sexta-feira, fevereiro 20, 2009

VERS&PROSA PARA A MENINA A AZUL



Imagem: Derinha Rocha

NAQUELA NOITE TODAS AS NOITES

Luiz Alberto Machado

Naquele dia a gente navegou por nossas fronteiras mais arraigadas e se curtiu o dia todo, era o aniversário dela.
Logo de manhã eu saboreei sua delícia na cozinha: a comida da comida. De tarde, namoramos todos os mormaços. E quando a noite chegou, eu acendi todas as estrelas com o prêmio da sua língua lua na varanda. Era a festa total, como se todas as noites estivessem nesta noite na rodada de sua saia estampada, mãos na cabeça e sussurros de vontades. Ali, de nós dois, todas as posses e bens despojados varridos pela nossa dança na sala, no quarto, nuvens e céus.
Foi quando ela me agarrou com seu beijo Maragogi e me afogou nas ondas do seu corpo.
Foi quando ela engatinhou faminta, engolidora de espadas e devoradora de desejos incendiando o meu sexo iluminado que a fazia rodopiar, se entreter e esfomear na cena explícita de nossa explosão pornô e na minha hipofixilia agoniada de gozo.
Com a minha explosão ela me deu seu sorriso que dinamitou de vez todas as minhas neuras, traumas, frustrações.
Ofegantes na cama, nossos corpos vencidos.
Aí eu levitei com o aperto de seu abraço Porto Calvo. O seu beijo molhado fez o mundo girar mais depressa e caímos lentamente no Passo e bailamos nus na Matriz de Camaragibe.
Eu sou seu par e ela se debruça na cama e me puxa com força sobre as costas lanhadas para que eu vença seus montes e sua carne rendida. Foi aí que venci a sua Paripueira, usurpei o seu Sonho Verde, venci a sua Guaxuma até fazer no seu corpo o Riacho Doce.
Coração saindo pela boca, nosso suor lavou a minha vitória. E venci urrando de gozo sobre sua carne varada e servida sobre a bandeja do meu domínio. O meu peso sobre a rendição de sua maravilha dorsal.
Os meus braços no seu corpo: o banho da noite. A água iluminava a sua pele nua na minha língua que percorria a sua Cruz das Almas, o seu Mata-Garrote, Jatiuca, Ponta Verde, Pajuçara até enfiá-la na mina do seu Pontal e ela me deu a Madalena do Francês rebolando na Barra, se espremendo no Gunga, se ajeitando na praia de Jequiá, enlouquecendo no Pontal de Coruripe, até rebolar seu Piaçabuçu na curva do Penedo que assaltou a minha loucura profana e a fez chorar de satisfação.
O trem do meu tesão seguia os seus trilhos. E ela tributária de tudo se valia dos nossos nervos que reagiam na luta dos quereres mais safados.
Não havia como saltar fora, soltar agora toda libidinagem visceral.
Foi quando ela, frango assado, escancarou todos os segredos desvelando toda sua alma perversa. Ela Amanda Peet premiando o meu apetite. E se deitando no céu como se fosse um presente de natal, como se fosse toda folia de carnaval, como se fosse maior fungado de São João, como se fosse as bênçãos de ano novo, todas as festas juntas, todas as noites nessa noite.
Era aniversário dela e por isso me olhava com seu jeito azul de me beijar a virilidade, quando eu enlouquecido sugava no seu ventre como quem bebe gasolina, gerando a todo vapor a nossa putaria, pele na pele nua e eu me apoderando de sua carne com a fúria dos gritos de quem ama aquilo tudo e muito mais. E insistia alisando a sua carne tocando cada milímetro de sua feitura, como se num walkaround com toda força vital.
Ah, minha vulnerável Lois Lane que quando eu um simples Clark me fazia de Superman. E foi: todas as noites nessa noite. E sobreviventes, emergimos enquanto mergulhávamos um no outro. Aí, lá e loa. Ah, coisa tão boa. A gente mandava bem sem sossegar o facho, maior repasto.
Foi quando ela então vira Madonna ousada e sacana e tudo outra vez e de novo. Puxa!
Todas as noites nessa noite quando eu sonho nossas entregas que fazem viver.

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quarta-feira, fevereiro 18, 2009

MARIA DA GRAÇA ALMEIDA



Imagem: S/T, de Helder Mendes

VERSOS FEMININOS DE MARIA DA GRAÇA ALMEIDA

MULHERES

Fui nascida mais mulher
do que tantas e quaisquer,
sobre mim há muitas delas,
são capazes, são sinceras.
Muitas há em minha mente,
outras vivem-me na alma,
várias saem-me pelas palmas,
outras ficam quando calmas.
Sou mulheres bem maduras,
sou mulheres tão meninas,
estas são tão femininas
e aquelas mais seguras.
Pelas partes de meu corpo
sempre surge uma mulher,
não as vê só quem é tolo
ou verá quem eu quiser.
Várias usam-me as entranhas,
outras moram-me nas manhas,
há algumas que se assanham,
poucas há que cedo apanham.
Só há uma que insiste
em ser frágil, em ser triste
e entregue a sua sorte,
temerosa aguarda a morte.
Há mulheres temporais,
há mulheres sazonais,
sempre tenho uma mulher
inserida nos anais!

À ESPERA

Tua sensibilidade crítica
é que me traz e instiga,
a investigar teus escombros!

Quero no teu interior,
com euforia ou dor,
revelar os teus sonhos.

Larga-te às minhas investidas,
são curiosidades antigas,
que me ligam a ti.

Deixa que eu te penetre
e jamais te apresses
em despir-te de mim.

Vou conferir-te a fundo,
saber-te profundo,
num chegar e partir.

E quando fores embora
ficarei aqui fora,
esperando por ti!

Sei que sempre tu voltas
e bates à porta,
que eu vou abrir.

Eu te recebo sorrindo,
achando tão lindo,
voltares pra mim.

PUDORES

Chama -me à cama,
não dou ouvidos!
Esse seu jeito
julgo atrevido!
Rejeito a cama,
abro as janelas,
pudores contidos
fogem por elas.
Fecho as janelas,
volto pra cama,
tiro o pijama.
louco me ama!

LINGUA LIQUIDA

A líqüida língua vaza!
Infiltra-se entre os dentes,
rompe os limites dos lábios
gotejando boca á fora
ou, entornando livremente...
Não há fronteira que a reprima,
não há limite que a contenha.
O dono da língua líqüida,
possui ouvidos alados
que saem pelas orelhas,
lúcidos ou atordoados,
diretos ou de qualquer maneira
e colhendo informações
voam pra todo lado!
Temo essa língua por ela,
pelos ouvidos que a acompanham
e por todos ouvidos alheios
nos quais chega, sem medo,
a relevar os segredos.
Se uma dessas, liqüefeitas,
vem molhar-me os ouvidos,
afasto-a rapidamente,
secando depressa o líquido,
temendo que tal proximidade
impune contamine-me a língua,
e que por momentos, instantes
ou pelo restante da vida
liqüefaça-a abundante, infame
larga, solta e incontida...

BEIJO

Você se faz tão suave,
pedintes seus lábios são.
Pousando feito uma nave,
trazem gosto e emoção!
Chegam doces, molhadinhos,
disfarçados de sorriso,
beijam bem devagarzinho,
põem meu ser tão indeciso.
Vêm só para me sentir,
ou querem se distrair?
Quem os dirige sou eu,
ou, a mãozinha de Deus?

CHEGANDO E PARTINDO

Ante minha face hirta,
pálida, envelhecida
há um túmulo
uma cruz fosca
torta e velha,
uma jarra
trincada,
uma flor amarela; única
flor; amarela e bela;
bela e única; única e
frágil; frágil e muda,
muda e bela,
a flor amarela,
em jarra trincada,
sob cruz torta, velha,
sobre um tosco túmulo,
atrás de minha nuca suada...

A DAMA

Cheiro de lama,
cheiro de trama,
cheiro de dama,
nua na cama.

Vão-se as dores,
fortes venenos,
vêm os olores,
leves, amenos.

Estira-se a dama,
em brasas e o leito
aviva-lhe a chama,
desnuda-lhe o peito

Vão-se os olores,
leves, amenos,
ficam as dores,
fortes venenos.

Encolhe-se a dama
dolente e o leito
apaga-lhe a chama,
oculta-lhe o peito.

UMBIGO

O umbigo
afoito,
na premissa
do lazer,
oferece-se
ao coito,
muito antes
do prazer.

PÚBIS

Dessujeito,
posta-se
sob os peitos
desabados.
Desinibido,
mostra-se.

ENLEVO

este olhar tão bandido
é o olhar atrevido,
que trago comigo!

nestas mãos satisfeitas,
da paixão mais perfeita,
eu me encosto e abrigo...

este peito discreto,
suado e incerto,
incansável, eu ouso!

nestas pernas alongadas,
umedecidas de gozo,
faço meu, seu repouso!

CARÊNCIA

Secura de mim.
Vazo de um vaso trincado,
sem a querença, sem a crença
e a certeza do amanhã.
Vida que vadia resfolega
sob o relógio que se arrasta
entre a solidão matinal
e a noite fria... ermitã.

