sexta-feira, janeiro 16, 2009

BRANCA TIROLLO



Imagem: sem título da artista plástica Ana Davidovic.

A SENSUALIDADE POÉTICA DE BRANCA TIROLLO

ÊXTASE SEXUAL

Esfera! Meu tablado amante e companheiro.
Viajo! A lua vaza entre frestas sorridente.
Traz-me tua boca nua, cruel e distante,
e próxima de uma sagacidade. Pura sugação
de o meu pensar, á ardejar nesta espera.
Além da imaginação textual, há excitação
com tifemia e tronejo, á ulcerar-me o peito,
enquanto procuro teus lábios que bamboleiam.
Vejo teus olhos triscados á sitiar-me,
lubrificando minha tricofagia como se fossem teus!
Os negros pelos que minha boca faz folia.
Alucina a temática! Teleguiada persiste.
Quase sem fé! Ajoelho-me ao tembé.
Á tunantear está! Teu corpo ao meu.
Adergando entres fios eletrizados.
Neste invento do alcochear dos dedos.
Cai um temporal no meu pensar insano.
Estou escalando montanhas em chamas.
Presa ao seu sexo, deleito o clamor dos lábios,
adormecendo no gozo da última cena.

DESEJOS PROIBIDOS

Beije-me! Toda uma eternidade, como amante.
Nesta doce magia que comporta
Nossos míseros instantes!
Beija-me como um tufão em fúria
Que atira sobre o chão, raios em cruzes.
Beija-me! Como o reflexo complexo
Destas negras e desiludidas luzes
Beija-me! Como onda inquieta
Que ronda o céu e serena beija areia
Como o cair da noite, no raiar do dia
Como sol ardente e lua fria
Apenas beija-me! Beija-me!
Neste mísero instante de magia.

FERA RACIONAL

Eis que febril queima o corpo meu,
num instante dócil, quando me toca o seu.
Estes teus braços, em laços, em plumas...
Teus encantos, espantos, espumam.
Teus olhos domados, em risos, em versos,
Teus pecados meigos, de afagos, de beijos.
Eis que a ti revelo meus sonhos, em gritos.
Num súbito instante, de amores, de dores.
Por teus insultos, deboches, rumores,
nestes negros olhos, de glória, delírios.
De pegadas duras, desvairadas loucuras,
deste pranto falso, de tortura, castigo.
Eis que tu tão farto, tão nítido, tão puro.
No tapete enrola, teu corpo, tua face,
nestas melodias, sussurros, desgastes.
Destas noites loucas, de pasmo contraste.
Tuas fantasias de sonhos malucos,
tua frente fria, de tristes desastres.
Eis que a mim volta, sereno, calado.
Num olhar carente, de
intrigas e abraços:
Destas peles rubras, de apertos, marcadas,
deste alivia fértil, que exala, espalha,
no meu corpo sadio, esgotado, espectro.
Eis que te descansa nu, sereno, e domado.

GATO DE MINAS

Gracioso és tu! Há fantasias eróticas
Transbordando em seu olhar
É pálida a sensação desgastante
Em teu corpo figurante
Teu corpo arde com sede
Teu desejo chama em chamas
O corpo da sua amante!

Não quero que seja meu deus
Nem meu demônio nem ateu.
Nem meu sonho nem meu eu.
Seja apenas, meu.

QUE AMOR É ESTE?

Que amor é este que se deseja antes de tomá-lo nos braços
E se envolve entre abraços ao partir?
Que amor é este que não deixa escolha profere e revoga,
açoitando o destino faz chorar e sorrir?
Que amor é este que com todos os defeitos se faz perfeito na dor,
extravasando no olhar leva além da vida, o perdão?
Que amor é este que dorme para esperar a morte
E não desfalece o seu esplendor?
Que amor é este, cuja essência não foge ao vento,
E faz tempestade no silêncio da noite?
Que amor é este que acalenta faz dormir e sonhar,
Invadindo o corpo, a alma e o pensar?
Que amor é este que ronda o infinito inquietando céus
E no coração vem sereno repousar?
Quero!
Entre suas ondas, de onda em onda mergulhar
Meu corpo, minha alma, meu grito
Minha calma, meu sonhar
Meus ventos, meus inventos
Em meu pensamento lento
Poder acompanhar
Tuas ondas, Mar.

Uma parte minha é anjo
Outra parte fera negra
m lado bate asa e voa

O outro a asa conduz
O veneno que do anjo
Necessariamente reluz

MOMENTOS ERÓTICOS

Momentos eróticos Quando minhas mãos tocam O transparente vinho branco Num desvio qualquer. Estranho minha face Debruçada em meu ser mulher. Os sonhos opacos e esquecidos Refletem no álcool envelhecido Estampando minha nítida nudez.

BRANCA TIROLLO – a atriz, roteirista e escritora paulista Branca Tirollo, é membro da Academia de Letras do Brasil e autora de várias peças teatrais, de diversos projetos engajados, artísticos e sociais, do documentário Mil vidas em meu pensar, de inúmeros livros de contos e poesias, além de ter participado de várias antologias.

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GUIA DE POESIA
LUIZ ALBERTO MACHADO NO CALDEIRÃO DO HUCK
FOLIA TATARITARITATÁ

quinta-feira, janeiro 15, 2009

LÍVIA TUCCI



Imagem: Etendue - Óleo sobre linho, de Craig Srebnik

O ERÓTICO AVESSO DO CRISTAL DE LIVIA TUCCI

ENCARNADA

Que eu toda me desabroche em cólicas,
que eu me abra em vísceras, retóricas,
em pitangas menstruadas,
toda em cascatas para ti.
Que eu me torne corpo, culpa, cópula,
em orquídeas selvagens, que eu me forme,
em pétalas de meus seios, que eu me desforme,
quando a língua ameaça seu passeio.
Que sejas taça de morangos, num rebanho de coral,
que eu toda me inverta, no sentido absoluto da ousadia,
quando amar é decifrar o vício mais sangrento
em sobre-humana ferida que não estanca.

