querido arriscar-se a ouvir a praga que os condenaria à impotência, pois é geral convicção que as prostitutas, sobretudo as de alto coturno, diplomadas ou de largo currículo, sabendo tudo sobre as artes de alegrar o sexo de um homem, também são muito competentes para reduzi-lo a uma soturnidade irremediável, cabisbaixo, sem animo nem apetites. Gozaram, pois, Maria e Jesus de tranqüilidade durante aqueles oito dias, durante as quais as lições dadas e recebidas acabaram por passar a um discurso só, compostos de gestos, descobertas, surpresar, murmúrios, invenções...”

“(...) Sou como a tua boca e os teus ouvidos, respondeu Maria de Magdala, o que disseres estarás a dizê-lo a ti mesmo, eu apenas sou a que está em ti”.

JOSÉ SARAMAGO – O escritor e poeta português José Saramago, filho e neto de camponeses nasceu na aldeia de Azinhaga na província do Ribatejo, no dia 16 de novembro de 1922, apesar de constar no registro oficial o dia 18. Mas esse não foi o único fato curioso dos primeiro anos de Saramago. Quando foi registrá-lo, seu pai pretendia que seu filho se chamasse apenas José da Silva, mas como seu apelido na aldeia era Saramago, a pessoa encarregada de registra-lo deu ao filho o apelido do pai. Por isso José da Silva veio a chamar-se Saramago. A "brincadeira" foi descoberta quando a matrícula de José Saramago da Silva foi rejeitada porque este não tinha o mesmo nome do pai. O pai de Saramago teve, então, de mudar de nome (acrescentando Saramago) para que seu filho pudesse estudar. Aos dois anos Saramago acompanhou a família à Lisboa, mas nunca distanciou-se definitivamente da aldeia de Azinhaga. Aos doze anos, por problemas econômicos, Saramago teve que transferir-se para uma escola técnica. Se aos onze anos Saramago ganhou seu primeiro livro de sua mão (O Mistério do Moinho), aos 18 era um frequentador assíduo, noturno, da Biblioteca do Palácio das Galveias, onde, sem nenhuma instrução, lê tudo que pode. Até os 25 anos, quando publicou Terra do Pecado, seu primeiro romance, Saramago trabalhou como serralheiro, desenhador, funcionário da saúde e da previdência social. Terra do Pecado tinha por nome oficial, dado por Saramago, A Viúva, mas como editor o achou pouco comercial, decidiu mudá-lo. Ainda em 1949, Saramago escreveu Clarabóia, que foi recusado pela editora (esse romance ainda permanece inédito até hoje). Saramago só passa a se dedicar exclusivamente à literatura em 59, quando assume o lugar de Nataniel Costa como editor literário na Editorial Estúdio Cor. Daí até seu segundo livro publicado, Os Poemas Possíveis, são sete anos. Esse tempo todo de silêncio literário (de 1947 até 1966) Saramago atribui a não ter o que dizer. Seu próximo livro, Provavelmente Alegria, saí em 1970, dois anos antes de ingressar no jornalismo. E dessa passagem pelos jornais A Capital e Jornal de Fundão que nasce A Bagagem do Viajante, em 1973. A mudança de Saramago começa a acontecer em 1975, quando é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias. Neste mesmo ano é demitido do diário e toma a decisão que mudaria o curso de sua escrita: decidiu somente escrever. Nesse tempo, sua única fonte de renda fixa eram as traduções. No final do ano publica O Ano de 1993, até hoje seu último livro de poesias. A partir dos 55 anos a produção literária de Saramago cresce assustadoramente, se comparada com o que ele escreveu até então. Mas é em 1980 que Saramago dá a maior guinada da sua vida literária, com a publicação de Levantado do Chão. Muitos críticos dizem que esse livro é o início do estilo saramaguiano (escrita barroca, longos parágrafos e uma forma diferente de construir os diálogos: Saramago elimina os travessões, que ele diz não haverem num diálogo comum, o que dá uma maior dinámica ao texto). Em 1991, Saramago lançou aquela que seria a sua mais polêmica obra: O Evangelho Segundo Jesus Cristo . Em 92, o Evangelho foi indicado para concorrer ao Prêmio Literário Europeu, mas o governos português, mais precisamente Souza Lara, vetou a sua candidatura, dizendo que essa obra "não representa Portugal" e que desunia o povo português muito mais do que o unia. Magoado com a censura da sua obra, Saramago resolveu deixar Portugal e se mudar para Lanzarote , nas ilhas Canárias, em 1993. Todo o processo criativo de Saramago foi mundialmente reconhecido quando da entrega do Prêmio Nobel de Literatura, ganho por ele em 1998.

FONTE:
SARAMAGO, José. O evangelho segundo Jesus Cristo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

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sexta-feira, abril 17, 2009

VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL



Imagem/foto: Derinha Rocha.

SHALESPEREANA

V

(A mútua dívida do amor)

Luiz Alberto Machado

Toda sexta-feira, meio dia em ponto, não dou mais desconto nem prazo a correr.

É dar ou fazer, não tem mais saída, obrigação já vencida só pra liquidar.

Pode até amortizar, importa adimplir, seu compromisso cumprir e sem arrazoado.

Pague logo o acertado sem cheque ou promissória porque essa cominatória só vale o que está riscado.

Não vá pular de lado, não adianta sustar, nem mesmo embargar, isso pode então custar muito desentendimento.

Pois a cada pagamento, vem o seu aditamento com a amortização.

Isso senão parto para arrematar e nem adianta arrestar ou forçar protelação.

Não brinque não, pague logo o que me deve, com celeridade breve resolvendo essa caranha.

Pois você ainda se banha diante das circunstâncias sem usar das implicâncias e comigo concordar.

Pode acordar de ser a Juliette Binoche toda só no rosa-choque, coisa linda a seduzir.

Ou pode assim, chegar Letícia Sabatella me chamando de banguela, querendo me provocar.

Vou avisar, não dou trégua nem emborco, vire-se Denise Stoklos ou Lucinda Elisa cover.

Ou faça pose, meta bronca sorrateira, pode plantar bananeira que não vou voltar atrás.

Seja sagaz, uma moça inteligente, seja bem obediente que não haverá nenhum conflito.

Faça bonito, chegue junto bem cordata sem armar qualquer bravata pra gerar mais prejuízo.

Então sugiro uma conversa amistosa, toda fina e toda prosa não correndo o menor risco.

Como petisco e armada a cortesia negociar assim podia de uma forma confortável, já pra lá de amigável quando ambos concordantes.

E adiante com fina habilidade, cordial amabilidade, entrar negociação com a maior demonstração e toda transparência, na maior das diligências tudo no maior conforme.

E se informe, caso seja essa intenção, porque do contrário então, a coisa se empena.

Não terei a menor pena, muito menos piedade.

E sei que na qualidade de credor condescendente, você vai ficar contente se a gente até brigar.

Vamos emendar e não seja tão velhaca, então vem e desempaca, pagando sua dívida.

Não fique lívida na maior da saia-justa, nem vá beber cicuta nem dê um carreirão.

Pode até ir pro Japão que estarei no seu encalço.

Você não sai do meu laço já está toda empenhada, com a calcinha afiançada, a blusinha e saia rendada, tudo já hipotecado.

Nem olhe de lado, fique logo bem nuínha e também meio arretada, se achegue logo tarada pronta pra fazer litígio.

Bote prestígio e venha nua pra emboscada, pronta pra minha cilada e pro maior esfregamento, que tô assim que nem jumento pronto para vadiar.

Quero mesmo me esbaldar por todo seu comprimento e essa sua arquitetura, pronto pra maior loucura, ferve quente o xambregar.

Isso pra cá, me agarrando com firmeza toda sua redondeza, tudo em cima, cabo a rabo.

Depois de quatro vai arcar com a despesa na maior das safadezas na demanda do tesão.

Você vai mexer pirão p´reu deixar limpo seu prato na oblação dos seios fartos até piar cancão.