MARIA MORTALHA

Cedo, deitou-se Maria, pronta
pra logo morrer,
vestindo a alva mortalha, sem medo de
adormecer.
Os olhos tanto mais fundos, coroados
por olheiras,
cerravam-se moribundos, nessa hora
derradeira.
Implorando-lhe ajuda, veio um
moleque qualquer:
- Vó, apanha uma agulha, me tira o
bicho do pé!
Servil, levanta a Maria, desvestindo
a alva mortalha
e já mais morta que viva,
do pé, o bicho estraçalha.
Volta, esvaída, Maria para o
bom leito de morte,
quando lhe chega a nora , chorando a
fome e a sorte.
Maria, do quarto, dormente, sai e
aquece o fogão,
serve-lhe o leite fervente e duros
nacos de pão.
Com a fome, então, saciada e o corpo
fortalecido,
parte a jovem senhora com olhos
agradecidos.
Maria, assim, novamente, põe-se no
leito de palha,
julgando que, certamente, não mais
tiraria a mortalha.
E eis que lhe chega a vizinha com um
pote tosco à mão.
Queria do sal, só um pouco, que lhe
salgasse o feijão.
Maria deixa o leito... que a Morte
espere um instante...
pra atender a boa vizinha, ergueu
-se, mesmo ofegante.
Bem cheio o pote de sal, a dona vai
-se embora.
Maria, já fria, descora e aguarda,
da Morte, a hora.
A Morte que vinha chegando, notou-a
em pele ardente,
porém, percebeu que a lida, tornara
Maria valente.
Vendo a mulher à espera, recolhida
em seu leito,
ordena que se levante e atenda-a
com medo no peito.
Maria coloca, surpresa, os olhos
esbugalhados
sobre as vestes que a Morte trazia
em trapos rotos, rasgados.
A Morte impõe, soberana: - Sobreviva
só mais um dia,
ainda que condenada, cosa-me a capa,
Maria!
E apontando-lhe as entranhas,
ressecadas e vazias,
exige-lhe que, ao fogo, torne, o leite,
que frio jazia.
Maria salta do leito, arranca a tal
da mortalha
e sem mesura ou respeito, rebelde,
à Morte, detalha:
- Em face aos desmandos alheios,
viverei mais um ano e meio.

A MENINA DA CAPELA

- Que menina é aquela?
- É a menina da capela.
A capela é sua casa.
O altar é a cama dela.

Quando o dia amanhece,
Toca o sino em doce prece.
Aos fiéis essa menina
Sua casa oferece.

- Que menina é aquela?
- É a menina da capela.
A capela é da menina.
A capela é a casa dela.

A menina da capela
quer a casa bem florida,
pra rezar na casa dela
uma prece colorida.

MARIA DA GRAÇA ALMEIDA - a escritora, pedagoga e professora paulista Maria da Graça Almeida, é formada em Educação Artística. Ela participa de diversas antologias e possui crônicas, cartas e poemas publicados em diversos sites da rede. Ela é autora de vários livros publicados e de outros tantos inéditos. Seus trabalhos estão publicados no Jornal de Poesia, Usina de Letras e Recanto das Letras, entre outras páginas da rede.

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segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Christoph Martin Wieland



Imagem: Women’s Bath, 1496, do pintor e gravurista alemão Albrecht Dürer (1471-1528)

A PEQUENA LOUVAÇÃO DE CRISTOPH MARTIN WIELAND

O jardinzinho bem fechado
Todo mês de rosas ornado
Onde o jardineiro se enfia
E cuida e rega noite e dia,
Louvado seja!

O bom mineiro tão robusto
Que em negro buraco, sem susto,
Penetra e fura sem cansaço,
Até acabar-se, ficar lasso,
Louvado seja!

CRISTOPH MARTIN WIELAND – Formado no ambiente do pietismo luterano, Christoph Martin Wieland (1733-1813) cedo se libertou dele para afirmar-se um livre-pensador segundo o modelo voltairiano. Autor de romances, dramas e narrativas em verso, viveu parte de sua vida na corte de Weimar, ao lado de Goethe e Schiller. Dentro do Rococó literário, destaca-se, conforme Otto-Maria Carpeaux, como um libertino alegre cujo erotismo não temia ofender ouvidos castos. Era considerado o Baccaccio alemão.

FONTE:
CARPEAUX, Otto-Maria. Historia da Literatura Ocidental. Rio de Janeiro: Alhambra, 1980.
PAES, José Paulo. Poesia erótica. São Paulo: Companhia das Letras, 2006;

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GUIA DE POESIA

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

VERS&PROSA



Imagem: Derinha Rocha.

ESSA MENINA

Luiz Alberto Machado

Essa menina é feita de lua. Ela voa na rua prontinha querubin. E me apronta tlin tlin no alto da campina onde tudo é cantina feita só de si.

Ah, essa menina que dança com jeito, somente a gingar. Qual estrela lá mansa na unha matutina, desde sonsa ilumina onde antes supunha nunca existir. Ela está sempre aqui como chama na retina, como a grama que mina todo o quintal. E se faz de vestal de todos os presságios. Ela alucina ao contágio. E ela só vale ágio na sina do apelo a brilhar nos cabelos toda magia. O que eu mais queria: roubar o seu cheiro, seu secreto terreiro de tangerina. Ah, fulmina iminente – ela não é gente – é deusa a mendigar.

Essa menina é feita de mar, intensa, quiçá, real mais divina. Quando vem cabotina só me desmantela. Ela vira a janela pronta pr´eu abrir.

Essa menina chega com o olhar ardendo de vida. Quase desvalida com a boca nas asas que vaza e é guia perdidas esquinas, toda emoção repentina com o sopro de aguerrida na pele. O paladar que repele na maior febre, que tudo se quebre ao sol posto - a saliva com gosto de boa cajuína. Ela é tão traquina: o seio da boca sedenta. E venta maior ventania. E, todavia, se põe a chover: o corpo queimando o prazer.

Essa menina é feita do rio que escorre ao quadril pra me afogar. Patati, patatá, é ela que me abriga como se eu fosse a viga que ela quer sustentar.

Essa menina, bailarina da noite, em carne viva, vitalina, essa flor menina a me servir sucessivas entregas, peças que prega nos meus cinco sentidos.

Essa menina é feita de peso: a coxa tatua o desejo que as pernas eqüinas rolam sobejo do sexo azul. Eu todo taful com seus pés nos meus braços que o abraço fulmina e lateja, água que poreja tão pequenina e vira ribeirão na luz feminina. Vingo-lhe a nuca que me ilumina e ela me sorri encantada, franzina com a gula que vai da glória à ruína.

Essa menina e a mão culpada de amor. Ela brota, ereta, me socorre, me empesta. Salta da grota, na greta, virada na breca, capeta, na alvura exalta, cristalina. E tudo se arrasta, arrebata, contamina. E me larga no sopro. Meu corpo oficina. Maior serpentina de carnaval. E me faz imortal. Vem e ilumina a vida toda esquecida no meio da paixão. É quando, então, ela cisma do mundo e reduz quase tudo na palma da mão onde ela mais que altaneira me deita na esteira e me nina um milênio de paixão.

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VERS&PROSA DE AMOR PELA MENINA AZUL
FOLIA TATARITARITATÁ

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

GERUZA LEAL



Imagem: Noturna, de Amanda Com

OS POEMAS DE GERUSA LEAL

SOU?

caminhando vou -
fumaça, vôo, nuvem
chuvisco de azul
nuvem de chuva
sabe-se lá porquê
dia de lua

CINTILÂNCIA

desde que brota
desejante
vai umedecendo de vida todo o curso

num remanso
embora feita de assossego
embora pura harmonia
inacessível e mansa
branca e elegante se faz garça

e num segundo de descuido
deixa-se fotografar
desnuda


NÃO-FALO

falo de mãos e de dedos
falo de figos
e de seus segredos

falo de lábios e línguas
falo de peixes e serpentes
e maçãs

falo de pele e de arrepio
falo de velas, espadas e
bastões

falo de cheiros e de sabores
falo de flores
falo de romãs

falo de cálices, de sinos
e de torres
falo de calores e de convulsões

falo e a noite se vai
e eu não durmo

não-falo

EX-FINGE

percorre as veredas do meu corpo
verás que ainda há parte do humano
que fui quando assim fingia ser

tateia com vagar todos os flancos
desse ser tão incomum igual a ti

de quatro talvez me descortines
de quatro animais encontras partes
à minha humanidade amalgamada

cabeça e seios de mulher
corpo de touro (ou de cão se assim preferes)
garras de leão asas de ave
e essa imensa cauda de dragão

não temas, amado, inda sou eu
a mesma que desconhecendo, amastes
e se duvidas de mim, olha no espelho
verás que, enfim, me decifrastes


ÁQUATICA

Navega-me,
que me faço mar.
Não para me singrares de velas enfunadas.
Teu deslizar há de fazer marolas
que hás de alisar docemente.
Eu crescerei em vagas impetuosas
e te farei soçobrar.
Mergulharás em mim e eu, maremoto.
Até que,
juntos,
na praia morna,
em branca espuma
morreremos.

GERUSA LEAL – a poeta e escritora pernambucana Gerusa Leal, é autora de contos e poemas publicados nas coletâneas Contos de Oficina, organizadas pelo escritor Raimundo Carrero e também as organizadas pela Fundação de Cultura Cidade do Recife. Conquistou premiação nos concursos Luís Jardim, Prefeitura de Cordeiro – RJ, Maximiano Campos, Fliporto e mais recentemente o prêmio Edmir Domingues de Poesia 2007 da Academia Pernambucana de Letras, com o livro de poemas versilêncios, livro ainda com lançamento previsto para final de março/2009. É integrante da Rede de Escritoras Brasileiras – REBRA. Ela edita o blog Flor de Gelo.