EVOLUÇÃO DOS HOMENS

Que me alises, felina, em pleno cio,
como os gatos se enroscam e
ronronam
horas a fio, horas a fio.
Yo no creo en las brujas
pero que las hay, hay.
E por que doem minhas vísceras de ruminante?
E pra quem armam tuas unhas fendidas,
a visão noturna, a fome de cães,
um império de animais?
Que me alises, linda, lírica,
em onírica malícia, verte
e baba a resina, a sina química
que solta dos pêlos, favos.
Que adormeça, messe, meça
outro cio que estiver por vir.
E se eu me hibernar
no teu olhar de lince?
E se eu derramar em ti,
meu líquido denso,
numa várzea de véus?
Que eu mereça tuas mandíbulas,
no alvo exclusivo, que eu pereça,
que eu feneça em nódulos,
em lendas pré-históricas, que eu me esqueça.
E assim sendo, serei o pêndulo
da tua espinha,
te guiarei das trilhas à tocaia.
Eu, descuidada, um antílope.
Nós, liquidados, presas submersas,
e nas pernas rígidas, o colapso,
no tronco, o último golpe.
Perigoso, perigoso, que te tornes,
no tempo do abate, que é ora findo,
quando as pontadas de fome
nadarem em derredor.
Deus, salva-nos do dilúvio.
Que a disputa não se finda,
que as lutas entre os machos prevaleçam,
o instinto, a onomatopéia, o instinto,
as espécies e as fêmeas.
Deus, a benção.
A ciência dos flamingos, clamo.
A fidelidade dos cisnes, clamo,
pelos animais em evolução.
Brisa nenhuma quebre a placidez dos ares,
o círculo das águas.
Que eu equilibre a natureza,
no instante letal do medo.
Animais em fuga, sejamos sempre,
em majestosa solidão.
Que nos habitem chacais do vale.
Que eu aprenda
a evitar, cada vez mais,
a tua mão de Homem.
A ciência dos flamingos, clamo.
A fidelidade dos cisnes, clamo,
pelos animais em evolução.
Brisa nenhuma quebre a placidez dos ares,
o círculo das águas.
Que eu equilibre a natureza,
no instante letal do medo.
Animais em fuga, sejamos sempre,
em majestosa solidão.
Que nos habitem chacais do vale.
Que eu aprenda
a evitar, cada vez mais,
a tua mão de Homem.

RETAGUARDA

Surram suas costas
e o sangue segue seu talhe,
escorre pela curva,
a que mais se acentua,
segue seu curso
e morre na marca,
onde tudo principia.
E ela deságua
quando os homens desabam
nas argamassas, nos orgasmos,
no terreno mais temido.
Os homens se embrenham, por instinto,
em tudo que é proibido.
E uma mulher obediente,
nessa hora, cede tudo:
seus músculos,
seu íntimo, seu absoluto.
E outra vez,
essa mulher se traça
humilde, num abraço
e ninguém vê
a vaga resignação
no seu olhar,
quando abre a porta
e murmura: “Entrai e comei.
A casa é tua.”

PÁSSARO MATERNAL

O que faz esse homem chegar
com os vendavais do seu inferno,
compondo o medo na sede do meu sangue,
quando emigro as aves roucas da garganta
e perfumo-lhe a noite com a flor do mangue?
O que dorme em tua veia,
quando te atreves a beber, incólume,
a sanguinária vertente do meu sonho?
O que faz esse homem chegar,
me suplicar como um menino,
se orientar na bússola uterina,
quando chega como animal na agonia,
que lentamente expira
e suga-me o seio maternal e viperino?
O que cospes em meu ventre:
uma matilha de sementes sórdidas?
Legiões de anjos com bocas mórbidas?
Onde sou melhor, se te invento a cada dia:
quando saio trêmula pelo vidro
ou quando te enxerto em fecunda poesia?

POR UM FIO

Arranha
esta aranha,
côncava de pêlos;
quem dera ser o fio
nesta teia
de novelos;
quem dera ter o ofício
de tecer
o que te enleia.
Aranha tecelã,
arguta trepadeira,
ah, meu amor,
ara em mim
as tramas,
com dedos
de fiandeira.

AFLUENTE

Rio caudaloso e brando,
lava-me alva e árida,
salva-me dos naufrágios,
se me navegas tanto
em travessias e correntezas.
Se em nós flutua o canto
de proas e lemes,
nas embarcações das incertezas.
Seca-me, paciente, alma à deriva,
com tua boca de rio,
lábios crespos de mar.
Rio sinuoso e vertente,
arrasta-me em enchentes de mel,
deságua-me, no corpo, em sal,
salva-me, mais uma vez,
do vicioso mal.
Se em festa, és meu rio afluente
nas águas desse (a)mar,
é onde quero navegar, barcos de sonhos,
é onde vão transbordar, influentes,
nas redes dos meus desejos.
Pássaros fluviais. Úmidos guerreiros.