Vou ajeitar meu quinhão no seu ventre apetitoso, nas ancas o guidão jeitoso, nas costas o meu repasto.

E quando farto da garanhagem e euforia, vou aprumar a minha guia pra ser agasalhado.

E sentir um bem guardado com toda litania pra você fazer no dia todo seu maior pecado.

Depois de bem dado, devendo ainda está, vou querer me aproveitar cobrando juros e mora.

E aí já sem demora exijo a quitação da primeira prestação acertada na penhora.

E isso agora que eu quero me empanzinar.

Juro que não vou ficar com fastio ou de biqueiro, vou gozar todo banzeiro até o galo cantar.

É bom pagar todo dengo com carinho, toda manha com jeitinho ou coisa parecida.
E isso pra toda vida, até perder de vista coisa de uma correntista num prazo esticado.

Está fadado seu dever reincidente, até mesmo sucumbente, coisa líquida e certa.

E seja esperta, porque esta pendência não terá mais decadência, muito menos desistência, coisa do maior valor.

E como autor, pego toga de excelência, visto toda competência e viro douto julgador.

Do que ficou, dou-lhe a mais formal ciência do teor dessa sentença, julgamento que valeu: você me deve uma conta.

E eu também devo a você.

No amor não se desconta, principalmente quando desponta coisa mútua que se deu.

Já que o seu é meu e o meu é seu, queira tudo o que é meu e mais quiser porque eu quero tudo seu porque tudo de seu é meu.

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VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL

terça-feira, abril 14, 2009

OCTAVIO PAZ



Imagem: Nude with Calla Lillies, 1944, do pintor do Realismo social e muralista mexicano Diego Rivera (1886-1957).

OS FILHOS DO BARRO DE OCTAVIO PAZ

“A sensibilidade dos pré-românticos não tardará em se transformar na paixão dos românticos. A primeira é um acordo com o mundo natural, a segunda é a transgressão da ordem social. Ambas são natureza humanizada: corpo. Ainda que as paixões corporais ocupem um lugar central na grande literatura libertina do século XVIII, somente nos pré-românticos e nos românticos o corpo começa a falar. E a linguagem que fala é a linguagem dos sonhos, dos símbolos e das metáforas, numa estranha aliança do sagrado com o profano e do sublime com o obsceno. Essa linguagem é a da poesia, não a da razão. (...) Na obra mais livre e mais ousada desse período, a do marquês de Sade, o corpo não fala, embora tenha sido o corpo e suas singularidades e aberrações o único tema desse autor: quem fala através desses corpos ensangüentados é a filosofia. Sade não é um autor passional: seus delírios são racionais e sua verdadeira paixão é a crítica. Exalta-se, não diante das posições dos corpos, mas diante do rigor e do brilho das demonstrações. O erotismo de outros filósofos libertinos do século XVIII não tem o exagero de Sade, porém não é menos frio e racional: não é uma paixão, mas uma filosofia”.

“(...) Para uns a liberdade erótica é sinônimo de imaginação e paixão, para outros significa uma solução racional dos problemas das relações físicas entre os sexos. Bataille acreditava que a transgressão era condição e também essência do erotismo; a nova moral sexual acredita que se forem suprimidas ou atenuadas as proibições, a transgressão erótica se atenuará ou desaparecerá. Blake disse: “Nós dois lemos a Biblia noite e dia, mas tu lês negro onde eu lei branco”

“O sonho de uma comunidade igualitária e livre, herança comum de Rousseau, reaparce entre os românticos alemães, aliado como em Holderlin ao amor, só que agora de um modo mais violento e denunciador. Todos estes poetas vêem o amor como transgressão social e exaltam a mulher não apenas como objeto, mas como sujeito erótico”.

“A figura de Wiliam Blake condensa as contradições da primeira geração romântica. Condensa-se e as faz rebentar uma explosão que vai além do romantismo. Foi um verdadeiro romântico? O custo da natureza, que é um dos rasgos da poesia romântica, não aparece em sua obra. Acreditava que o mundo da imaginação é o mundo da eternidade, enquanto o mundo da geração é finito e temporal. Esta idéia aproxima-o dos gnósticos e dos iluminados, mas seu amor ao corpo, sua exaltação do desejo erótico e do prazer – aquele que deseja e não satisfaz seu desejo engendra pestilência – o colocam contra a tradição neoplatonica. Embora se chamasse adorador de Cristo, foi cristão? Seu Cristo não é o Cristo dos cristãos: é um titã nu, que se banha no mar radioso da energia erótica. Um demiurgo, para quem imaginar e agir, desejar e satisfazer o desejo são uma única e mesma coisa. Seu Cristo lembra mais o Satã de The marriagé of Heaven na Hell (1793); seu corpo é como uma gigantesca nuvem iluminada por relâmpagos incessantes: a escritura chamejante dos provérbios do Inferno”.

“A influência dos gnósticos, dos cabalistas, dos alquimistas e de outras tendências marginais dos séculos XVII e XVIII foi muito profunda, não entre os românticos alemães, como no próprio Goethe e seu circulo. A mesma coisa deve-se dizer dos românticos ingleses e, claro, dos franceses. De seu lado, a tradução ocultista dos séculos XVII e XVIII entronca-se com vários movimentos da critica social e revolucionária, simultaneamente libertária e libertina. A crença na analogia universal está tingida de erotismo: os corpos e as almas unem-se e separam-se, regidos pelas mesmas leis de atração e repulsão que governam as conjunções e disjunções dos astros e das substancias materiais. Um erotismo astrológico e um erotismo alquímico; igualmente um erotismo subversivo: a atração erótica rompe as leis sociais e une os corpos sem distinção de classes e hierarquias. A astrologia erótica oferece um modelo de ordem social fundamentado na harmonia cósmica e oposto à ordem dos privilégios, da força e da autoridade; a alquimia erótica – união dos princípios contrários, o masculino e o feminino, e sua transformação em outro corpo – é uma metáfora das trocas, separações, uniões e conversões das substancias sociais (as classes), durante uma revolução. Correspondências verbais: a revolução é um crisol no qual se produz a amalgama dos diferentes membros do corpo social e sua transubstanciação em outro corpo. O erotismo do século XVIII foi um erotismo revolucionário de raízes ocultistas, tal como pode ver nos romances libertinos de Restif de La Bretonne. Do misticismo erótico de um Restif de La Bretonne à concepção de uma sociedade movida pelo sol da atração apaixonada, não havia senão um passo. Esse passo chama-se Charles Fourier. A figura de Fourier é central tanto na história da poesia francesa como na do movimento revolucionário. Não é menos atual que Marx (e suspeito que começa a sê-lo mais). Fourier pensa, como Marx, que a sociedade é regida pela força, a coerção e a mentira, mas diferentemente de Marx, acredita ser a atração apaixonada, o desejo, o que une os homens. A palavra desejo não figura no vocabulário de Marx. Uma omissão que equivale a uma mutilação do homem. Para Fourier, mudar a sociedade significa liberá-la dos obstáculos que impedem a operação das leis da atração apaixonada. Esse leis são leis astronômicas, psicológicas e matemáticas, mas são também leis literárias, poéticas”.

“(...) Fourier sustenta que o desejo não é necessariamente mortífero, como afirma Sade, nem a sociedade é repressiva por natureza, como pensa Freud. Afirmar a bondade do prazer é escandaloso: Sade e Freud confirmam de certo modo – o modo negativo – a visão pessimista do cristianismo judaico (...) Baudelaire reprova Fourier por não ter escrito uma poética, isto é, reprova-o por não ser Baudelaire. Para Fourier, o sistema do universo é a chave do sistema social; para Baudelaire, o sistema do universo é o modelo da criação poética”.

“Novalis havia dito: tocar o corpo de uma mulher é tocar o céu. E Fourier: as paixões são matemáticas animadas”.

“O espanhol Cernuda vê no prazer não só uma explosão corporal como uma critica moral e política da sociedade cristã e burguesa: abaixo estátuas anônimas, preceitos de névoa, uma chispa daqueles prazeres brilha na hora vingativa, seu fulgor por destruir vosso mundo”.