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FOLIA TATARITARITATÁ

domingo, fevereiro 08, 2009

VERSYPROSA



Imagem: foto de Derinha Rocha

QUANDO O AMOR É AZUL

Luiz Alberto Machado

Quando o céu se reflete no seu olhar estrelado de imensa ternura, eu já tomado de amores, flor miosótis, sou cada vez mais o escravo que não pode viver longe do encanto que me prende a todo desvario e vertigem dos impulsos do coração abrasado de amor. E esse amor é você.

Quando o mar se aprofunda no seu ser onde corre o sangue ardente de irresistível encanto, excepcional beleza e suas íngremes e deliciosas dunas, cada vez mais, beija-flor, sou servo inteiro ao seu dispor. E meu beija-flor é você.

Quando o sol se reflete no seu riso cheio de surpresa e furor com cintilações azuladas onde você, tostada pelo fogo ardente do coração na febre do amor, trazendo meu gosto na boca, minha posse no corpo e meu desejo na alma, mais me vejo grato sangue ardente a me jogar onde quem manda é o amor. E o amor, beija-flor, está em você.

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VERS&PROSA DE AMOR PARA A MENINA AZUL
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quinta-feira, fevereiro 05, 2009

LETICIA CESARIO



Imagem: sem título de Nuri.

OS VERSOS NUS E SOLITÁRIOS DE LETICIA CESARIO

TUA MERETRIZ

Deixa-me ser tua meretriz
Tua escrava, sem pudor
Encostar meu corpo nu em ti
Deixar banhar-me com o teu calor
Domina-me com prazer
Ordena-me!
Provoca-me!
Coloca-me em tua frente
Ajoelhada a te olhar
Segura em meu cabelo com força
Puxa-me, para que com minha boca, eu te sugue
Aperta com força tua dama de encontro à ti
Sinta o calor de meus lábios a envolver-te
Com minha língua passeando por teus recantos
Forte...quente...sedutor
Ao mesmo tempo em que te olho
E me faço serva, sem pudor
Tens o gosto do melhor vinho apreciado
Bebo de ti, até o fim
Sorvo teu néctar sagrado
Absorvo de teu prazer, enfim
Com minhas mãos toco-me insana
Na busca do prazer gritante
Num instante chego ao clímax
Explodindo meu gozo, pulsante...

UMA NOITE DE AMOR

Jogo-te na cama
Lençóis desfeitos
Cabelos bagunçados
Perdidos, do avesso

Num impulso quase febril
Desejo beirando o insano
Deito meu corpo sobre o teu
Coloco-te dentro de mim, inflamo!

Ritmo marcado, pulsante
Tento com minha boca tocar teu peito
Sinto teu coração vibrante
Como se nunca antes assim, tivesse feito

Penetra por caminhos meus
Apropria-se do que já é teu
Puxa-me com força de encontro à ti
Acorda esse vulcão que um dia adormeceu

VOLÚPIA

Corpo nú
Fúria desnuda
Mãos úmidas...
Pensamento veloz
Respiração ofegante
Desejo lancinante
Braços trêmulos
Mãos ágeis
Apnéia
Gozo
Denso
Solitário
Pleno..!

AMOR E DESEJO

Uma noite linda com a lua a nos inspirar
Toco seu corpo quente...macio
Nossa pele arrepia-se pelo simples olhar
Beijo sua boca úmida...seus olhos fecham-se ao meu toque
E suas mãos estremecem em meu corpo

Tento manter meus pensamentos organizados
Mas em mim, tudo já está acelerado
Joga-me na relva molhada pelo sereno da noite
Como tivessem se amado o céu e o mato
Beija todo o meu corpo sedento de amor

Penetra-me com sua mão...ouve meu gemido de prazer
Conhece-me pelo tato...pelo paladar...pelo cheiro...
Caminha forte com seus dedos pelo meu corpo
Aperta-me de encontro à você,
Num desejo insano de me possuir!

E no auge do tesão
Penetra-me sem pudor
Olhando em meus olhos
Que feito chama, estão a te olhar
Marca forte seu ritmo

Levanta-me com seu corpo a bater no meu
Segura-me pelos cabelos
Qual animal sedento
Deita em meu pescoço sua língua
Em busca de gotas do meu suor

Urra de prazer
E deixa em mim, seu néctar sem igual
Beija-me ao final...
Tendo somente a Natureza a testemunhar
Tal ato de amor e desejo carnal

CASA VAZIA

Dormir sem você é ruim.
Mas não é pior do que acordar sem a sua presença.
Não ao meu lado. Isso eu não sinto. Ainda sou capaz de sentir seu corpo junto ao meu.
Mas o calor...Ah! O calor! Esse já não existe mais. Já não há mais o calor dos corpos que se amam, nem a loucura de estarmos colados um ao outro.
Nunca mais tive a deliciosa sensação de estar com você...em você!
Não a sensação mecânica de dois corpos num ato de “frenesi”, mas sim sentir-me plena em contato com seu sexo...sentir que o amor multiplica-se pelo simples toque...a face ruboriza-se, o corpo estremece, todas as veias parecem querer saltar! Ah...que saudade de sentir-me em descompasso cardíaco!
Não há mais a conversa matinal sobre as manchetes de jornal...nem há mais o jornal. Ele ficou amontoando-se na porta a espera de um dono fiel que o lesse, que o segurasse por entre os dedos e manusease-o como a um companheiro. Ah...quanta falta sinto das letras regadas ao cheiro impregnante de café...
A casa silenciou-se...não ecoam mais as gargalhadas....a TV nunca mais fora ligada...os móveis tão vistosos escolhidos ‘a dedo’, agora jazem cobertos por uma fina névoa de desilusão...
Mas o pior de tudo....a maior de todas as dores...é quando silenciam-se as palavras...
Não porque resolveu-se calar o que está prestes a ser dito. Mas por um motivo maior e mais agravante: não há mais o quê falar...não há mais nada...Nossa história fica limitada a retratos semi desbotados, guardados dentro de uma caixa....Dentro dela também ficaram os sorrisos estampados numa face juvenil, com olhos brilhantes e corações esperançosos... tudo esvaiu-se pouco a pouco... findou-se... caíram os cabelos... embranqueceram-se os fios... o sorriso deixou de ser uma marca...e as palavras...ah...as palavras...elas me fazem tanta falta!

ONDE ESTOU?

Aqui...

Sofrendo por esperar uma resposta
Questionando se falei algo que não devia
Querendo que tudo mude na rapidez de um raio
Mordendo o cantinho da boca - meu calmante
Precisando dormir, mas com o peito em ebulição...
Tentando lembrar de me esquecer...

E a história é sempre a mesma...
Desejando virar a mesa, mas com medo de pisar nos cacos que sobrarão dela...cansada de ser boazinha e querendo respirar ar puro, desinfetado de você...’nao te quero mais’...palavras caladas em minha garganta mas transbordadas em meu olhar....um olhar cansado de ver a vida, corpo latejando a vontade de vivê-la...ansiando pelos horizontes e meus pés aqui, estagnados! Não posso mais deixar de sentir a brisa bater em meu rosto...não quero mais sentir culpa pela sua culpa... Quero voar, sem direção! Sem asas, até! Me deixar levar pelo fluxo incerto da minha emoção...

....E quando estou só [não raro] olho pra você...
Seu sorriso me encanta, seu cheiro me embriaga...até seus problemas são interessantes...uma conversa marcada de cumplicidade, de saberes implícitos [ entrelinhas poderosas] rumos novos [sem rumo]...ultrapassar aquilo que sei para alcançar o que desejo....ardente...queimando....cheio de motivos para ser...cheio de razões para não acontecer...deixo a razão [antiga companheira], para ficar à mercê de você...serva, submissa, amante...[sou, enfim, amada]

...Se eu sumir, me procure nas estrelas...
Cansei de suportar o peso do mundo!

POETA DA DOR

Não sou poeta da dor
Apenas falo de amor
Ainda que não seja em forma de flor...

Não quero fazer sangrar a ferida
Quero apenas achar uma saída
Para esse peito, maculado na dor

Deixo que saiam as palavras
Quero extravasar minha mágoa
Quando em versos, desenhar minha tristeza

Tenho confesso minha amargura
Minh’alma em dor se contorce
Quando a realidade, do avesso, perdura

Tristeza, és linda e pura!
Ainda que de mim, vertam lágrimas obscuras
Desenho-te como a uma partitura..!

LETICIA CESARIO – a poeta Leticia Cesário é de São Paulo e diz dela mesma: Sou mulher, amiga, profissional e sentimento. Tenho-os à flor da pele. Amo escrever. Meus cadernos, meus lápis e as palavras que neles cabem são o meu Divã... Seus poemas estão no Recanto das Letras.