HERMAFRODITA

Que eu me envolva,
que eu em vulva,
que eu me em verve.
Do corpo adormecido,
a saliva acorda-nos em tempestades,
lava-nos em cântaros, a cidade.
Do animal desordeiro,
as ancas trêmulas e góticas,
cavalga-nos o potro em soluços, os cheiros.
Que eu me envolva
na verve de tua vulva,
que eu me inflame
no fluido de teu falo,
que silente calo, calo, calo.
Da boca,
que a reparto em duas,
em desmedida e assexuada gula,
sugo de uma só vez, ambíguos lagos.

REFAZENDA

Me apresento,
nua e bela,
uma metamorfose
de animais.
Roubo seus instintos,seus pêlos e cheiros,
apores e sons,
o baque surdo
das patas
as ancas violentas,
num tremor infernal.
E me apresento,
sem distinção,
eqüina ou humana,
na dança dos quatro atos,
num jogo de entrega e fuga.
a tua pele, meus animais,
que inundam
campos, pradarias, os currais.
E corro,
voraz e bela,
por entre as cancelas
do teu coração.

STRIPTEASE

Anoiteço árida,
adormeço úmida,
no emergir dos pêlos,
no arrepio dos passos,
quando a noite tece em nós
a opala túrgida.
E no dia seguinte,
sangüínea e dilatada,
outra vez, anoiteço.
E atenta a essa festa, recomeço.
Mostro, cubro,
desnudo a curva casta,
minhas partes mais pudendas,
as mais brancas,
e o show must go on
ao som de um blue.
E entre véus
e a fina blusa, entreaberta,
o lado claro do cenário
é a luz de um abajur.
Enquanto tento despir estrelas,
te dar um amor imenso,
dentro de minha blusa, entreaberta,
constróis a Via Láctea em silêncio.

MARÍ(N)TIMA

Teu corpo alagado
é um porto selvagem e inconstante,
quando tudo fora é sequidão e estio.
Eu, enchente de rios, matas, peixes,
que teimas represar em mim.
Na incessante busca e entrega,
por sobre a pele alva e salina,
voe-me, albatroz, em doce agonia,
flecha-me o alvo, o túnel, o arco.
Inunda, finalmente, em espumas gotejantes,
a branca praia, deserta e encantada
ávidos ao mastro, redescobrindo terras,
a posse será lenta, a invasão armada.
Serei em teu corpo, a mulher que insisto,
serás em minha mão, meu pássaro em extinção.

NO REINO DE APRENDIZ

Ainda que febre e vertente
o instinto e ócio se bastam,
mais o contágio se inverte
se no avesso da fruta, sou bagaço.
Se no retalho do corpo, sou farpa
mais minha boca tritura,
a lâmina e o fio se gastam
ainda que reste a armadura.
Ainda que pele erodida
o estio do corpo se faça,
mais o dardo engravida
se no vinco da pele, sou traça.
Se no chão ou taça, sou bebida
mais minha carne se trava,
o caroço e a fruta, se comida
ainda que raiz e erva brava.
Ainda que tarântula e teia
o pó e a seda se trançam,
mais o ninho se azeda e semeia
se no micróbio e larva, sou lança.
Se a larva abrir o contágio
e a erva curar a ferida,
ainda que dure um estágio
ainda que dure uma vida.

PREFÁCIO

De todas as formas,
a que mais ama,
a que mais enseja,
é a alma turbulenta,
a que impera
na sucessão dos dramas,
cal que sedimenta.
Única armadura,
nicho de chagas,
em vão, a espreitar
o corpo,
mil sentinelas de magos.
Úvida embocadura,
necto mineral,
enfim, a esplender
em partos,
todo o avesso do cristal.

LÍVIA TUCCI – A cantora, escritora e professora mineira, Livia Tucci é bacharel em Turismo, artesã e designer de jóias e bijuterias formada pela Escola Mineira de Joalheria, em Belo Horizonte, nos cursos de Desenho de Jóias e Joalheria Básico. Estudou piano e participou do Coral do BDMG até 1994, em Belo Horizonte, como contralto e mezzo soprano. É autora do livro de poemas “O Avesso do Cristal”. Edita os blogs Miss Jazz in Black and White e Livia Tucci em Poesia, Imagens e Sons.

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LUIZ ALBERTO MACHADO NO CALDEIRÃO DO HUCK
FOLIA TATARITARITATÁ

domingo, janeiro 11, 2009

VERS&PROSA PARA A MENINA AZUL



Foto: Derinha Rocha

PRIMEIRO POEMA DE AMOR PARA A MENINA AZUL

Luiz Alberto Machado

Foi com seu jeito franzino que ela tirou um fino no céu e acertou em cheio e com escarcéu a minha retina.

Esse jeito menina cheia de vida traquina virou a noite do dia dentro de mim que sem guia e na maior fantasia ficou tatuada na memória.

Era a sua vitória, uma asa torta, pá virada.

Eu de chapa: será roubada?

Era não, era uma deusa em plena profanação.

Ah, que festão no meu coração.

O cheiro da sua carne amena, uma menina falena cheia de truques e simulação.

Eu na maior perdição. Ela apontando pro norte e eu seguia pro sul sua sorte, maior gamação.

Eu, então, sigo seu jeito que ofusca quando ela aonde me busca e não me dou por vencido.

Sou enxerido e muito pelo contrário, sou vencedor.

Sou o domador dessa andeja presente.

E a gente, coração cheio divide a vida meio a meio sem prova dos nove ou descarte.

Ela faz estandarte da minha expressão.

E me leva nas mãos pelo rio do seu ventre.