“(...) O capitalismo dessagrou o corpo: deixou de ser o campo de batalha entre os anhos e os demônios e transformou-se em um instrumento de trabalho. O corpo foi uma força de produção. A concepção do corpo como força de trabalho conduziu imediatamente à humilhação do corpo como fonte de prazer. O ascetismo mudou de signo: não foi um método para ganhar o céu, mas uma técnica para aumentar a produtividade. O prazer é um desperdício, a sensualidade, uma perturbação. A condenação do prazer abrangeu também a imaginação, pois o corpo não é apenas um manancial de sensações, mas também de imagens. As desordens da imaginação não são menos perigosas para a produção e seu rendimento perfeito que os abalos físicos do prazer sensual. Em nome do futuro, completou-se a censura do corpo com a mutilação dos poderes poéticos do homem. Assim a rebelião do corpo é também a da imaginação. Ambas negam o tempo linear: seus valores são os do presente. O corpo e a imaginação ignoram o futuro: as sensações são a abolição do tempo no instantâneo, as imagens do desejo dissolvem passado e futuro em um presente sem datas. É o retorno ao principio do principio, à sensibilidade e à paixão dos românticos. A ressurreição do corpo talvez seja um aviso de que o homem recuperará em algum tempo a sabedoria perdida. Pois o corpo não nega somente o futuro: é um caminho para o presente, para esse agora onde a vida e a morte são as duas metades de uma mesma esfera”.

OCTÁVIO PAZ – Poeta, escritor e diplomata mexicano, Octavio Paz (1914-1998), foi Prêmio Nobel de Literatura de 1990, foi integrante do Movimento Surrealista, sendo autor de mais de 20 livros de poesia e incontáveis de ensaios de literatura, arte, cultura e política. Os textos aqui publicados foram retirados do seu livro “Os filhos do Barro”, traduzido pela poeta Olga Savary.

FONTE:
PAZ, Octavio. Os filhos do Barro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

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GUIA DE POESIA

segunda-feira, abril 13, 2009

RAYMUNDO ALVES DE SOUZA



Imagem: Catarina, de Jorge Pedra.

A POESIA DE RAYMUNDO ALVES DE SOUZA

PAIXÃO

És tão linda que encanta
Tens um olhar tão brilhante
Do rouxinol que canta
Lá no fim do horizonte.
É linda tua faceirice
No belo jeito de andar
Que provoca meiguice
Dá vontade de te amar.
O teu sorriso é um poema
Que o vate vive a cantar
Tens beleza tão serena
Que minh´alma fica a sonhar
A gente pensa que está
Gozando o teu carinho
E minh´alma fica a pensar
No peito, o teu ninho.

PINGO DE AMOR

Pinga um pouco de amor
Na taça do desejo,
Um pouquinho, minha flor,
Basta... só quero um beijo.
Vê eu estou te pedindo
Cansado de esperar,
É melhor pedir sorrindo
Do que zangado beijar.
De nada vale negar
Eu fico enfeitiçando
Andando pra lá e pra cá
Pra findar te beijando.
Noto no teu sorriso
Dois pecados se escondendo
Se não é um paraíso
É o amor que está fervendo.

GLORIA DE AMAR

Vem, vem, vem logo pra cá
Passar a noite sonhando
No quarto escuro, és luar,
Beijando e nos abraçando.
Aurora já clareando
Tu, no meu colo, eu no teu,
Longe o sol despontando
O medo de amar, já morreu.
Nos já perdemos o medo
Meu bem vamos passear
Nosso amor não é segredo
Amanhã nós vamos casar.
Vou tirar uma licença
Pra gozarmos lua-de-mel
Nela morreu a inocência
Só resta, amor, gloria e fé.

ENCICLOPEDIA DO AMOR

I

O amor de uns olhos
Que avistou os abrolhos
Quando olhava pro mar.
O amor de uns lábios
Que ainda sente os ressábios
Do beijo do amor
O amor da boca
Da pequena que é louca
Pra você ir beijá-la
O amor de um pescoço
Que nos lembra o esboço
Do corpo de Vênus

II

O amor de uns ombros
Que se vê com assombro
Enfeitando o colar.
O amor de um colo
Que traiu Apolo
Pra vir nele sonhar
O amor de uns seios
Que provoca anseios
Da gente beijar.
O amor de umas curvas
Que mente nos turva
E nos manda afagar.

III

O amor paraíso
O amor de um sorriso
Que nos faz delirar.
O amor esperança,
O amor que nos cansa
De tanto esperar.
O amor majestade
O amor castidade
O amor da moral.
O amor dos ribeiros
Correndo ligeiros
A procura do mar.

IV

O amor sem vaidade
Amor piedade
Que nos manda rezar.
O amor reação
O amor da ilusão
Do que já se sonhou.
O amor que fenece
O amor de uma prece
Ao pé do altar.
O amor dos passarinhos
O amor dos seus ninhos,
Seu berço e seu lar.

CURIOSIDADE

No colo da minha amada
Eu vi uma coisa mexendo
Era uma pulga danada
Mordendo os lindos seios.
Pedi pra pulga tirar
Ela ficou sorrindo
Não deixe ninguém me olhar,
Venha... a pulga está fugindo.
Nada mais lá encontrei
Mordendo o seu regaço
Apaixonado eu beijei
E suspirei nos seus braços.
Vi quando despertei
A minha flor suspirando
Novamente eu beijei
Ouvindo meu amor cantando.

PAIXÃO

Satisfazendo os anseios
Da paixão que me devora
Eu vou beijar-te, senhora.
Na curva destes teus seios.

DESEJO

Quem me dera fosse eu cego,
Pra seres tu minha guia,
Nunca mais dos olhos d´alma
A tua imagem saia.

GOSTO DE MEL

Nunca senti tanta fé
Nem uma ânsia tão louca
De sentir o gosto do mel
Do favo da tua boca.
Um dia, eu vou te agarrar
Um descuido aproveitando
Nos teus lábios vou ficar
A vida toda beijando.
Se me deres uma dentada
Eu também vou te morder
Fica a paixão empatada
Um beijo é quem vai vencer.
Não queres beijos e abraços:
Isto não te dar fervor?
Vamos perder um pedaço
Que tira o prazer do amor.

CONFISSÃO

Ao delegado do amor,
Meu delito confessei:
O crime do meu desejo,
Três sentenças ele ditou:
Dar mais de cinqüenta beijos
Todos com muito fervor!
Na mulher que sempre amei.
E não, fugir da prisão,
Se não, eu era enforcado.
Na corrente dos seus olhos,
Laço do seu coração,
E ali, ficar sempre amando,
Nas algemas do seu colo,
Grilhões da sua paixão
E nunca mais partir o laço
Da minha beça intenção
De viver no lindo regaço.
E de ser decapitado
Com a lâmina do seu olhar,
O punhal dos seus seios,
A navalha do seu sorriso,
O carrasco sendo os seus seios.
E ali ficar enterrado
Num eterno paraíso.

EU VOU ME CANDIDATAR,
VOU GORVERNAR TUA VIDA

Vou começando a falar
Com o som do teu sorriso,
Neste momento, preciso,
Eu vou me candidatar;
Vou no comício lutar,
Começar minha lida
Pra te vencer, oh querida
Escuta bem o que eu digo
Embora surja castigo
Vou governar tua vida.

EU VI UM COLO FORMOSO
QUE LHE ENFEITAVA O COLAR

Olhando malicioso
Lá num regato a brincar,
Convidando a versejar
Eu vi um colo formoso.
Qual será o venturoso
Beija-flor que vai beijar,
Fluir, sentir e sonhar
Nos seios, duplos assombros
Daqueles tão lindos ombros
Que lhe enfeitava o colar.