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quarta-feira, fevereiro 04, 2009

RUBEM FONSECA



Imagem: The gardeners' daughter II, de Angelica

VASTAS EMOÇÕES E PENSAMENTOS IMPERFEITOS DE RUBEM FONSECA

“E os prazeres do sexo?”, perguntou Liliana enquanto tirava os rolinhos do cabelo.
“Não estou interessado.”
“É mesmo”, disse Liliana, tirando a roupa. Seus seios tinham bicos vermelhos. “O que você anda fazendo? Exercicios de ascese? Masturbação? Ou arranjou uma dessas atrizinhas que para trabalhar em qualquer filme dão para qualquer diretor? Anda, deita aqui comigo.”
Ela apagou a luz. Podia vê-la no escuro – Liliana sempre apagava a luz para fazer amor – ali na cama ao meu lado, brilhando como um ferro em brasa.
“Quero que você acenda a luz, se não vou-me embora. Quero ver a tua boceta vermelha.”
“Você está louco!”
Saí da cama. “Estou falando sério.”
Liliana acendeu a luz.
“Você não está bom da cabeça, nunca falou assim comigo”, disse ela, não sei porque faço o que você está mandando.”
Abri as pernas de Liliana e olhei. Sua boceta escarlate estava úmida e rutilante como se estivesse sangrando, não propriamente sangue, mas esmalte de unhas.
“Agora vira de bruços.”
Delicadamente abri os dois rijos hemisférios glúteos da bunda musculosa de Liliana – suas nádegas eram separadas, como as das bailarinas – e contemplei o pequeno orifício cor-de-rosa, que pareceu se contrair ante o meu olhar.
“Isto está me dando uma sensação esquisita”, ela disse, “acho que é tesão.”
Depois Liliana em perguntou se eu não queria com ela ao baila do Scala. Não.
(...)
(…) Fornicação – os poetas estão sempre certos: “That´s all the facts when you come to brass tacks”.
(…)
Ao acariciar o corpo nu de Liliana, sua pele lisa e macia, ao sentir seus ossos, sua carne, seu calor, sua vida, fui dominado por uma grande alegria, uma estranha felicidade, misturada com uma espécie de vertigem que por momentos supus, erradamente, ser um pródromo da pseudo-síndrone de Meniére. Eu não odiava mais Liliana, talvez nunca a tivesse odiado. Podia me entregar àquela fruição simples e primária, aceitar o contentamento puro que ela me trazia.
(...)
Ela me diz que o amor não existe, que só existe o orgasmo, cuja vitalidade é uma coisa parecia com cagar, por exemplo, algo que te alivia e depois você se limpa, com uma toalha, ou com água, em seguida vai tratar da vida – comprar uma roupa,ou uma casa, ou uma jóia, ou fazer ginástica.
(...)
Ficamos, depois, deitados na cama nus, lado a lado.
(...)
O que fazia uma pessoa ser atraída por outra? O que me fizera segurar a mão de Mitiko, naquele instante? Casanova, segundo Schnitzler, queria muito mais dar do que receber prazer. Eu também era assim. Esse dar prazer era uma forma de se exibir? Uma espécie da bazófia?...
(...)
Agora é tarde, fazemos nosso destino e eu não soube fazer o meu. Mas agora sei o que quero. (...) Por quê? Quem pode explicar por que o desejo por uma mulher linda pode acabar?...
(...)
“Qual o seu sonho de consumo?”, ela perguntou.
“Acreditar em Deus”, eu disse.
“Isso mudaria alguma coisa?”
“Talvez o meu estilo. Minha linguagem é assindética, cheia de elipses de conjunção. A fé tornaria meu estilo hiperbólico, polissindético”. Etc. Na época pensei que estava brincando.
“Se os filmes brasileiros”, escreveu a jornalista, “fossem tão interessantes quanto as entrevistas dos seus diretores, o cinema brasileiro seria o melhor do mundo”.
Meu sonho de consumo, eu sabia agora, era a liberdade. O ser humano se caracteriza, na verdade, por uma grande estupidez. Ele só descobre que um bem é fundamental quando deixa de possuí-lo.

RUBEM FONSECA – O premiadíssimo escritor, roteirista e advogado mineiro, Rubem Fonseca, foi comissário de polícia no Rio de Janeiro, chegando a se aperfeiçoar na área e a estudar Administração de Empresas na New York University. Depois trabalhou na Light quando, por fim, dedicou-se exclusivamente à literatura sendo agraciado com inúmeros prêmios literários por seus escritos literários e roteiros cinematográficos. Entre as suas obras está “Vastas emoções e pensamentos imperfeitos”, um romance que foi publicado em 1988 que traz a sensação de se estar no cinema assistindo a uma colagem de questões intelectuais, angústias humanas, romance policial, cenas da guerra fria, loucuras do sonho. Talvez seja o melhor da obra de Rubem Fonseca porque ler Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos significa não conseguir parar um minuto sequer. É enxergar a vida e as situações cotidianas do homem dentro de uma ótica cinematográfica, na qual é necessário que haja uma lógica concisa e eficiente. Os personagens devem ser sempre muito bem definidos, suas ações delimitadas, seus sentimentos delineados para que o público capte "o quê o diretor quis dizer". E é aí que se encontra a confusão. A história de um cineasta-narrador que se envolve com uma história de pedras preciosas e assassinato, ao mesmo tempo em que começa a ler os contos do judeu soviético Isaak Bábel. A tentativa de transformar tais contos em roteiro para sua nova produção, junto aos seus confusos sentimentos e amores acaba em uma mistura da lógica racional da linguagem cinematográfica, à completa falta de lógica da linguagem inconsciente dos sonhos e a tentativa de adaptar a linguagem literária à uma realidade. E então, qual a mensagem que deve ser passada? Há algo que deve ser passado? Como organizar as vastas emoções sem deixar com que se percam em pensamentos imperfeitos? Rubem Fonseca não fornece respostas, mas incita questões - questões essas que valem muito a pena.

FONTE:
FONSECA, Rubem. Vastas emoções e pensamentos imperfeitos. São Paulo: Planeta De Agostini, 2003.

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domingo, fevereiro 01, 2009

VERS&PROSA DE AMOR PARA A MENINA AZUL



Imagem: foto de Derinha Rocha.

QUARTO POEMA DE AMOR PARA A MENINA AZUL

Luiz Alberto Machado

O quarto poema de amor nasceu numa noite fria. Nasceu duma fantasia que eu sonhava então. Apesar de ser verão, chovia longamente. Foi então no de repente que sonhei, ave-Maria. Eu já sabia porque ela passeia nua de dia e na noite da minha vigília e nos capítulos dos meus sonhos mais medonhos. Sempre nua e minha e toda etérea, vem pousando toda aérea na atmosfera que anoitece. Aí o seu encanto me embevece e tudo em nós nos apetece, nada engilha, tudo enrijece, sorvo muito e bocadão. É de endoidar qualquer cristão porque o beijo da sua boca é o mais gostoso. O seu jeito a se entregar é tão demais delicioso, chega perco a vida e a noção. Isso é só provocação. Aí me torno cativo do carinho, ela faz com que amocegue o seu caminho e lhe sirva de escravo e servil. Estou a mais de mil e faço o que ela quiser. Dou-lhe tudo que tiver, dou-lhe posse e poder. Até não ter mais o que e me tenha despojado, réu confesso e condenado, dela todo poderio. Que desvario! Ela me soma em seus beijos quando em meus desejos ela se subtrai. É tudo demais! A gente se enrosca e se retalha em posta para servir de prazer. A gente abre as comportas, escancara todas as portas, todo limite a vencer. Aí me chama na grande e brame louca a valer, me explora pra sobreviver, a me fazer servo e senhor. E me faz seu pirão, me chama de bestão e me joga no seu balaio. Inda diz: ai, ai, meu papagaio! E a coisa dá na canela, de apertar todas as costelas, de desmaiar de paixão. E me faz seu refrão e quero que ela me ame como a musa de Modigliani, se entregue ronronando entrecortadas frases, feito Amy Winehouse com toda inquietude e deixe a minha morenice na sua branquitude sem que me visse pelas pernas entreabertas, eu que sentisse minha farra ereta no seu corpo lavado pelo estupor e o meu cio a chave certa, o seu grunhido e o seu sabor. Isso é que é show! Ela é linda e nua na minha loucura! É de fato. É como um retrato de valor que emoldura com torpor a candura do amor.

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quinta-feira, janeiro 29, 2009

ANA CRISTINA POZZA



Imagem: 30 Le Petiti, foto de Seven.

OS LUXURIOSOS VERSOS FEMININOS DE ANA CRISTINA POZZA

GOSTO DE TIRAR A ROUPA

Gosto de tirar a roupa
E sentir o teu caralho duro
Enchendo de prazer a minha boca
Deixando-me louca de tesão
Enquanto vou sendo beijada com sofreguidão...
Gosto de tirar a roupa
Virar-me de costas
E oferecer-me por inteiro
Pedindo sorrateira
A tua entrada no meu traseiro.
Gosto de tirar a roupa
E me sentir lambuzada
Inteiramente desejada
Pronta para comer
E ser comida...
Gosto de tirar a roupa
Abrir as minhas pernas
E ficar te sacaneando
Oferecendo a minha vagina quente
Cheia de vontade de ficar molhada.
Gosto de tirar a roupa
E me sentir uma puta
Pronta para ser abusada
Penetrada, amada
Tonta de tesão e dor.
Gosto de tirar a roupa
E sentir as tuas mãos me envolvendo
O teu dedo no meu cuzinho
A tua língua na minha pombinha
E a minha boca no teu pau.
Gosto de tirar a roupa
E de gritar como uma maluca
Com o prazer doidivanas
Que tu provocas no meu corpo
Quando entra em mim ereto.
Gosto de tirar a roupa
E ser obscena
Ser a tua pequena
Ser a tua tarada
Sempre pronta para tirar a roupa...