Eita, chaleira quente das boas esquentadas, seu chamego ponto de chegada que de mim resta quase mais nada porque sou simplesmente um reles dependente, humano reincidente querendo seu colo e suas miragens, paisagens oníricas de sua boca fatídica dos meus naufrágios.

Ela cobra então ágio no nosso céu de beijos, multiplicando os desejos de abraços, cobiças e ânsias.

Santa extravagância!

E a vida treme nos seios dela, entre o meu coração e a apalpadela no seu sexo gostoso, é aí que vem o gozo de todos ais e uis porque os nossos sonhos são todos tão azuis.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
BIG SHIT BÔBRAS
GANHE LIVROS BRINCARTE

sábado, janeiro 10, 2009

JEAN-JACQUES ROUSSEAU



Imagem: The Yellow Robe, do pinto italiano de Giuseppe Dangelico Pino.

UM EPIGRAMA E FRAGMENTOS DO DISCURSO SOBRE A ORIGEM DA DESIGUALDADE DE JEAN-JEACQUES ROUSSEAU

EPIGRAMA

Palpava um Barnabita irmã Colette
Por trás do parlatório, em desajeito.
A freirinha queixou-se: nem se mete
Assim. Melhor seria estar num leito.
Cara irmã, disse o monge, contrafeito,
Essa idéia vem do espírito imundo;
Deus não nos fez para estarmos a jeito
Cá embaixo, como a gente do mundo.

DISCURSO SOBRE A ORIGEM DA DESIGUALDADE
(fragmento)

“Malgrado o que dizem os moralistas, o entendimento humano deve muito às paixões, que, de comum acordo, também lhe devem muito: é pela sua atividade que a nossa razão se aperfeiçoa; só procuramos conhecer porque desejamos gozar; e não é possível conceber porque aquele que não tivesse desejos nem temores se desse ao trabalho de raciocinar. As paixões, por sua vez, se originam das nossas necessidades, e o seu progresso dos nossos conhecimentos; porque só podemos desejar ou temer coisas segundo as idéias que temos delas, ou pelo simples impulso da natureza; e o homem selvagem, privado de toda sorte de luzes, só experimenta as paixões dessa última espécie; seus desejos não passam pelas suas necessidades físicas; os únicos bens que conhece no universo são a sua nutrição, uma fêmea e o repouso; os únicos males que teme são a dor e a fome (...) Entre as paixões que agitam o coração do homem, há uma ardente, impetuosa, que torna um sexo necessário ao outro; paixão terrível que arrosta todos os perigos, derruba todos os obstáculos e, em seus furores, parece própria para destruir o gênero humano, que ela é destinada a conservar. Em que se transformarão os homens, presas desse furor desesperado e brutal, sem pudor, sem moderação, e se disputando todos os dias o amor à custa de sangue? (...) É preciso convir, primeiro, que, quanto mais violentas as paixões, mais necessárias são as leis para contê-las: mas, além das desordens e dos crimes que as paixões causam todos os dias entre nós, mostrarem toda a insuficiência das leis a esse respeito, seria bom examinar ainda se essas desordens não nasceram com as próprias leis; porque, então, quando estas fossem capazes de as reprimir, o menos que se deveria exigir delas seria fazer cessar um mal que não existiria sem elas. (...) Limitados somente à parte física do amor, e bastante felizes para ignorar essas preferências que lhe irritam o sentimento e aumentam as dificuldades, os homens devem sentir menos freqüente e menos vivamente os ardores do temperamento, e, por conseguinte, ter entre si disputas mais raras e menos cruéis. A imaginação, que faz tantos estragos entre nós, não fala a corações selvagens; cada um espera pacificamente o impulso da natureza, a ele se entregando sem escolha, com mais prazer do que furor; e, satisfeita a necessidade, todo o desejo se extingue. É, pois, coisa incontestável que o próprio amor, como todas as outras paixões, só na sociedade adquiriu esse ardor impetuoso que tantas vezes o torna funesto aos homens; e é tanto mais ridículo imaginar os selvagens como se estrangulando sem cessar para saciar a sua brutalidade, quanto essa opinião é diretamente contrária à experiência, e os caraibas, de todos os povos existentes o que, até aqui, menos se afastou do estado de natureza, são precisamente os mais pacíficos nos seus amores e os menos sujeitos ao ciúme, embora vivendo num clima escaldante, que parece dar a essas paixões uma atividade cada vez maior. (...) Relativamente às induções que se poderiam tirar, em várias espécies de animais, dos combates dos machos que ensangüentam constantemente os nossos terreiros, ou que, disputando a fêmea na primavera, fazem retumbar as florestas com seus gritos, é preciso começar por excluir todas as espécies em que a natureza estabeleceu manifestamente, na potência relativa dos sexos, relações que não há entre nós: assim, as brigas dos galos não formam uma indução para a espécie humana. Nas espécies em que a proporção é mais bem observada, esses combates só podem ter como causa a raridade das fêmeas em relação ao número de machos, ou os intervalos exclusivos durante os quais a fêmea recusa constantemente a aproximação do macho, o que eqüivale à primeira causa; porque, se cada fêmea só suporta o macho durante dois meses do ano, a esse respeito é como se o número das fêmeas estivesse abaixo de cinco sextos. Ora, nenhum desses dois casos é aplicável à espécie humana, em que o número de fêmeas ultrapassa, em geral, o dos machos, em que nunca se observou, mesmo entre os selvagens, que as fêmeas tenham, como as das outras espécies, épocas de calor e de exclusão. De resto, entre muitos desses animais, toda a espécie entrando ao mesmo tempo em efervescência, vem um momento terrível de ardor comum, de tumulto, de desordem e de combate: momento que não existe para a espécie humana, na qual o amor nunca é periódico. Não se pode concluir, pois, dos combates de certos animais pela posse das fêmeas, que a mesma coisa acontecesse ao homem no estado de natureza; e, ainda mesmo que se pudesse tirar essa conclusão, como essas dissenções não destroem as outras espécies, deve-se pensar ao menos que não seriam mais funestas à nossa espécie; e é muito aparente que elas causassem ainda menos devastação do que na sociedade, principalmente nos países em que, sendo os costumes ainda contados para alguma coisa, o ciúme dos amantes e a vingança dos esposos causam todos os dias duelos, assassínios e coisas piores ainda; em que o dever de uma eterna fidelidade só serve para provocar adultérios, e em que as próprias leis da continência e da honra estendem necessariamente o deboche e multiplicam os abortos. Concluamos que, errando nas florestas, sem indústria, sem palavra, sem domicílio, sem guerra e sem ligação, sem nenhuma necessidade dos seus semelhantes, assim como sem nenhum desejo de os prejudicar, talvez mesmo sem jamais se reconhecerem individualmente, o homem selvagem, sujeito a poucas paixões e bastando-se a si mesmo, tinha somente os sentimentos e as luzes próprias desse estado; que não sentia senão as suas verdadeiras necessidades, não olhava senão o que acreditava ter interesse de ver; e que sua inteligência não fazia mais progressos do que a sua vaidade. Se, por acaso, fazia alguma descoberta, podia tanto menos comunicá-la do que nem mesmo reconhecia seus filhos. A arte perecia com o inventor. Não havia educação nem progresso; as gerações se multiplicavam inutilmente; e, partindo cada uma sempre do mesmo ponto, os séculos se escoavam em toda a grosseria das primeiras idades; a espécie já estava velha, e o homem conservava-se sempre criança”.