CANTIGA POPULAR

- Tive tias e sobrinhas
Mucamas e crias de casa,
Com todas eu fiquei vaza,
Todas foram fêmeas minhas.
Até as próprias vizinhas,
De mim tomaram barriga,
Ta você mesmo que diga,
Que foi meu alcoviteiro,
O seu pai foi meu meeiro
E sua mãe foi minha amiga.

COM MINHA ALMA ENLEIADA
DA ESSENCIA DO SEU PEITO

Numa noite enluarada
Olhando o belo luar
Fugiu pra eu não beijar
Com a ama enleiada
Mas, eu beijei minha amada
No seu amor fui eleito
Com o prazer satisfeito
Abracei só pra sentir
Aquele aroma subir
Da essência do seu peito.

LINDA, LINDA DE MORRER
PROVOCANDO DOCE ILUSÃO

Faz um amor renascer
Lindos lábios sorrindo
Sua bela voz se ouvindo
Linda, linda de morrer;
Obriga a gente a querer,
Na orquestra do coração
Do amor cantar a canção,
Das serenatas da vida,
Beijando a mulher querida
Provocando doce ilusão.

RAYMUNDO ALVES DE SOUZA – Nascido em Panelas, em 1884, viveu em Palmares onde morava sua avó e onde se formou artisticamente, destacando-se entre os poetas, escritores e artistas locais do passado. Foi aluno da mãe do poeta Ascenso Ferreira, foi pro seminário desistindo depois da ordenação, passando a trabalhar no barracão do Engenho Japaranduba, quando se torna mestre alfaite. Daí, colaborou com jornais e revistas pernambucanos e de outros estados. Tornou-se ator, casou-se, estreitou amizade com Ascenso Ferreira, casa-se de novo quando vai pro Recife, re-casou-se e vai se casando infinitamente, tornou-se vereador palmarense pelo PSD, fundando a Academia Palmarense de Letras. Em 1979, foi publicado o primeiro e único número do caderno cultural Nova Caiana, em Palmares, “Vida & Poesia de Raimundo Alves de Souza”, sob a coordenação editorial de Juhareiz Correya. Posteriormente seus poemas foram incluídos na antologia “Poetas dos Palmares”, edição de 1987. Em 1988 foi publicado pelas Edições Bagaço o livro “Celeiros d´alma – antologia poética”.

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GUIA DE POESIA

quinta-feira, abril 09, 2009

VERS&PROSA PARA MENINA AZUL



Imagem: foto/arte de Derinha Rocha.

SHALESPEREANA

IV

(A GUERRA DO AMOR)

Luiz Alberto Machado

Toda sexta-feira, meio dia em ponto, dá-se o confronto e eu estou nu front de nossa guerra armada.

Nua abastada na soberba do seu trono não sabe do pandemônio que vou armar por buruçú com manobras de Sun Tzu num Guevara ressuscitado, pelejando revoltado a revolução libertadora.

Ave canora tão linda e indiferente vai saber no de repente com quantos paus se faz canoa.

E não à toa no meu solfejo zapatista, meu propósito reformista no seu corpo que é Chiapas.

Numa bravata sem acordo de Genebra nem de quebra o de Bogotá, muito menos haverá quem que nos detenha nessa dança tão portenha.

E que venha o combinado de Lacandona, pois assim, minha madona, saquearei seu fausto na peleja porque toda riqueza traz um encoberto crime, tudo impune, tudo se exime na maior das sem-gracezas.

E com firmeza vou impor minhas vontades devassando a sua propriedade, o seu reino e barricadas, seus motins, suas brigadas, até deixá-la indefesa.

E assim seja, com meus mísseis, os meus beijos; e o meu desejo é a munição de peso que agirá sobre tudo o que é defeso, tudo além do bem e do mal.

Vou sublevar sua cabeça paraguaia quando suas mãos uruguaias acenderem o meu braseiro.

Sou brasileiro com rajadas de jeitinho, bombardeio com carinho e ternura incendiária pra na reforma agrária me apossar da sua mina, toda alma feminina, seu encanto e seu poder.

Nada a esconder, não haverá um só esconderijo que o meu membro todo rijo não venha reconhecer.

E por vencer com valor e com denodo, aceitarei ser seu todo poderoso, ser seu rei e seu oxossi, tomando a minha posse sobre tudo do vencido.

E pro seu castigo vai festejar minha vitória que por ser tão meritória, se renda aos caprichos meus e dê graças a deus no prazer da minha glória.

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VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL

sexta-feira, abril 03, 2009

VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL



Imagem: Foto/Arte de Derinha Rocha

SHAKESPEAREANA

III
(NOSSA FESTA)

Luiz Alberto Machado

Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, eu bato meu ponto pro que der e vier.

Meio dia em ponto, toda sexta-feira eu chego já pronto e o que é o que é.

E ela vem de viés com toda surpresa, rompendo a represa de querer mais.

É tudo demais e ela só me fascina, jóia excepcional, uma real mina, bailarina de Degas.

Ou nua vestal, dançarina de fuá.

E eu sentimental com toda destreza arrasto essa presa, astuta indefesa do pito voar.

E para empenar tomo a pele e o pulso, a deixo em soluço a gemer de manhar.

A se espernear no corpo rendido, eu domino o seu urânio enriquecido pronto pra explodir e eu só pra acudir num bote certeiro, quando vou de matreiro adornar seus quadris.

E se faz bela atriz ensaiando sem medo a me ter entre os dedos, a me lamber num enredo de São Paulo a Paris.

O que eu sempre quis e me morde abusada, se entope e se engasga entornando o seu mel.

Eu adoço seu fel e vou de gandaia com minha azagaia no seu beleléu.

Já sou réu condenado a morrer um bocado no meio do céu.

Onde ela faz escarcéu, reluta e se esgana, ela goza sacana no maior pitéu.

Ao léu a valer, ela não satisfez.

E vem tudo de novo pra glória de um rei, ela sabe e eu não sei, o que importa é viver e venha tudo outra vez.

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VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL
CANTARAU
TODO DIA É DIA DA MULHER

sexta-feira, março 20, 2009

VERS&PROSA DE AMOR PARA A MENINA AZUL



Foto/Arte: Derinha Rocha

SHAKESPEAREANA

II
(OUTRA VEZ)


Luiz Alberto Machado


Toda sexta-feira, meio dia em ponto, ela apronta de tudo comigo e pronto!

Ela chega e me olha e toda se desfolha para o bem-me-quer.

Ela se abre mulher e eu sorrio, ela se rela e vira cadela no cio e me abraça e me beija, e se faz de puta e princesa quando me quer e eu sou sua passarela onde o sangue dá na canela pro que der e vier.

Ela ronda, me cheira e me fela, ela usa e lambuza, se descabela e me acusa de só abusar dela.

Ela lambe e abocanha, ela vence e me ganha na melhor de três.

Ela me agarra medonha, ela me bate uma bronha na maior maciez.

Ela chupa e me suga, ela aponta pra fuga e me faz descortês.

Ela agita e me alisa, ela grita e repisa que é a última vez.

E nem bem recomeça, ela me prega uma peça e posa sisudez.

Ela bole, suspira e rebola, ela delira e quase degola a minha rigidez.

E se aninha e engalfinha, ela jura que é minha por mais de um mês.

Ela assunta e se enrosca, ela se faz mesa posta e eu seu freguês.

Ela ajeita e retruca, ela monta mutuca e diz que não fez.

Ela esfrega e renega, ela rega e pula a janela da minha timidez.

Ela atiça e se esfola, ela então faz escola pela insensatez.

Ela aguça e me inflama, ela me queima na chama da sua nudez.

Ela se arrisca de fato, ela fica de quatro na maior viuvez.

Ela torce e retorce, ela morde, rejeita e se ajeita e nem se refez.

Ela goza e remexe, ela arrocha e debocha na maior altivez.

Ela treme e me grita e quer sair muito bem nessa fita com toda malvadez.

E quando eu gozo espalhafato de folia de bombo
Ela sorri que de fato fui salvo pela zoada do gongo.