SONETO DA MULHER

Ah! Eu ainda sou uma criança
Que ama e sonha e quer
E tem no peito a esperança
De se tornar uma grande mulher.
Uma mulher autêntica e forte
Que mergulha em si e acredita
No seu poder e não na sorte
Pois é o seu desejo que dita
O seu caminho, a sua história.
Mulher de razão e emoção
Guarda o passado na memória,
Não temendo cair no chão
Faz da vida a sua glória:
Viver é o seu lema, a sua canção.

PROFISSÃO: MULHER

Do lar?!
Só se for dinheiro
Recheando a minha carteira!
Eu sou mulher!
Mulher por inteiro.
Mulher inteira.
Prefiro ser
Louca,
Des-va-i-ra-da
A ser
Isaura,
Mulher escravizada!

A TARADA NUM CARRO

Eu não minto
Eu invento
E se tomo vinho tinto
Logo me esquento!
Quando sinto,
Eu tento.
Percorro o labirinto,
Busco o vento.
Arranco o teu cinto,
Deixo-te sedento
Aí vejo o teu pinto
E sento!

LUA ALTA

Lua alta
E por trás
De tantas nuvens
Brilham estrelas...
Aqui,
Por trás desta neblina,
Brilho também...
Sozinha
E acompanhada
De mim
E de mais ninguém...
Não direi mais nada
É o silêncio que mais convém...
Agradecida,
A Lua
Sussurra:
Amém...

ESPARRAMADA NO UNIVERSO

Esparramo-me
Num calafrio de
Sensações,
De um querer ardente,
Sorrindo à imaginação
Que me invade
Sem pedir permissão...
Num repente,
Meu corpo
Intensamente
Deseja,
Sonha,
Quer,
A tua presença
No meu corpo de mulher...
Eu te quero,
Te desejo,
Me esparramo
Cada vez mais...
Olhos, Boca, Pele,
Meu sexo em flor,
Os vales de amor,
Sonham com o teu calor...
É tanto carinho,
É tanta paixão
E eu me esparramando
Num ser cheio de saudade
Numa imensidão
De louca felicidade...
Em pensamento deixaste-me nua,
Desejando ser toda tua,
Esparramada no universo,
Querendo-te dizer num só verso
(Sem rima,
Pois está de tudo acima):
Meu amor,
Te amo...

À IMENSIDÃO AZUL

Num instante,
Como num passe de mágica,
Estamos frente à imensidão azul do mar,
Andando juntos,
De mãos atadas,
Com intervalos de beijos selados,
Nos lábios e no coração...!
Como na magia de um belo sonho,
Torno-me inteira como tu és
E ainda continuo sendo eu
Oferecendo-lhe o meu coração...
Tu confundes o teu corpo com o meu
Num entrelace de vida e de paixão...!
Há o mar,
a areia,
os morros,
o sol...
E há
nós
dois.
Cerramos os olhos
E a chuva cai...
Pingos incessantes que nos fazem
Ser Água,
ser Desejo,
ser Amor...
Nos amamos com sofreguidão
E somos um só
Na alma,
no corpo,
no coração...
Quando eu me perco
Me encontro no teu olhar
Para logo me perder no teu tocar...!
Olhos nos olhos,
Boca com boca,
Pele com pele
Corpo no corpo!
A água do mar,
Os pingos dançando
E nós dois apaixonados a nos amar...!

A TUA VOZ NO PAPEL

Os dias se vão
e eu espero notícias...
Quero apenas
a tua voz
no papel
Pois ainda permanece
dentro de mim
o teu olhar
E a saudade aperta
quando os dias se vão
e eu fico a esperar...

TRABALHO DE PARTO

Vejo no seu arrasta pé,
No seu rosto de cansaço,
Vejo que falta um brilho...
Ai, meu Deus!!
A Ana está morrendo...
A Ana que engole sapos,
A Ana que não se escuta,
A Ana que dá mais importância ao outro,
A Ana que não se ama,
A Ana que só se engana...
A Ana está morrendo!
Tragam macas, psicólogos
Médicos, enfermeiros,
Muitos colos,
Esparadrapo, mercúrio, bisturi!
Tragam rápido:
O coração ainda bate...
E tragam confetes e serpentinas,
Bandas de música,
O nascer do sol,
Tragam corações em brasa,
Olhos brilhando,
Tragam sorrisos no rosto
E amor na alma!
A Ana está morrendo,
Porque,
Finalmente,
A Ana está nascendo...

GOSTOSO

Gosto de pensar.
Gosto de pensar em ti.
Gosto do gosto de pensar.
Gosto do gosto de pensar em ti.
Gosto do gosto gostoso de ti.
Gosto gostoso de ti.
Gosto de ti, gostoso.

INEBRIANTES NA DANÇA DO AMOR

Minha mente é só desejo:
Minha boca clama pelo teu beijo,
Meu corpo pulsa pelo teu toque,
Meu ser estremece pelo teu olhar.
Eu sou,
inteiramente,
lua,
nua,
tua.
Desejo acima de desejo
Corpo sustentando corpo
Alma comportando alma.
Tu
infinitamente
no meu
íntimo...
Nós dois
Inebriantes
Na dança do amor
A tocar
A sentir
A gozar
Na explosão do depois...

FEZ, TÁ FEITO

Fez, tá feito
Sem essa de ficar se arrependendo
Como se houvesse tempo sobrando por aí,
Em qualquer banco de praça,
Nos galhos das árvores,
Nos braços translúcidos do Sol.
Fez, tá feito
E que tudo venha como proveito,
Como algo a mais a ser vivido,
A ser aprendido,
A ser sentido
E jamais, jamais,
A ser algo arrependido.
Fez, tá feito
E se o mundo parecer cair na cabeça,
As lágrimas tornarem-se rios,
A angústia dominar o peito,
Não tem jeito,
O negócio é encher a alma de coragem
E bola pra frente,
Pois a vida é pra ser vivida
E jamais para ser coisa arrependida.
Fez, tá feito
E que se abra os braços,
O peito,
A alma
O sorriso
Para a vida,
Para o Sol,
Para a Lua,
Para o que está para vir!
Fez, tá feito.
Ser feliz é se permitir...

TESÃO E SONETO

Enquanto segues em frente,
Deito-me maliciosa em teu leito,
Sentindo teu corpo quente:
Diante das tuas mãos, tudo aceito...
Roubas meus seios da minha roupa,
Acariciando-os com intensos beijos,
Deixando-me completamente louca,
Abrindo-se para ti a Flor dos meus Desejos...
Sou só desejo, sou toda tua...
Beijo-te inteiro com sofreguidão,
Enquanto deixas-me totalmente nua,
Provocando em meu corpo espasmos e gemidos,
Embalo com lambidas teu tesão
Até nos tornarmos um só em todos os sentidos...!

PALPITANDO ALUCINADO

Não bateu inspiração...
O que me move
É esta enlouquecida paixão
Que dispara o coração
A cada suspiro de saudade
Quando aumenta a vontade
De encontrar os doces lábios teus...
E todo o meu corpo,
Palpitando alucinado,
Volta-se a esta saudade
Espreguiçando-se num cansaço
Só pra ter o teu abraço
Enlaçando apertado
Todo o desejo meu...

ANA CRISTINA POZZA é poeta e psicóloga catarinense, edita o o blog Ana C. Pozza.

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terça-feira, janeiro 27, 2009

BOB MOTTA



Imagem: Aurora, escultura em bronze 165x54x48 do escultor, pintor, desenhista, gravurista e ceramista pernambucano Abelardo da Hora.

A APOLOGIA À MULHER DO POETA POTIGUAR BOB MOTTA

Se a mulher vem da costela,
e é gostosa como é;
tu já pensastes se ela,
fosse feita do filé ?...

CANTADA LÍRICA DE UM MATUTO...

Acordei de madrugada,
apóis sonhá cum você.
Essa é a razão e pruquê,
tô lhe iscrevendo, minha amada.
Lhe vi quage dirmaiada,
linda e nua, sem pudô.
Seu chêro imbriagadô,
me dexô maraviado,
dispôi de nóis tê travado,
uma batáia de amô.

Nêsse sonho tão gostôso,
isquecendo ôtos assunto,
nóis passemo a tarde junto,
prá mim, foi maraviôso.
Sastisfeito e orguiôso,
tezão prá lá de profundo,
uma vida in um sigundo,
cum nossos côipo suado,
fizemo, maraviado,
o maió amô do mundo.

Sem pressa, divagaríin,
no moté fui lhe dispindo,
você cunsintiu surrindo,
uis meus gesto de caríin.
Num improvisado níin,
eu lhe deitei cum coidado,
te oiando maraviado,
vi teu côipo me chamando,
quage qui me supricando,
p’ru mode sê ixplorado.

Naquêle isato momento,
a tarefa eu cumecei.
De riba abaixo bêjei,
o tão belo munumento.
De amô, faminto e sedento,
juro, me deliciei.
De emoção inté chorei,
vi tu, tôda arrupiada,
no início da caminhada,
a cada bêjo qui eu dei.

Te amei de tôda manêra,
qui se possa imaginá.
Lhe fiz gemê, fiz chorá,
de amô, uma tarde intêra.
Você, incríve parcêra,
tombém num se acumodô.
Pru pôco, quage matô,
seu poeta apaixonado,
qui ficô ixtinuado,
cum o qui você aprontô.

No verso, quero dizê,
cumo foi lindo, querida;
lhe vê tão disinibida,
se tremendo de prazê.
Inda sinto, pode crê,
ais suais côxa prendendo,
minha cabeça e eu sóivendo,
lá na cama do moté,
teu maraviôso mé,
de feliz, quage morrendo.