Viver não é meramente respirar, mas sim agir; é fazer uso de nossos órgãos, sentidos e faculdades, de todas as partes de nós mesmos que nos dão a sensação de existência.”1

JEAN-JACQUES ROUSSEAU - Jean-Jacques Rousseau nasceu em Genebra no ano de 1712 e morreu no de 1778. Dotado de excepcionais qualidades de inteligência e imaginação, foi ele um dos maiores escritores e filósofos do seu tempo. Em suas obras, defende a idéia da volta à natureza, a excelência natural do homem, a necessidade do contrato social para garantir os direitos da coletividade. Seu estilo, apaixonado e eloqüente, tornou-se um dos mais poderosos instrumentos de agitação e propaganda das idéias que haviam de constituir, mais tarde, o imenso cabedal teórico da Grande Revolução de 1789-93. Ao lado de Diderot, D'Alembert e tantos outros nomes insignes que elevaram, naquela época, o pensamento científico e literário da França, foi Rousseau um dos mais preciosos colaboradores do movimento enciclopedista. Das suas numerosas obras, podem citar-se, dentre as mais notáveis: Júlia ou A Nova Heloísa (1761), romance epistolar, cheio de grande sentimentalidade e amor à natureza; O Contrato Social (1762), onde a vida social é considerada sobre a base de um contrato em que cada contratante condiciona sua liberdade ao bem da comunidade, procurando proceder sempre de acordo com as aspirações da maioria; Emílio ou Da Educação (1762), romance filosófico, no qual, partindo do princípio de que "o homem é naturalmente bom" e má a educação dada pela sociedade, preconiza "uma educação negativa como a melhor, ou antes, como a única boa"; As Confissões, obra publicada após a morte do autor (1781-1788), e que é uma autobiografia sob todos os pontos-de-vista notável.
Este personagem principal e famoso da Revolução francesa, em seu livro chamado "Confissões" fala em alto e bom som dos prazeres que homens perfeitamente constituído em caráter e mente, e os amantes ferventes das mulheres que experimentavam ser chicoteados por elas. Escreveu: “(...) como Mademoiselle Lambercier experimentava em nós o afeto de uma mãe, também gostava de exercitar sua autoridade, ocasiões em que ela apreciava quando nos castigava. Durante muito tempo estava determinada a nos ameaçar, e cada ameaça de um novo castigo, um começo era terrível para mim. Porém quando o castigo se materializava, eu o achava menos terrível do que tinha imaginado. E a coisa mais curiosa é que com cada castigo minha adoração a ela crescia por ela impor isto para mim. Na dor e até na vergonha da humilhação, eu encontrei um tanto quanto a sensualidade que gerava em mim mais desejos que medo pela experiência de novamente outro castigo”. Vê-se, pois, que ele era adepto do spanking e defendia que a masturbação nada mais é que uma forma de expressão do desejo sexual no ser humano.
Para Hannah Arendt ele foi o "criador" da intimidade no século XVII e, como era um homem dado à mansidão e ao culto à bondade natural, reiterou que a instrução das mulheres "(...) deve ser relativa ao homem. A mulher é feita para ceder ao homem e suportar-lhe as injustiças".

FONTE:
PAES, José Paulo. Poesia erótica em tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 2006
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens São Paulo/Brasilia: UnB/Ática, 1989.

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GUIA DE POESIA

quinta-feira, janeiro 08, 2009

SILVA ALVARENGA



Imagem: Actaea, the Nymph of the Shore, c.1868, do pintor e escultor do Romantismo Vitoriano inglês, Lord Frederic Leighton

OS FRAGMENTOS DA GLAURA DE SILVA ALVARENGA

MADRIGAL

I

Suave fonte pura,
Que desces murmurando sobre a areia,
Eu sei que a linda Glaura se recreia
Vendo em ti dos seus olhos a ternura;
Ela já te procura;
Ah! como vem formosa e sem desgosto!
Não lhe pintes o rosto:
Pinta-lhe, ó clara fonte, por piedade,
Meu terno amor, minha infeliz saudade.