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VERS&PROSA DE AMOR PARA A MENINA AZUL
TODO DIA É DIA DA MULHER
CIDADANIA & FREVO NAS ESCOLAS

sexta-feira, março 13, 2009

VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL



Imagem: Derinha Rocha

SHAKESPEAREANA

Luiz Alberto Machado

Toda sexta-feira, meio dia em ponto, ela aponta nos lábios um sorriso de sol acendendo a vida todinha só pra mim.

E na boca carmim escancarada, folia de festa, obra rara na língua de fora quão louca desvela os teores mais fundos de todos os sabores do mundo e da vida. E só para mim.

Meio dia em ponto, toda sexta-feira, a sua boca gulosa me engole e me guia pra toda alegria da satisfação.

E se torna o hangar dos meus vôos, porto dos meus navios, pia batismal onde lavo todos os meus pecados e sortilégios, túnel onde a sorte irisa meus sonhos e indagora revolveu minhas crenças inundando de assombro toda alegoria e o dia anoitece, a tarde madruga e a noite amanhece felando em mim.

Dentro da sua boca, toda sexta-feira, meio dia em ponto eu me enrijeço adulto e me extasio menino travesso que não cansa brinquedo um segundo sequer.

Tudo só para mim.

E meio dia em ponto, a língua estirada em agonia me faz mais real em todas fantasias, shakespeareanamente a saber que existem mais gozos nas estrelas do céu da sua boca do que possam prever as minhas mais obscenas ejaculações.

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VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL
TODO DIA É DIA DA MULHER
LUIZ ALBERTO MACHADO NO CALDEIRÃO DO HUCK

quinta-feira, março 12, 2009

LÍRIA PORTO



Imagem: Helena ou Eva?, foto de Marcus Steinmeyer

OS DELICIOSOS VERSOS SENSUAIS DE LÍRIA PORTO

PARELHA

aberta a janela
penetra-se nas trevas
estrelas se fazem
e nus nesse oásis
quedamo-nos

entre as frestas
o caldo da entrega
sal do amor

a morte
hora incerta
deu-nos a deus
corpos inocentes

roupas largadas
montanhas
pegadas
suor

LA BELLA DONNA

seus olhos são noites
seu cheiro manhãs
são tardes seu colo
seu sexo agoras
seus seios auroras
o tempo advoga
a seu favor

O SEMINARISTA

afunda no decote
margeia os mamilos
escorre pelas bordas
desvia pros quadris
desce até as coxas
retorna ao umbigo
enquanto a prima dorme
cheirosa igual canela
biquini cor-de-rosa
virgem por triz

(IN)DE.CISÃO

todos os dias
ao amanhecer
jogo-te ao vento
tomo a decisão
de te esquecer

depois eu me lembro
do teu riso do teu beijo
sinto um arrepio
e me arremesso

ARRASTÃO

teus olhos são rede
o mar é amor
eu - peixe

ÂNGELA

a moça de alma albina
quer ser puta não consegue
fica nua vai pra esquina
quando um homem se aproxima
lua não tem sexo

FLUIDOS

tornei-me assim liquefeita
quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nesta vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
um imenso chafariz

minha tristeza de chuva
essa amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual um dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

CÓCEGAS

tuas águas me embalançam
como o mar e o navio

rio

DELTA

entre os joelhos e a virilha
uma ilha de renda a esconder a gruta
de mato dentro

TESÃO

cheiro de arroz cor de leite
salpicado com canela
gosto de cravo pau de canela
um doce manjar dos deuses
para todos os prazeres
para dar água na boca
sentir vontade e voltar

arroz doce com canela
nesta vida passageira
esperarei por cem anos
mais que isso se preciso
retornarás bem cremoso
cheiro de arroz cor de leite
gosto de cravo pau de canela

AL DENTE

saia curtinha
blusinha verde
e o vegetariano
não desgruda os olhos
da sua carne tenra

OBLÍQUA

quando a cama fica imensa
atravesso-a de ponta a ponta
desassossegos pelo meio
insônias no viés

DESMILAGRE

eu te abismo
tu me abismas
e em queda livre
precipitamo-nos

o fundo
era previsível
a superfície
nem santo

DI_AMANTE

eu te quero sol de todo dia
e só vens na lua cheia

a bola de neve do meu medo
(não sou a amada sou o pouso o oásis)
te traz na primavera do ano bissexto

assusta-me à distância
o cometa halley

SEM PÉS NEM CABEÇA

ali
no ponto gê
a tomada elétrica
deixa guiomar
de pernas pro ar

MAGO

alguém que me queira como sou
que me pegue e me esfregue
até que eu veja o gênio
da lâmpada

DE TODAS AS FÓRMULAS

fazes-me falta

em todas as fases
faltas-me

LADAINHA

faço verso rastejante
igual cobra no papel

faço verso flutuante
passarinho lá no céu

faço verso comprimido
fechado dentro do frasco

faço verso assim ridículo
acostumado ao fiasco

faço verso bem florido
nascido em pleno setembro

faço verso esquecido
o jeito dele nem lembro

faço verso galopante
como visita de amante

faço verso des'tamanho
coração de minha mãe

faço verso
faço verso

faço verso

CUNHÃ

parece uma flor de palha
a moça que me atrapalha
sem cheiro e sem encantos
no entanto igual arraia
enreda em sua saia
o dono dos meus quebrantos

O CABAÇO

penso aqui com os borbotões
estou cheia de senões
se fossem abotoados
os pingolins dos meninos
ia ser um desatino
desarrolhar os coitados
acho mesmo houve engano
nas meninas muito pano
os rapazes sem cortina
triste é a nossa sina
um selo de validade
desde a mais tenra idade

LÍDER

peito para frente
bunda para trás
e o batalhão atrás

CONQUISTA

a pele da piscina
arrepia-se
com as tuas braçadas

DIABA

nem mais bonita rica ou inteligente
queria tão somente ser o seu tipo
a mulher que ele escolhesse sem titubeio
sem avaliar os prós os contras
a que tivesse a medida
o exato tanto
entre puta e santa

LIRIA PORTO – A poeta e professora mineira Liria Porto tem vários de seus excelentes poemas publicados em diversas páginas, revistas, sites e portais da web. Ela edita o blog Tanto Mar e Putas Resolutas.

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segunda-feira, março 09, 2009

GOETHE



Imagem: Female nude reclining on a divan, do pintor do Romantismo frances, Eugene Delacroix (1798-1863)

EPIGRAMAS DE JOHANN WOLFGANG VON GOETHE (1749-1832)

Não te queres deitar nua ao meu lado, bem-amada;
Por vergonha te escondes de mim em tuas vestes.
Diz-me, o que cobiço? A tua roupa ou o teu corpo?
vergonha: uma roupa que os amantes jogam fora,

Quanto tempo procurei uma mulher; só achava putas.
Finalmente te apanhei, putinha: aí tive uma mulher.

Dá-me, em vez de Schwanz, uma outra palavra, Priapo,
Pois que, poeta, estou mal servido em alemão.
Chamam-me phallos em grego, o que soa bem ao ouvido
E a mentula latina é palavra tolerável.
Mentula vem de mens, Schwanz tem a ver com traseirom
Onde nunca senti alegria nem prazer.

Não vos irrite, mulheres, admiramos as moças:
Gozais de noite o que elas de dia excitam.

Gosto de rapazes, mas muito mais de moças:
Satisfaço a moça, e ela me serve de rapaz.

Meu maior cuidado: Betina se faz cada dia mais destra,
Mais e mais ágeis se tornam seus braços, suas pernas,
Consegue até levar a linguinha à sua graciosa greta
E com ela brincar: já não lhe importam muito os homens.

A FELICIDADE DA AUSÊNCIA

Suga, ó jovem,
o sagrado néctar da flor ao longo do dia,
nos olhos da amada.
Mas, sempre esta dita é melhor que nada,
estando afastado do objeto do amor.
Em parte alguma esquecê-la posso,
mas se à mesa sentar-me tranqüilo
com espírito alegre e em toda liberdade
e o impereptível engano que faz venerar o amor
e converte em ilusão o desejo.