Meu amô, se você qué,
me vê feliz, de verdade,
vamo torná realidade,
êsse meu sonho, muié.
Se acauso você quisé,
só abasta uis seus caríin.
Faça o seu arrumadíin,
e adispôi, mande chamá,
o covêro prá interrá,
o qui sobrô do véíin...

MEUS POEMAS AMORÔSO
(Poema Matuto Erótico)

Meus poemas amorôso,
cum erotirmo e tezão,
iscrevo cum o coração,
e num acho iscandalôso.
Se parece maliciôso,
é pruquê o farso pudô,
jogo fora, meu amô.
E tu pode tê certêza,
prá êles, busco a belêza,
no teu côipo sedutô.

Num longo aperto de mão,
no fogo do teu oiá,
num surriso a insinuá,
a propíça ocasião.
Na duçura de um chupão,
nuis mil lugá mais gostôso.
Nuis bêjo maraviôso,
de tua bôca insaciáve,
in tua língua incansáve,
e in teus peito apititôso.

No ispaço entre uis dois, chêrôso,
e nuis teus mamilo armado,
nos teus pêlíin iriçado,
num abraço in preno gôzo.
Num afago carinhôso,
no ispaço prometedô,
do imbigo ao púbis, setô,
da fruita doce e gostosa,
da mais fóimosa dais rosa,
do jardim do teu amô.

Nais côxas grossa, ruliça,
no mais qui lindo quadril,
in tua bunda, nota mil,
qui o meu tezão cobiça.
Na beleza da priguiça,
que vem de tu, saciada.
In tua calcinha rendada,
in tu, surrindo prá mim,
sobre o lençó de citim,
languidamente istirada...

BÊJO SUA FRÔ DO DESEJO
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ

(Cordel erótico matuto)

Sô poeta sessentão,
mais tu pode fazê fé.
Qui o tá do bicho muié,
me anima e dá reinação.
Inda me resta tezão,
você pode acreditá.
Se eu mais tu me deitá,
pensando qui é um “vialêjo”,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Eu quero você, muié!
Lhe peço, num se aburrêça.
Bêjo você, da cabeça,
inté seu dedão do pé.
Me lambuzo no seu mé,
mode me deliciá.
Juro qui se tu dêxá,
eu, qui nem rato no quêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Sô viajante do amô,
da istrada maraviosa,
dais cuiva mais pirigosa,
do teu côipo sedutô.
Sô carente do calô,
qui você tem prá me dá.
Mais, mode lhe apragatá,
e acumpanhá seu molêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Vô chegá divagaríin,
vô tirá seu sutian,
vô vê suais duais maçã,
carente do meu caríin.
C’uma lambida de finíin,
faço tu se arrupiá.
E lhe vendo suspirá,
dispudorado me vêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Quando do bãe tu saí,
me ispere qui eu tô chegando.
Vá logo se perparando,
de amô nóis vai sucumbi.
A doçura de um cáquí,
sei qui in você, vô achá.
Ali vô me lambuzá,
fico feliz num lampêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Bem fresquinha e prefumada,
vistindo um longo eu te acho.
Maginando qui pru baaixo,
tu num tá usando é nada.
Cum a frô da pele iriçada,
feliz, vô te dirnudá.
Te fazê munto gozá,
acordando o lugarêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Vô transfoimá um sigundo,
numa vida, minha amada.
Nóis vai dá uma trepada,
da qui cego vê o mundo.
No erotirmo, vamo fundo,
inté a gata miá.
Cum a língua eu vô vascuiá,
Você todinha, no insêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Se inrrolada na tuáia,
passá pru eu, eu lhe agarro.
Sem rôpa, nóis tira um sarro,
e o seu côipo me agasáia.
Vamo prá bêra da praia,
prumode mió trepá.
No quilaro do lua,
eu, poeta sertanejo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Se acauso você quizé,
ir mais eu lá prá fazenda,
vô aimá a nossa tenda,
detráis de casa, muié.
Assistindo o garnizé,
uma penosa traçá.
Nóis vai se intusiarmá,
no cenáro qui pranêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Se você quizé cumigo,
o qui eu quero cum você,
nunca mais vai s’isquecê,
do qui eu fizé cuntigo.
Sem medo, no iscuro eu sigo,
mode o seu côipo afagá.
Canto canção de niná,
dispôi, fazendo o qui aimêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Mêrmo tando eu cum sessenta,
cum muié eu me deleito.
Lhe dêxo daquele jeito,
quente cumo uma pimenta.
Só num sei se tu agüenta,
o qui eu quero lhe aprontá.
Porém, se você topá,
saciada lhe antevêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ.

Éis minha fonte de tezão,
tombém; digo e num me acanho,
personage duis meus sonho,
oceano de inspiração.
Letra da minha canção,
mutivação prá eu cantá,
você pode acreditá,
qui a língua, in você calêjo,
BÊJO SUA FRÔ DO DESÊJO,
INTÉ VOCÊ DIRMAIÁ...

BOB MOTTA – o poeta potiguar Roberto Coutinho da Motta, artisticamente Bob Motta, é membro da Academia de Trovas do Rio Grande do Norte, da União Brasileira de Trovadores – UBT-RN, do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, União dos Cordelistas – UNICODERN, Associação dos Poetas Populares do Rio Grande do Norte e do Instituto Histórico e Geografico do Cariry – PB.

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domingo, janeiro 25, 2009

VERS&PROSA DE AMOR PARA A MENINA AZUL



Imagem: foto de Derinha Rocha.

TERCEIRO POEMA DE AMOR PARA A MENINA AZUL

Luiz Alberto Machado

O terceiro poema pra ela é como o terreiro aquarela, tudo dela que faz comigo: a cobiça, os castigos, as explorações do umbigo, tudo que nela vem pra mim. Assim: ela me tira o sono, me larga em abandono. Rouba meu sossego, se fecha em segredo. Me prega uma peça, me faz de trepeça. Me torra a paciência, me larga na demência do coração a pedir clemência e ela embromando, nem aí. Tai, ela me dá nos nervos, chega eu me atrevo a cobrar atenção. Ah, não! Ela me faz de desvalido, aquele que foi vencido, caso sem solução. Mas que azarão! Ah, ela come meu juízo no meio duma chuva de granizo d´eu me lascar de montão. Que desolação! Sou fritado na sua frigideira, todo meu afeto é só brincadeira na sua cavilação. E me lasco de antemão porque sou resto de comida, a data preterida, maior sujeito broco. Ela me passa por troco, me larga por descarte, nem sirvo pra estandarte porque sou mala sem alça. Não tem a menor graça ser mercadoria sem nota, feito a caçola da Maricota, ou cotoco no osso mucumbu. Que azedo angu, d´eu pular numa perna só, de num saber desatar esse nó, sem frenagem na banguela. Tô me acabando feito panela num mata-burro que me empaco, com a moleta no sovaco, a bosta do cavalo do bandido. Nessa eu tô mesmo fudido, sem valer sequer um taco, verdadeiro cara de tabaco, feito papagaio de pirata ou vassoura atrás da porta. Ela nem desentorta e me deixa chutando lata, dando a cara à tapa, ruim que só arroz de terceira. Mas que moedeira, sou pra ela farinha de Araripina, do lixo a fedentina, inda mais carne de pescoço, liso sem tostão no bolso, jogado quem nem lavagem na pia, no castigo da água fria na latrina dá descarga, que nem mesmo a mãe do guarda vem pra me salvar. É de lascar! Sou atleta de regra três, o mais otário freguês, um juiz em campo minado, um refém seqüestrado e com o ataque na banheira, com o vacilo da bobeira e a mão à palmatória. Isso é que é uma luta inglória, feito duplicata vencida, feito cata o chefe sem torcida, eita, trabalhão danado! Sou inquilino despejado sujeito mais sem noção de perder o camburão no pantim da malcriada. Pacutia incruada que no toitiço esfrega, é aí que o bicho pega, tiro logo nove horas, dou bafejo e tudo tora, ela fica então mansinha. Faz-se então toda tadinha, com a cara mais lisa, como a guerra fosse brisa, fiquei só no esculacho. Aí acendo o facho no pinguelo da priquita, dou um jeito que ela grita chega a baba a boca larga. Tomo logo a vanguarda e me aprumo na manzanza, no meio dessa bonança da menina dos seus olhos. É nela que eu me molho, quando o milagre opera, quando ela exaspera de pernas pro ar. Aí vou me arrumar, tirando ali todo proveito, de dar-se a todo respeito, nela até morrer de amar.

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sábado, janeiro 24, 2009

ALINE DREMIR



Imagem: Vicio de ti, foto de Ao luar.

O RITUAL DA PAIXÃO DE ALINE DREMIR

A MONTARIA

Tome-me como sua
Cavalgue meu corpo
Suba meu galope
Antes do alvorecer.
Descubra caminhos
Na minha nudez
Ache a fonte viva
E mate minha sede.
Deixe minha timidez
Exposta ao vento
Abra minhas asas
Caia minhas vestes
Liberte meu grito
Dentro do gemido.
Nesse cavalgar
De pulos e suor
Gangorra de prazer
Sedução e gritos
Entre meus murmúrios
Sopros no ouvido.
No meu corpo aberto
Mira meu sentido
Caça meu espaço Cavalga-me outra
Agora invertida.