III

Voai, suspiros tristes;
Dizei à bela Glaura o que eu padeço,
Dizei o que em mim vistes,
Que choro, que me abraso, que esmoreço.
Levai em roxas flores convertidos
Lagrimosos gemidos que me ouvistes:
Voai, suspiros tristes;
Levai minha saudade;
E, se amor ou piedade vos mereço,
Dizei à bela Glaura o que eu padeço.

XV

No ramo da mangueira venturosa
Triste emblema de amor gravei um dia,
E às Dríades saudoso oferecia
Os brandos lírios, e a purpúrea rosa.
Então Glaura mimosa
Chega do verde tronco ao doce abrigo...
Encontra-se comigo...
Perturbada suspira, e cobre o rosto.
Entre esperança e gosto
Deixo lírios, e rosas... deito tudo;
Mas ela foge (Ó Céus!) e eu fico mudo.

XXIV

Não desprezes, ó Glaura, entre estas flores,
Com que os prados matiza a bela Flora,
O Jambo, que os Amores
Colheram ao surgir a branca aurora.
A Dríade suspira, geme e chora
Aflita e desgraçada.
Ela foi despojada... os ais lhe escuto...
Verás neste tributo,
Que por sorte feliz nasceu primeiro,
Ou fruto que roubou da rosa o cheiro,
Ou rosa transformada em doce fruto.

À LUA

Como vens tão vagarosa,
Oh formosa e branca lua!
Vem co'a tua luz serena
Minha pena consolar!
Geme, oh! céus, mangueira antiga,
Ao mover-se o rouco vento,
E renova o meu tormento
Que me obriga a suspirar!
Entre pálidos desmaios
Me achará teu rosto lindo
Que se eleva refletindo
Puros raios sobre o mar.

Madrigal LIII [Tu és no campo, ó Rosa,]

Tu és no campo, ó Rosa,
A flor de mais beleza
De quantas produziu a Natureza
Que em tuas perfeições foi cuidadosa.
E se Glaura formosa
No seio dos prazeres te procura,
Qual outra flor será de mais ventura,
Ou mais digna de amor ou mais mimosa?
Tu és no campo, ó Rosa,
A flor de mais ventura e mais beleza
De quantas produziu a Natureza.

Madrigal XVIII [Suave Agosto as verdes laranjeiras]

Suave Agosto as verdes laranjeiras
Vem feliz matizar de brancas flores,
Que, abrindo as leves asas lisonjeiras,
Já Zéfiro respira entre os Pastores
Nova esperança alenta os meus ardores
Nos braços da ternura.
Ó dias de ventura,
Glaura vereis à sombra das mangueiras!
Suave Agosto as verdes laranjeiras
Co'a turba dos Amores
Vem feliz matizar de brancas flores.

A SERPENTE

Verde Cedro, verde arbusto,
Que o meu susto e prazer vistes,
Vamos tristes na memória
Essa história renovar.
Este o vale, é esta a fonte:
Glaura achei aqui dormindo:
Sonha alegre e se está rindo,
E eu defronte a suspirar.
Junto dela pavoroso,
Vi, oh Céus! Monstro enrolado,
Fero, enorme, atroz, manchado,
E escamoso cintilar.
Verde Cedro, verde arbusto,
Que o meu susto e prazer vistes,
Vamos tristes na memória
Essa história renovar.
Ardo, e tremo, e louco amante
Mil horrores n’alma pinto:
Vou... receio... ah que me sinto
Vacilante desmaiar.
Vence Amor (doce ternura!):
Tomo a Ninfa nos meus braços:
Ele aperta os novos laços,
E assegura o triunfar.
Verde Cedro, verde arbusto,
Que o meu susto e prazer vistes,
Vamos tristes na memória
Essa história renovar.
Em si mesma se embaraça
A serpente enfurecida;
Ergue o colo e atrevida
Ameaça a terra e o ar.
Numa pedra rude e feia
Já lhe envio a morte afoita;
Já co’a cauda o tronco açoita,
Morde a areia ao expirar.
Verde Cedro, verde arbusto,
Que o meu susto e prazer vistes,
Vamos tristes na memória
Essa história renovar.
Venturoso e satisfeito,
"Glaura bela (então dizia),
Vê de amor e de alegria
O meu peito palpitar".
Ela, em mim buscando arrimo,
Coroa, e diz inda assustada:
"Esse puro ardor me agrada",
Eu te estimo e te hei de amar".
Verde Cedro, verde arbusto,
Que o meu susto e prazer vistes,
Vamos tristes na memória
Essa história renovar.
(Rondó V).

Neste áspero rochedo,
A quem imitas, Glaura sempre dura,
Gravo o triste segredo
Dum amor extremoso e sem ventura.
Os faunos da espessura
Com sentimento agreste
Aqui meu nome cubram de cipreste;
Ornem o teu as ninfas amorosas
De goivos, de jasmins, lírios e rosas.

Suave fonte pura,
Que desces murmurando sobre a areia,
Eu sei que a linda Glaura se recreia
Vendo em ti de seus olhos a ternura:
Ela já te procura;
Ah! como vem formosa, e sem desgosto!
Não lhe pintes o rosto:
Pinta-lhe, ó clara fonte, por piedade,
Meu terno amor, minha infeliz saudade.