JOHANN WOLFGANG VON GOETHE – O poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta alemão Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832), desenvolveu vasta obra literária, autobiográfica, de estudos de ciências naturais e conversações, sendo considerado com unanimidade como a maior personalidade da literatura alemã e o maior poeta alemão. Ele envolveu-se em aventuras amorosas e escreveu poesias anacreônticas, à moda da época, chegando a proclamar sua divina mãe Devi Kundalini, a Serpente Ígnea de nossos mágicos poderes, como autêntica libertadora. Incontestavelmente, nas relações amorosas mais conhecidas de Goethe, excluindo-se, naturalmente, a sustentada com Cristina Vulpius - foram, sem exceção alguma, de natureza mais erótica que sexual, como as de Carlota Buff, Lili ou Frederica Brion e a senhora Von Stein, chegando a escrever a sua mais forte a paixão não esquecida por Charlotte, tema do romance Die Leiden des jungen Werther (1774; Os sofrimentos do jovem Werther). Já com Charlotte von Stein, uma mulher altamente sofisticada, inspiraram-lhe nova série de poesias líricas. ”Erotica Romana” é o título da primeira versão manuscrita das consagradas “Elegias Romanas” de Johann Wolfgang von Goethe, resultante da sua estadia em Itália (1786-1788), embora maioritariamente composto após o seu retorno, este ciclo de poemas eróticos sofreu numerosas alterações, atendendo à tolerância de um público que apenas admitia a expressão literária do prazer sensual através da máscara da mitologia ou da imitação dos poetas clássicos da antiguidade. Com isso, observa-se que Goethe arrastava consigo rumores de inúmeras aventuras amorosas com várias mulheres e, mais concretamente, trazia consigo Catherine Vulpius com quem passou a viver, sem com ela se casar. Foi imbuído do espírito libertino e liberal que escrever poemas eróticos.

FONTES:
BARRENTO, João (Org.). Literatura e sociedade burguesa na Alemanha (séculos XVIII e XIX). Lisboa: Apáginastantas, 1983.
BROCA, Brito. A viagem maravilhosa de Goethe. In: ___. Ensaios da mão canhestra. São Paulo: Polis / Brasília: INL, 1981.
___. Sobre os amores de Goethe. In: ___. Escrita e vivência. Campinas: Edunicamp, 1993.
CAMPOS, Haroldo de. Deus e o diabo no Fausto de Goethe. São Paulo: Perspectiva, 1981.
CARPEAUX, Otto Maria. Presença de Goethe. In: ___. A cinza do purgatório; Ensaios. Casa do estudante Brasileiro, 1942.
GOETHE, Wolfgang. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Nova Alexandria, 1999.
_____. Epigramas. Revista Versoados. Disponivel em Acesso em 08.03.2009.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. O Fausto. In: ___. O espírito e a letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
MAAS, Wilma Patrícia Dinardo. Poesia e verdade, de Goethe - a estetização da existência. Cerrados. Brasília (UnB), v. 9, p. 165-177.
MONTEZ, Luiz Barros. A obra autobiográfica de Goethe como relato historiográfico. Itinerários (UNESP), v. 23, p. 39-48, 2005.
___. Literatura e vida: relembrando um Goethe um tanto esquecido. Terceira Margem, Rio de Janeiro, v. 10, p. 170-185, 2004.
___. Sobre o mito do Goethe. Forum Deutsch - Revista Brasileira de Estudos Germânicos, Faculdade de Letras da UFRJ, v. 6, p. 88-102, 2002.
___. Conhecimento e alienação no Fausto de Goethe. Terceira Margem. Rio de Janeiro (Revista da Pós-Graduação da Faculdade de Letras da UFRJ), n. 4, p. 34-41, 1996.
___. O século XVIII e o Pré-Romantismo. Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, n. 127, p. 99-110, 1996.
ORLANDI, Enzo. Goethe. Lisboa: Editorial Verbo, 1972.
PAES, José Paulo. Poesia erótica. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

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sexta-feira, março 06, 2009

VERS&PROSA DE AMOR PELA MENINA AZUL



Foto: Derinha Rocha.

A VARANDA

Luiz Alberto Machado

A lua reinava com a chegada da noite naquelas paragens. Era cheia na penumbra e transversal dos beijos estalados com sabor de cerveja e mar.

No escurinho, frente a frente, mergulhamos no confronto dos corpos e ela beijoqueira começou a uivar com seus olhos de faroleiro errante.

Primeiro naufraguei no seu decote e embarquei lépido rumo à plataforma do amor e nele fiz morada para sempre sem abrir mão de cavoucar todos os acidentes geográficos de sua assimetria provocadora. E fui, com uma mão entre a pele da cintura e o elástico do biquíni rompendo os vales do ventre umedecido. A outra alisando impune o dorso da coxa divisando a mina púbica de todos os desejos florescidos. Essa a nossa balada, o momento perfeito.

Foi quando ela transida pela loucura da sedução infringiu todos os limites. Investigou, virando a cabeça, inspecionando lado a lado, conferindo os mínimos detalhes do ambiente para ver a existência de alguma presença afora a nossa, algum testemunho ou atrapalho flagrante.

Enquanto fazia sua minuciosa conferência por toda dimensão territorial, eu me rendia ao toque de suas mãos inquietas e usurpadoras. Era porque enquanto ela inspecionava tudo, as suas mãos percorriam minha carne agitando minhas veias., vasculhando meu ventre e, depois da conferência geral, foi se ajeitando comodamente até que ajoelhou-se no piso forrado da paixão como uma Juliete Binoche arrepiada com a intimidade desnuda embaixo da saia levantada que dava comodamente com a vagina nua assentada e esfregada no meu pé como se fosse a sela do corcel onde ela rebolava e se arrastava à medida que se preparava para uma prece em frente da minha vela viva e empunhada pelo seu bulício.

Parecia que estava insatisfeita de tudo e como quem quer mais do que possui, aos murmúrios lancinantes do cio, ela arremessou a vida no alvo do meu sexo premiado e dele fez o pavio de sua busca para alimentar o hábito de querer no hálito de sua alma requerente com o trabalho de quem faz por amor na labuta dos amantes, fazendo-o da pira iluminada com a sua língua acendedora de lampião no breu.

Acolhedora atirou-se incansável e frenética e foi recolhendo todo meu edifício vistoso, andar por andar, lentamente, centímetro por milímetro, delicada e vorazmente implorando por misericórdia porque queria mais e muito mais do que havia até então se apropriado.

Ela rangia os dentes, boca cheia dágua da baba escorrer pelo canto. E mais agitada ia acomodando o meu rijo tridente pelos vãos dos seus lábios que apontam os jardins do Éden. E ruminava contornando toda cúpula, torre e superfície acesa descortinando a lâmina afiada da minha espada porque sua boca movediça tratava de dar cabo de toda dimensão da minha estatura agora untada por sua saliva e batom vermelho que é a rosa em flor de lótus com mil pétalas estelares para toda a cobiça e se apossava com todo gosto e me destrinchava reavendo o que perdi na existência e não me restava mais nada do que aquilo tudo da dádiva dela.

Foi aí que seguiu desmedida e sussurrava amolegando o meu guidon energizado, completamente abocanhado por sua faminta determinação. E gemia com a lareira do seu ventre grudado na minha pele. E prostrada sobre o meu ventre ela encarava a minha serpente de gumes afiados e que descobre todos os seus mistérios e que a faz mais que o esplendor do veludo sobre o meu mel. E lambia os lábios abastados como quem se prepara para o banquete de gratidão, como quem se arma para o bote benfazejo ao paladar e se arregalava quando suas mãos arregaçavam com mil beijos de sua gula profana que invadia e lambuzava, segurava e sobejava o meu sobejo e vicejava afogada na mira, retendo para si entre os dedos esgoelada e sugava e eu crescia. E afagava com o rosto, e tomava insaciável o falo como quem mede o palmo na palma da mão, ah, fodoral.