HOJE SOU TUA PUTA

Hoje sou tua mulher
Vem meu macho do dia
Penetra-me com alegria
Como se fosse tua puta
Vem com tua força bruta
Faça de mim o que quiser
Hoje eu sou tua mulher.
Hoje sou tua piranha
Tenho amor pra nós dois
Não deixe para depois
Você já é meu eleito
É o dono do meu leito
Meu sexo você assanha
Hoje eu sou tua piranha
Hoje eu sou tua amante
Amo em qualquer lugar
Tenho loucuras pra dar
Pra você fico exposta
Faço o que você gosta
Qualquer coisa excitante
Hoje eu sou tua amante
Hoje eu sou tua vagabunda
Quero cair na farra
Ser presa da tua garra
Faz de mim gato e sapato
Consome-me nesse ato
Penetra-me bem profunda
Hoje sou tua vagabunda.

O SEXO EM MIM

Vem amor...
Beijar a minha boca
Morder meus lábios
Beber minha saliva.
Quero fazer sexo
Ser possuída por ti.
Quero teu suor salgado
Brotando dos teus poros
Molhando teus pêlos
Belas gotas de suor
encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
Sou deusa enlouquecida
Fecho os olhos e sinto
Tua boca e tua língua
Banhando-me de tesão.
Desnuda meu pudor
Desvenda minha dor
Descobre meu calor
Você é como um menino
Brincando no meu corpo.
O vulcão dentro de mim
Explode na escuridão
Nesses breves segundo
Uma música sensual
Faz o meu amanhecer
Cheio de felicidade.

RITUAL DE PERDIÇÃO

Embaixo do céu da noite
Hipnotizando a lua
Aline à poderosa
Pantagruel Gargantua
No templo como vestal
Fazendo amor ritual
Sensualíssima e nua.
Erotismo que flutua
Feiticeira do prazer
Numa divina comédia
Mostrando todo poder
Vestida só de luar
Preparada para amar
Pra todos satisfazer.
Querendo prevalecer
No elogio da Loucura
Deitada e acariciada
Seu corpo de formosura
Por mil mãos na avidez
Todas elas duma vez
Dando prazer na fartura.
No falo que lhe perfura
Eneida maravilhosa
Às vezes dando ternura
Outras vezes perigosa
Entre dezenas de amantes
Seres Ébanos galantes
Abelhas na sua rosa. Como fada milagrosa
Nesse altar da perdição
Saúda os miseráveis
Com fogo do seu tesão
Um pingo do seu olhar
Faz qualquer um desmaiar
Ou morrer nessa paixão.
Volúpia e devassidão
Num ritual, primitiva
Odisséia de luxuria
Mantendo a chama viva
A multidão em espasmo
Num coletivo orgasmo
Ela era deusa e cativa.

No seu furor, possessiva
Entre gritos triunfais
Pratica a metamorfose
Nos prazeres colossais
Transforma-se em magia
Quando a noite vira dia
E o silêncio traz a paz.

A ÉGUA E O GARANHÃO

Quando a lama virou pedra
No tórrido do sertão
De repente me aparece
Um poeta garanhão
Vem com canto de nambu
A força do Funanchu
E potencia de avião.
Quando o verde dos meus zóio
Se espalhar na plantação
Quero ver mustang rápido
Com asas de gavião Abarcar-me atrevido
Penetrar o meu sentido
Cobrir-me com emoção.
No riacho do navio
Quando eu der de pinote
Quero um quarto de milha
Já pronto pra dá o bote
Se ele me pegar molhada
Rendo-me apaixonada
Deixe ele quebrar meu pote.
Só quando omandacaru
Na seca tá fulorando
Eu sinto todo arrepio
Como égua cavalgando
Nesse cheiro de potranca
Eu quero um peso na anca
Um puro sangue me amando.
Já fazem três noites
Que pro norte relampeia
Eu cavalgando no cio
Com cavalo que campeia
Um poeta campeão
Metido a garanhão
Que no meu corpo passeia.

RITUAIS DA PAIXÃO

O encontro aconteceu
O gosto do desejo explodiu
O esperado momento
Na paixão se rendeu.
Amantes se buscando
Amor, tesão e loucura,
Na porta do quarto
O amor se abrindo.
Roupas arrancadas
Tensão e anseios
Bocas se beijando
Línguas se buscando
Corações a mil.
Uma fusão de corpos
Se atraindo
Se acoplando
Se ajustando.
O jogo do amor desesperado
Tão esperado
Na busca do prazer intenso.
A batalha amorosa
Na volúpia escandalosa
Uma disputa de prazer.
O corpo cheirando a sexo
Impregnado de sensualidade
O sangue fervendo,
Mãos em toques sensuais
Línguas pelos corpos
O amor nos rituais.
A loucura não espera
O tempo certo para amar
Ama na porta, no chão,
Só os loucos amam assim!
E os amantes ocasionais.


ALINE DREMIR POR ALINE DREMIR: Sou uma mulher de trinta. Moro sozinha com dois filhos pequenos. Troquei a traição pela solidão. Trabalho muito, e ganho pouco. Gosto de amores curtos e passageiros. Já tive meu grande amor. Hoje amo sem compromisso. Não sou formada em nada, mas fiz a faculdade da vida. Moro aqui no fim do Brasil, onde o vento faz a curva. Escrevo só por escrever, pra passar o tempo e materializar meus sentimentos.

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segunda-feira, janeiro 19, 2009

VERS&PROSA DE AMOR PARA A MENINA AZUL



Imagem: Derinha Rocha

SEGUNDO POEMA DE AMOR PARA A MENINA AZUL

Luiz Alberto Machado

O segundo poema vem como emblema do amor por ela que trago na lapela e no meu coração. É como a canção que canto pra ela todos os dias e em todo momento.

É o segundo beijo renovando o desejo. O segundo sobejo de nossas carnes amadas e curtidas

Um segundo afeto de valor descoberto. É a segunda premência de nossas querências.

O segundo poema de amor por ela é uma parcela fragmentada de toda expressão da pessoa amada porque eu não sei quando a noite vem, porque seus olhos eternizam o riso do sol em mim.

É nela que eu vivo mesmo quando ela faz da gente um dramalhão de tv. Ou quando arenga engrossando o pirão e azedando o pavê. Ou quando embola o meio de campo empancando com tudo pra virar o meu mundo só no empate. Aí ela frisa o capricho revirando a lata do lixo a forçar disparate. Até que ela me tira do lance querendo que eu dance. Catimba na graça fazendo trapaça. E passa recibo mandando rebote. E me faz de inimigo, me dá baixa no estoque. Enfim, não me dá chance, tudo fora do alcance. E me passa calote fazendo pirraça: - Dessa não passa! E arma a desgraça e logo se intriga, piora a cantiga só de reprimenda. E não se emenda, não tem oferenda e revolve o passado, remove montanhas, me larga de lado sem lençol, nem fronha. E eu fico jogado, morto de vergonha.

Aí ela me dá a vida dela e exige que eu dê jeito. E me joga despeito na lata sua rispidez insensata. O balde ela chuta: - que filho da puta! E se desengraça quando tudo extravasa na beira do fim. Acabou-se o quindim, acabou-se a doçura. Vira uma pedra ruim na minha ternura.

Então já despejado, vou abatumado, coração consternado pra longe dali. Quando menos espero, ela vem me resgata daquela cena trágica. E meu ser arrebata em suas mãos mágicas. E me aquece com seu calor me fazendo a vassoura pro seu vôo. E me aperta tão bem a me fazer de refém de sua bruxaria. Maior ventania. E me abraça com o paraíso na boca quando eu percebo que de amor ela está louca.

E eu só sei que a vida passa quando ela cheia de graça vem se despedir eterna nos meus pensamentos como se daquele momento amanhã eu morresse. E dali procedesse nessa urgência no vôo pelo amor que celebra toda ventura da vida, pelo amor que me traz a razão de viver

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sábado, janeiro 17, 2009

GREGORIO DE MATOS GUERRA



Imagem: Purity, do pintor italiano de Giuseppe Dangelico Pino.

A POESIA ERÓTICA DE GREGÓRIO DE MATOS GUERRA

ÂNGELA

Anjo no nome, Angélica na cara.
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
em quem, senão em vós se uniformara?
Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatrara?
Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.
Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.

NECESSIDADES FORÇOSAS DA NATUREZA HUMANA

Descarto-me da tronga, que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.
Busco uma freira, que me desemtupa
A via, que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?
Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da mão sua cachopa.

POESIA AMOROSA - A uma freira, que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou “pica-flor”

Se pica-flor me chamais,
Pica-flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome, que me dais,
Meteis a flor, que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica, que fico então Pica-flor.

SONETO

Rubi, concha de perlas peregrina,
Animado cristal, viva escarlata,
Duas safiras sobre lisa prata,
Ouro encrespado sobre prata fina.
Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga, e mata,
Não livra o ser divina em ser ingrata,
E raio a raio os corações fumina.
Viu Fábio uma tarde transportado
Bebendo admirações, e galhardias,
A quem já tanto amor levantou aras:
Disse igualmente amante, e magoado:
Ah muchacha gentil, que tal serias,
Se sendo tão formosa não cagaras!