No ramo da mangueira venturosa
Triste emblema de amor gravei um dia,
E às dríades saudoso oferecia
Os brandos lírios e a purpúrea rosa.
Então Glaura mimosa
Chega do verde tronco ao doce abrigo ...
Encontra-se comigo ...
Perturbada suspira, e cobre o rosto.
Entre esperança e gosto,
deixo lírios e rosas ... deixo tudo;
Mas ela foge (ó céus!) e eu fico mudo.

Capada laranjeira, onde os amores
Viram passar de agosto os dias belos,
Então de brancas flores
Adornaste risonha os seus cabelos.
A fortuna propícia aos teus desvelos
Anuncia feliz novos favores:
Glaura torna; ah! conserva lisonjeira,
Copada laranjeira, por tributos,
Na rama verde-escura os áureos frutos.

Ó sono fugitivo,
De vermelhas papoulas coroado,
Torna, torna amoroso, e compassivo
A consolar um triste, e desgraçado,
Gemendo nesta gruta recostado,
Sinto mortal desgosto;
Não vejo mais que o rosto descorado
Da saudade, e da mágoa, com que vivo;
Ó sono fugitivo,
Torna, torna amoroso, e suspirado
A consolar um triste, e desgraçado.

Crescei, mimosas flores,
Adornai a verdura deste prado.
Já zéfiro aparece entre os Amores
Risonho e sossegado:
Da amável Primavera o doce agrado
Novo prazer inspira às Graças belas:
Verei brincar entre elas
A Ninfa mais cruel nos seus rigores.
Crescei, mimosas flores,
Fugiu o Inverno triste, e congelado;
Adornai a verdura deste prado:

Ó águas dos meus olhos desgraçados,
Parai que não se abranda o meu tormento:
De que serve o lamento
Se Glaura já não vive? Ai, duros Fados!
Ai, míseros cuidados!
Que vos prometem minhas mágoas? águas,
Águas! . " responde a gruta,
E a ninfa que me escuta nestes prados!
Ó águas de meus olhos desgraçados,
Correi, correi; que na saudosa lida
Bem pouco há de durar tão triste vida.

O AMANTE SATISFEITO - Rondó XXVI

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Este rio sossegado,
Que das margens se enamora,
Vê co'as lágrimas da Aurora
Bosque e prado florescer.

Puro Zéfiro amoroso
Abre as asas lisonjeiras,
E entre as folhas das mangueiras
Vai saudoso adormecer.

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Novos sons o Fauno ouvindo
Destro move o pé felpudo:
Cauteloso, agreste e mudo
Vem saindo por me ver.

Quanto vale uma capela
De jasmins, lírios e rosas,
Que co'as Dríades mimosas
Glaura bela foi colher!

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte.
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Receou tristes agoiros
A inocência abandonada;
E aqui veio retirada
Seus tesoiros esconder.

O mortal, que em si não cabe,
Busque a paz de clima em clima;
Que os seus dons no campo estima,
Quem os sabe conhecer.

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Os metais adore o mundo;
Ame as pedras, com que sonha,
Do feliz Jequitinhonha,
Que em seu fundo as viu nascer.

Eu contente nestas brenhas
Amo Glaura e amo a lira,
Onde terno amor suspira,
Que estas penhas faz gemer.

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

O BEIJA-FLOR - Rondó VII

Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.

Neste bosque alegre e rindo
Sou amante afortunado;
E desejo ser mudado
No mais lindo Beija-flor.

Todo o corpo num instante
Se atenua, exala e perde:
É já de oiro, prata e verde
A brilhante e nova cor.

Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.

Vejo as penas e a figura,
Provo as asas, dando giros;
Acompanham-me os suspiros,
E a ternura do Pastor.

E num vôo feliz ave
Chego intrépido até onde
Riso e pérolas esconde
O suave e puro Amor.

Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.

Toco o néctar precioso,
Que a mortais não se permite;
É o insulto sem limite,
Mas ditoso o meu ardor;

Já me chamas atrevido,
Já me prendes no regaço:
Não me assusta o terno laço,
É fingido o meu temor.

Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.

Se disfarças os meus erros,
E me soltas por piedade,
Não estimo a liberdade,
Busco os ferros por favor.

Não me julgues inocente,
Nem abrandes meu castigo;
Que sou bárbaro inimigo,
Insolente e roubador.

Deixo, ó Glaura, a triste lida
Submergida em doce calma;
E a minha alma ao bem se entrega,
Que lhe nega o teu rigor.

O RIO -- Rondó XLIX

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

Vêm as Graças lagrimosas,
E os Amores sem ventura
Nesta fria sepultura
Pranto e rosas derramar.

Por ti, Glaura, a Natureza
Se cobriu de mágoa e luto:
Quanto vejo, quanto escuto
É tristeza, e é pesar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

A escondida, áspera furna
Deixam sátiros agrestes,
E de lúgubres ciprestes
Vem a urna circular.

Vêm saudades, vêm delírios,
Vem a dor, vem o desgosto
Com os cabelos sobre o rosto
Murta e lírios espalhar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

Nestes ramos flébil aura
Triste voa e presa gira:
Glaura aqui, e ali suspira,
Torna Glaura a suspirar.

Eco, as Dríades magoa,
O saudoso nome ouvindo;
E na gruta repetindo,
Glaura soa e geme o ar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

Glaura ó Morte enfurecida,
Expirou... que crueldade!
E pudeste sem piedade
Sua vida arrebatar?

Cai a noite, a névoa grossa
Turba os Céus com manto escuro;
E eu aflito em vão procuro
Quem me possa consolar.