Aí ela fechava o cerco e nada perco porque o meu cajado luzidio é o pico salivado pela sua sede e fome como quem escava o poço da garganta quando emerso da sua arma mais estreito transponho a abertura do seu empenho que se sujeitava a caprichar no vai-e-vem e a confiscar minha vigília como quem persegue a sua vingança, como quem rompe o senso de quem quer consolo a qualquer preço, como quem quer colo a qualquer custo e comendo bolo no maior rolo e eu aceso nos seus beiços que são novelos que me envolve na alquimia que me faz fruta madura quando a noite não cabe mais e retomo sem me deter e puxo, repuxo com força e quero atravessar sua laringe até onde mais der porque as suas margens esborraram com a lambida caleidoscópica onde toda cornucópia é mais que abundante e faustosa e tudo é imenso e absorve a minha manivela por inteiro porque ela engole o cabo e eu no seu reduto de cadela rosnando no osso de carne como quem saboreia um picolé delicioso e eu no auge vou como quem perde o leme, esquece a rota e ela me leva ao tálamo da sua presença ampla, vasta e totalmente viva entre as sombras que tenho porque fecho os olhos e ela sorve meu sêmen completamente embriagada e deliciando o néctar do meu gozo vivo nas galáxias de sua divina abóbada palatina que é a taça do desejo de sua mais que viçosa alma de nenhum fastio e transcendente precipício das chamas no maremoto da saliva que é o véu e que inventa o abismo delicioso que colhi e decifrei com toda e nenhuma direção e consinto que se sirva enquanto eu vulnerável vou sucumbindo à paixão do amor mais que desejado. Estava eu entregue e sob o seu jugo enquanto ela, olhar de sonsa, jeito de manhosa que não tem nada a ver com isso, risinho safado oculto no olhar, satisfação de tímida e nua reluzente, danada de gostosura e me tratando por herói, me fazendo amo e querendo ainda ser estraçalhada pela minha voraz vontade de esganá-la por inteiro com meus beijos, carícias e esfregões.

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VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL
8 DE MARÇO – DIA DA MULHER

quinta-feira, março 05, 2009

DIA DA MULHER - ESTIGMA



ESTIGMA

Ozi dos Palmares & Luiz Alberto Machado

Toda vez que penso em ti vejo ouro
pois tu és a minha jóia rara
céu de azul e furta-cor
promessa de flor, prisioneira da vida
dúvida do ser para amar
porque já se amou

pois já que tu és a promessa
de um sonho por se realizar
pra viver e ser feliz e jamais
será fuga de um beijo
ou desejo fugaz

enquanto não se chora uma dor
a gente poderá ser feliz muito mais.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados dos autores.Música inserida no cd “Vontade”, de Ozi dos Palmares, 2008.

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8 DE MARÇO – DIA DA MULHER
LUIZ ALBERTO MACHADO NO CALDEIRÃO DO HUCK

DIA DA MULHER



TODAS ELAS JUNTAS NUM SÓ SER

Lenine & Carlos Rennó

Não canto mais Babete nem Domingas
Nem Xica nem Tereza, de Ben jor;

Nem Drão nem Flora, do baiano Gil;
Nem Ana nem Luiza, do maior;

Já não homenageio Januária,

Joana, Ana, Bárbara, de Chico;

Nem Yoko, a nipônica de Lennon;
Nem a cabocla, de Tinoco e de Tonico;

Nem a tigreza nem a vera gata
Nem a branquinha, de Caetano;
Nem mesmoa linda flor de Luiz Gonzaga,
Rosinha, do sertão pernambucano;
Nem Risoflora, a flor de Chico Science,
Nenhuma continua nos meus planos.
Nem Kátia Flávia, de Fausto Fawcett;

Nem Anna Júlia do Los Hermanos.

Só você,
Hoje eu canto só você;
Só você,
Que eu quero porque quero, por querer.

Não canto de Melô pérola negra;
De Brown e Hebert, uma brasileira;
De Ari, nem a baiana nem Maria,
Nem a Iaiá também, nem minha faceira;
De Dorival, nem Dora nem Marina
Nem a morena de Itapoã;
Divina garota de Ipanema,
Nem Iracema, de Adoniran.

De Jackson do Pandeiro, nem Cremilda;

De Michael Jackson, nem a Billie Jean;

De Jimi Hendrix, nem a doce Angel;
Nem Ângela nem Lígia, de Jobim;

Nem Lia, Lily Braun nem Beatriz,

Das doze deusas de Edu e Chico;
Até das trinta Leilas de Donato,
E de Layla, de Clapton, eu abdico.

Só você,
Canto e toco só você;
Só você,
Que nem você ninguém mais pode haver.

Nem a namoradinha de um amigo
E nem a amada amante de Roberto;
E nem Michelle-me-belle, do beattle Paul;
Nem Isabel - Bebel - de João Gilberto;

E nem B.B., la femme de Serge Gainsbourg;
Nem, de Totó, na malafemmená;
Nem a Iaiá de Zeca Pagodinho;
Nem a mulata mulatinha de Lalá;

E nem a carioca de Vinícius
E nem a tropicana de Alceu
E nem a escurinha de Geraldo
E nem a pastorinha de Noel
E nem a namorada de Carlinhos
E nem a superstar do Tremendão
E nem a malaguenha de Lecuona
E nem a popozuda do Tigrão

Só você,
Hoje elejo e elogio só você,
Só você,
Que nem você não há nem quem nem quê.

De Haroldo Lobo com Wilson Batista,
De Mário Lago e Ataulfo Alves,
Não canto nem Emília nem Amélia,
Nenhuma tem meus vivas! E meus salves!
E nem Angie, do stone Mick Jagger;
E nem Roxanne, de Sting, do Police;
E nem a mina do mamona Dinho
E nem as mina – pá! - do mano Xiz!

Loira de Hervê e loira do É O Tchan,
Lôra de Gabriel, o Pensador;
Laura de Mercer, Laura de Braguinha,
Laura de Daniel, o trovador;
Ana do Rei e Ana de Djavan,

Ana do outro rei, o do baião

Nenhuma delas hoje cantarei:
Só outra reina no meu coração.

Só você,
Rainha aqui é só você,
Só você,
A musa dentre as musas de A a Z.

Se um dia me surgisse uma moça
Dessas que com seus dotes e seus dons,
Inspira parte dos compositores
Na arte das palavras e dos sons,
Tal como Madallene, de Jacques Brel,
Ou como Madalena, de Martinho;
Ou Mabellene e a sixteen de Chuck Berry,
E a manequim do tímido Paulinho;

Ou como, de Caymmi, a moça prosa
E a musa inspiradora Doralice;
Se me surgisse uma moça dessas.
Confesso que eu talvez não resistisse;
Mas, veja bem, meu bem, minha querida;
Isso seria só por uma vez,
Uma vez só em toda a minha vida!
Ou talvez duas... mas não mais que três...

Só você...
Mais que tudo é só você;
Só você...
As coisas mais queridas você é:

Você pra mim é o sol da minha noite;
É como a rosa, luz de Pixinguinha;
É como a estrela pura aparecida,
A estrela a refulgir, do Poetinha;
Você, ó flor, é como a nuvem calma
No céu da alma de Luiz Vieira;
Você é como a luz do sol da vida
De Steve Wonder, ó minha parceira.

Você é pra mim e o meu amor,
Crescendo como mato em campos vastos,
Mais que a gatinha para Erasmo Carlos;
Mais que a cigana pra Ronaldo bastos;
Mais que a divina dama pra Cartola;
Que a domna pra Ventadorn, Bernart;
Que a honey baby pra Waly Salomão
E a funny valentine pra Lorenz Hart.

Só você,
Mais que tudo e todas, é só você;
Só você,
Que é todas elas juntas num só ser.

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8 DE MARÇO – DIA DA MULHER
LUIZ ALBERTO MACHADO NO CALDEIRÃO DO HUCK

FONTE



FONTE

Letra & Música de Luiz Alberto Machado

Quero que você me venha de manhã
Plantar a luz do sol com sua fonte a minar e em mim se escorrer

E aguando esta ternura na gente venha vontade de nascer:
Beijar-lhe o ventre e ver a vida a rolar.