AOS VÍCIOS

Eu sou aquele que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.
E bem que os descantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em pletro diferente.
De que pode servir calar quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente?!
Sempre se há de sentir o que se fala.
Qual homem pode haver tão paciente,
Que, vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um e outro desconcerto,
Condena o roubo, increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço e repousado:
- Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio, se disso entendes nada ou pouco,
Como mofas com riso e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não - por não ter dentes.
Quantos há que os telhados têm vidrosos,
e deixam de atirar sua pedrada,
De sua mesma telha receosos?
Uma só natureza nos foi dada;
Não criou Deus os naturais diversos;
Um só Adão criou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só os distingue o vício e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais, chitom, e haja saúde.

FINGE QUE DEFENDE A HONRA DA CIDADE E APONTO OS VICIOS DE SEUS MORADORES
Uma cidade tão nobre, uma gente tão honrada
veja-se um dia louvada
desde o mais rico ao mais pobre:
cada pessoa o seu cobre, mas se o diabo me atiça,
que indo a fazer-lhe justiça algum saia a justiçar,
não me poderão negar que por direito,
e por Lei esta é a justiça, que manda El-Rei.
O Fidalgo de solar se dá por envergonhado
de um tostão pedir prestado
para o ventre sustentar:
diz que antes o quer furtar por manter a negra honra,
que passar pela desonra de que lhe neguem talvez;
mas se o virdes nas galés com honras de Vice-Rei,
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Donzela embiocada mal trajada, e mal comida,
antes quer na sua vida ter saia, que ser honrada:
à pública amancebada por manter a negra honrinha,
e se lho sabe a vizinha e lho ouve a clerezia,
dão com ela na enxovia e paga a pena da lei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
A Viúva autorizada, que não possui um vintém,
porque o Marido de bem deixou a casa empenhada:
ali vai a fradalhada, qual formiga em correição,
dizendo que à casa vão manter a honra da casa;
se a virdes arder em brasa, que ardeu a honra entendei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.
Se virdes um Dom Abade sobre o púlpito cioso,
não lhe chameis religioso,
chamai-lhe embora de frade:
e se o tal paternidade rouba as rendas do convento
para acudir ao sustento da puta, como da peita,
com que livra da suspeita do Geral, do Viso-Rei:
esta é a justiça, que manda El-Rei.

A UMA DAMA

Dama cruel, quem quer que vós sejais,
Que não quero por hora descobrir-vos,
Dai-me licença agora para argüir-vos,
Pois para amar-vos sempre ma negais:
Por que razão de ingrata vos prezais,
Não me pagando o zelo de servir-vos?
Sem dúvida deveis de persuadir-vos,
Que a ingratidão aformoseia mais.
Não há cousa mais feia na verdade:
Se a ingratidão aos nobres envilece,
Que beleza fará, o que é fealdade?
Depois, que sois ingrata me parece,
Que hoje é torpeza o que era então beldade,
Que é flor a ingratidão que em flor fenece.

DEFINIÇÃO DE AMOR (ROMANCE)

Nada disto é, nem se ignora,
Que o Amor é fogo, e bem era
Tivesse por berço as chamas
Se é raio nas aparências.
Este se chama Monarca,
Ou semideus se nomeia
Cujo céu são esperanças,
Cujo inferno são ausências.
Um Rei, que mares domina, um mundo que sopeia,
Sem mais tesouro que um arco,
Sem mais arma que uma seta,
O arco talvez de pipa,
A seta talvez de esteira,
Despido como um maroto, cego como uma topeira.
Arre lá com tal amor!
Isto é amor? É quimera,
Que faz de um homem prudente
Converter-se logo em besta.
Uma bofia, uma mentira,
Chamar-lhe ei mais depressa,
Fogo selvagem nas bolsas,
E uma sarna nas moedas.
É este, o que chupa, e tira
Vida, saúde e fazenda.
E se hemos falar a verdade
É hoje o Amor desta era
Tudo uma bebedice.
Que se acaba co dormir
E co dormir se começa.
O Amor é finalmente
Um embaraço de pernas,
Uma união de barrigas,
Um breve tremor de artérias,
Uma confusão de bocas,
Uma batalha de veias,
Um rebuliço de ancas,
Quem diz outra coisa é besta.

II

Ardor em firme coração nascido;
pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:
Tu, que em um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionados;
Quando cristal, em chamas derretido.

SONETO - A Certa Personagem Desvanecida

Um Soneto começo em vosso gabo:
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.
Na quinta torce agora a porca o rabo;
A sexta vai também desta maneira;
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetihos mutio brabo.
Agora nos tercetos que direi?
Direi que vós, Senhor, a mim me honrais
Gabondo-vos a vós, eu fico um rei.
Nesta vida um soneto já ditei;
Se desta agora escapo, nunca mais:
Louvado seja Deus, que eu o acabei.

GREGORIO DE MATOS GUERRA - Gregório de Matos Guerra (1623-1696) é, para muitos, o verdadeiro iniciador da literatura brasileira. Como um dos primeiros poetas brasileiros, sua obra sobreviveu manuscrita sendo a confrontação das duas grandes contradições surpreendidas no lírico e no satírico, voltado para a critica e a agressão ferina, às vezes de autolamentação, aos costumes, hábitos e individualidades de sua época, compondo um retrato amplo de Salvador da segunda metade do séc. XVII, inclusive do Recôncavo Baiano, onde se desenvolvia a economia do açúcar. Também sua obra é vista como uma manifestação da época, objetiva e documental, exaltando o amor carnal e platônico, destacando-se na sua poesia a beleza das mulheres. Seu estilo variado, desde satírico, lírico, amoroso e religioso demonstra a tradição da poesia quinhentista portuguesa, de Camões, mais a influencia preponderante do Barroco espanhol com Lope de Veja e Quevedo. Sua sátira em versos cortantes atinge grandes e pequenos, e acaba sendo perseguido e destituído de suas funções de vigário-geral e tesoureiro-mor, nomeações que havia conseguido através de D. Gaspar Barata. Sua fama, inicialmente foi de caráter local, com a obra inédita ou espalhada por inúmeras publicações, inclusive alguns poemas sem assinatura. Segundo Assis Brasil, tido como canalha ou gênio, o Boca do Inferno é responsável pelo primeiro momento alto da poesia brasileira, praticamente na época de sua origem e formação. Um barroco por excelência, segundo os críticos, quer na poesia lírica ou religiosa, sendo a sua obra de temas pendulares, como o amor platônico e devasso, o pecado e a pureza, a boemia e o moralismo. Critico mordaz da sociedade, foi reconhecido pelo padre Antonio Vieira, que fez paralelo entre os seus Sermões e a Sátira de Gregório de Matos, como instrumentos de critica. Segundo Ronald de Carvalho, foi Gregório de Matos o primeiro jornal brasileiro, onde estão registrados os escândalos miúdos e graúdos da época, os roubos, os crimes, os adultérios e até as procissões, u aniversários e os nascimentos que ele tão jubilosamente celebrou nos seus versos.

BIBLIOGRAFIA
AMADO, James. Gregório de Matos. Obra Poética. Rio de Janeiro: Record, 1990.
AMORA, Antônio Soares. História da Literatura Brasileira: séculos XVI-XX. São Paulo: Saraiva, 1955.
AMOROSO LIMA, Alceu. Introdução à literatura brasileira. Rio de Janeiro: Agir, 1956.
ARAUJO, Ruy Magalhães de. Gregório de Matos à Luz da Filologia: Glossário das Poesias Maldizente e Fescenina. Dissertação de Mestrado de Filologia Românica. Departamento de Lingüística e Filologia dos Cursos da Pós-Graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, 1988.
_______. Glossário Crítico-Etimológico das Poesias Atribuídas a Gregório de Matos e Guerra. Tese de Doutorado de Filologia Românica. Departamento de Lingüística e Filologia dos Cursos da Pós-Graduação da Faculdade de Letras da UFRJ, 1993.
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BARQUÍN, Maria del Carmen. Gregório de Matos. La época – el hombre – la obra. México: Antigua Libreria Robredo, 1946.
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CALMON, Pedro. A Vida Espantosa de Gregório de Matos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1983.
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CÂMARA CASCUDO, Luís da. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: EDIOURO, 1972.
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COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
DIMAS, Antonio (Coord). Gregório de Matos. São Paulo: Abril, 1981.
ESPÍNOLA, Adriano. As Artes de Enganar. Um estudo das máscaras poéticas e biográficas de Gregório de Mattos. Rio de Janeiro: Topbooks, 2000.
FERREIRA, Pinto. Historia da literatura brasileira. Caruaru: Fadica, 1981.
GOMES, João Carlos Teixeira. Gregório de Matos, O Boca de Brasa. Um estudo de plágio e criação intertextual. Petrópolis: Vozes, 1985.
HANSEN, João Adolfo. A Sátira e o Engenho. Gregório de Matos e a Bahia do século XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
LIMA, Alceu Amoroso. Introdução à literatura brasileira. Rio de Janeiro:Agir, 1956.
LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da literatura brasileira. RJ/Brasilia: Forense/Universitária/INL, 1978.
MARTINS, Wilson. A literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1967.
MIRANDA, Ana. Boca do inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
ROMERO, Silvio. História da literatura brasileira. Brasília: INL, 1989.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
TELES, Gilberto Mendonça. Se souberas falar também falaras. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1989.
TOPA, Francisco. O Mapa do Labirinto. Inventário testemunhal da poesia atribuída a Gregório de Mattos. Dalvadorm (BA): Secretaria de Cultura e Turismo, 2001.
WISNIK, José Miguel. Poemas Escolhidos de Gregório de Matos. São Paulo: Cultrix, 1989.

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