Vai ser demais!

O tempo vai ruir pra nós, desexistir

Incendiar o corpo, a voz, a sede saciar na foz assim, sedenta

A diluir-se em flor pelos confins

Em você onde sou eu será promessa inteira do querer?

Amor, que vai ser de mim se um dia essa vontade de viver

Perder o amor de vista e esquecer angústia de não ter raiz?

O ar desvencilhar-se do nariz?

Será de mim, o que será do meu coração?

Será de mim, o que será do meu coração?

Será de mim, o que será do meu coração?

Será de mim...???!!!!!

O que será do meu coração?!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Letra & música de Luiz Alberto Machado. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992.

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8 DE MARÇO – DIA DA MULHER
LUIZ ALBERTO MACHADO NO CALDEIRÃO DO HUCK

quarta-feira, março 04, 2009

MULHER



Imagem: Brushing her hair - Óleo sobre linho, de Craig Srebnik.

MULHER

Geraldo Azevedo & Neila Tavares

Eu sou a mãe da praça de maio
Sou alma dilacerada
Sou Zuzu Angel,
Sou Sharon Tate

O espectro da mulher assassinada
Em nome do amor
Sou a mulher abandonada
Pelo homem que inventou
Outra mais menina

Sou Cecília, Adélia, Cora Coralina
Sou Leila e Angela Diniz
Eu sou Elis
Eu sou assim

Sou o grito que reclama a paz
Eu sou a chama da transformação
Sorriso meu, meus ais
Grande emoção

Que privilégio poder trazer
No ventre a luz capaz de eternizar
Em nós sonho de criança
Tua herança

Eu sou a moça violentada
Sou Mônica,
Sou a Cláudia
Eu sou Marilyn,
Aída sou
A dona de casa enjaulada
Sem poder sair
Sou Janis Joplin drogada
Eu sou Rita Lee
Sou a mulher da rua
Sou a que posa na revista nua
Sou Simone de Beauvoir
Eu sou Dadá
Eu sou assim...

Ainda sou a operária
Doméstica, humilhada
Eu sou a fiel e safada
Aquela que vê a novela
A que disse não
Sou a que sonha com artista
De televisão
A que faz a feira
Sou o feitiço, sou a feiticeira
Sou a que cedeu ao patrão
Sou a solidão
Eu sou assim

Veja a entrevista de Geraldo Azevedo e a de Neila Tavares.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
8 DE MARÇO – DIA DA MULHER

domingo, março 01, 2009

DIA DA MULHER: 8 DE MARÇO

DIA DA MULHER: 8 DE MARÇO



Imagem: Nu deitado, do artista plástico e escultor italiano que viveu em Paris, Amedeo Clemente Modigliani (1884-1920).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

Luiz Alberto Machado

Nada merece mais a nossa gratidão que o ventre materno, seja ela simples dona de casa alagoana ou uma resignada do mosteiro de Argenteuil.

Decerto todos nós passamos pelo canal de parturição.

Nós, vivos ou mortos, já viajamos nove meses na aeronave do ventre, dependentes da ternura materna até termos a consciência do oxigênio e da vida.

Nada seria interessante se não fosse o poder da concepção que elas carregam no ventre, seja ela secretária executiva de Natal ou trabalhadora de Orange.

Nada é mais admirável que a fecundação quando tudo se faz de prazer atravessando a zona pelúcida para gerar filhos da vida, adubados pelo carinho e a ternura da maternidade, seja de uma simples balconista de Terezina ou aquela de Guaratinguetá de Di Cavalcanti.

Admirável é a sua anatomia, o seu design belo de recipiente do amor e do prazer, seja ela gueixa de Kioto, Aprés le l bain de Degas ou vendedoras de frutas da Martinica. Ou mesmo a de Unamuno no banho, ou costureira do mercado de Abi Djan.

Que seja amada como uma simples rendeira de Aracati, ou mestiça do Gabão; ou tuaregue do Níger; ou ticoqueira da cana-de-açúcar.

Que seja amiga mesmo como camponesa nordestina ou do milharal do Haiti. Ou mesmo uma cachorrona sexy, maluca pauleira, fatal miss ou sedutora perversa.

Que seja malandra, dócil ou abestada, ou quitandeiras do Recife, prostitutas de Brasília ou a executante de alaúde de Caravaggio.

Sempre serão belas mesmo que seja uma simples jovem turca, ou esquimó da Groenlândia ou, mesmo, a Garota de Ipanema.

Sempre serão exuberantes mesmo na simplicidade daquela das colinas de Chittagong em Bangladesh ou aquela lavadeira de Portinari. Ou uma nativa birmanesa, ou aquela marabá de Rodolfo Amoedo. Ou mesmo a colhedora de chá do Ceilão ou uma linda índia Kamayurá. Ou, ainda, Le bain au serail de Theodore Chasseriau.

Pode ser uma humilde tecelã de seda em Bali ou operária de qualquer montadora de São Bernardo do Campo. Ou a nômade Fars, ou humilde verdureira da feira de Caruaru.

Pode ser uma dedicada vendedora de cosméticos de Aracaju ou Nu à contre jour de Bonnard. Ou uma Diana de Lee Falk, ou a Danae de Rembrand.

Pode ser uma teimosa da vida ou Fleurs de la prairie de Maillol ou humilde enfermeira de um hospital de João Pessoa.

Pode ser uma adolescente eterna sonhadora ou a estudante de Anita Malfati ou uma nativa das ilhas Trobriand, ou a Vênus Anaduomene de Ingres ou As Artes de Van Gogh.

Que seja musa dos escritores, poetas e compositores ou mesmo uma perdida nas veredas da vida, ou Vairumati de Gaugin, Vênus de Brozino ou a que carda lã no Nepal.

Seja a Bovary de Flaubert ou a de 30 de Balzac ou a dedicada submersa entre marido e filhos. Ou a Nu de Modigliani ou uma passageira de Olinda; seja a mãe de Almada Negreiros, ou de Gorki, ou Valentina de Guiido Crepax.

Seja ela Velta, ou Lôra Burra, a Vênus de Urbino de Ticiano ou Léda Atomique de Salvador Dali; ou femme de frisant de Toulouse-Lautrec; ou uma da cadeira de David Lingare.

Mas também que seja ela Safo, louca, aguerrida ou desgarrada. Que seja uma sumidade intelectual ou muçulmana de Oman, mestiça de Cuenca, mulata do Rio de Janeiro ou mesmo estabanada andrógina da noite na paulicéia desvairada.

Seja mesmo o que for: a “Mulher” de Geraldinho Azevedo & Neila Tavares, ou mesmo “Todas elas juntas num só ser” de Lenine & Carlos Rennó, ou tantas outras grandes e anônimas mulheres deste planeta, aqui só gratidão. Obrigado por existirem. Esta a minha homenagem, MULHER!



CRÔNICA DE AMOR POR ELA – Volume que representa uma edição de luxo com capa dura, do livro/cd reunindo prosas poéticas/proseróticas, poemas prosaicos, poemiudinhos/poemiuderóticos & outras canções de amor por ela, escritas e compostas por mim, Luiz Alberto Machado. Este é ideal para presentear a namorada, noiva, esposa, paixão, parceira, companheira, enfim, um presente para a mulher especial da vida de um homem. São centenas de poemas de amor no livro e 20 canções de amor no cd, disponíveis apenas sob encomenda pelo mail lualma@terra.com.br ou pelo fone 82.8845.4611 ou ainda pela HomeLAM.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
TODO DIA É DIA DA MULHER

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

FOLIA TATARITARITATÁ!!!



Gentamiga,
Vamos brincar este carnaval com muito frevo na Folia Tataritaritatá da Rádio Tataritaritatá!!!

Beijabrações e até 02 de março!!!!

Luiz Alberto Machado