Chora o Rio entre arvoredos,
Nos penedos recostado:
Chora o prado, chora o monte,
Chora a fonte, a praia, o mar.

SILVA ALVARENGA - Manuel Inácio da Silva Alvarenga (1749 - 1814) nasceu em Vila Rica. Estudou no Rio de Janeiro e em Coimbra. Era um ardoroso defensor de Pombal e das idéias iluministas. Sua obra Glaura (1799). Pelos dados biográficos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga se pode depreender que sua vida fluiu em parte em função das duas tendências ideológicas atuantes ao seu tempo. Como poeta, entretanto, foi ele obediente seguidor da tradição. Sua poesia lírica consubstanciada num livro apenas, Glaura, é quase um permanente esforço de subordinação a formas e temas consagrados, num preciosismo de quem requinta em obter algo de algo já esgotado e decadente. Todas as suas peças líricas de sua Glaura são em numero de cinqüenta e nove rondós e cinqüenta e sete madrigais. O rondó, forma poética medieval francesa, tem sua notabilidade em Guillaume de Machaut, Eustache Deschamps, Charles d´Orleans, devendo, originalmente, ser destinado ao anto e consistindo de tres estrofes, com um total de doze a quatorze versos, com duas rimas recorrentes. Variando o numero de versos e o esquema das rimas, o verdadeiro apoio fonético que em breve o caracteriza passou a ser a repetição do primeiro verso ao fim da segunda e terceira estrofres do rondó. Variação subseqüente, que se pode chamar rondel, consistiu em repetir, em numero maior de versos, o primeiro verso pela altura do oitavo ou de um dos seguintes versos e no fim do poema. Os rondós de Silva Alvarenga representam um fim de evolução da forma, como estrutura sensivelmente diferente. Consistem, quase todos, em quatro grupos de tres quadras, sendo repetida a primeira quadra, em forma de estribilho, no inicio de cada grupo assim como no fim do poema – o que totaliza, por conseguinte, treze quadras ou cinqüenta e dois versos. O verso, na grande maioria dos rondós, é heptassilabo, redondilha maior, salvo os do rondó que são pentassilabos redondilhas menores, e os rondós hexassilabos. Os heptassibilabos são, quase sem discrepância, acentuados na terceira e sétima silabas. Os pentassilabos, na segunda e quinta, e os hexassilabos, na segunda e sexta. O madrigal, originalmente italiano, confunde-se com a silva espanhola, praticada em língua portuguesa, consistindo de uma pequena serie de versos decassílabos e hexassilabos, em seqüência qualquer, rimando entre si sem esquema prévio de rimas.
Em Glaura - Poemas eróticos (1799), Silva Alvarenga soube criar uma sonoridade leve e cantante, animada por um sentimentalismo difuso, entre dengoso e lamuriante, que iria derramar-se, em clave mais adocicada, em muitas cantigas do nosso cancioneiro popular. Ao mesmo tempo, a imaginação plástica de Silva Alvarenga captou vivamente aspectos da natureza carioca, abrindo espaço para um sentimento da paisagem que os românticos depois iriam aprofundar. Por tudo isso, Glaura constitui um episódio fundamental do arcadismo brasileiro.
Os rondós são formas poemáticas que, como a balada, estão relacionadas com a dança, sendo de origem francesa, foi convertido por Silva Alvarenga em um conjunto de quadras com um estribilho que abre e fecha a composição se dispondo sempre como rimas internas, além de se intercalar entre séries de duas estrofes. A obra Glaura é composta por 59 rondós e de 56 madrigais. Nos rondós o autor utiliza versos curtos, sendo hábil na expressão da clareza dos sentimentos e na exploração do estrato fônico dos poemas, bem como a perfeição do ritmo e da rima, inclusive internas, que revela o sentido primitivo do rondó que traz a idéia de circularidade : rondeau (do latim, rotundu(m), "redondo, em forma de roda"),e, pelo que se sabe, o rondó foi feito para ser cantado ou para servir de acompanhamento de uma dança chamada ronde. Os rondós, sempre em redondilha, começam com poucas exceções, por um quarteto que serve de estribilho, com rimas encadeadas. Segue-se dois quartetos.
Os madrigais de origem italiana são composições poéticas engenhosas e galantes dirigida as damas, porém mais livre, articulando-se em estrofes variamente rimadas, que vão de 8 a 11 versos. Como na tradição italiana dessa forma, notamos a alternância de versos decassílabos, maiores, com versos hexassílabos, menores, atribuindo maior variedade rítmica. Os madrigais, constroem-se um pouco ao sabor da improvisação, guardadas sempre as medidas do verso heróico de dez ou sei sílabas.
Silva Alvarenga como músico e também descendente de músico, soube enriquecer com facilidade suas obras com grande musicalidade, assim podemos observar no madrigal de número XXVI "Vês, Ninfa, em alva escuma o pego irado", o ar festivo ao celebrar o amor com simplicidade das palavras e com seqüência ligeira dos versosdos quartetos é sempre a mesma, e aguda.

FONTE:
ALVARENGA, Manoel Inácio da Silva. Epístola (1772). In: Antologia dos poetas brasileiros da fasecolonial. São Paulo: Perspectiva, 1979.
________. Glaura: poemas eróticos. São Paulo: Schwarcz, 1996.
BANDEIRA, Manuel. Noções de história das literaturas. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1940.
BOSI, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
BRASIL, Assis. Dicionário pratico de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
______. Vocabulário técnico de literatura. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira. São Paulo: FFLCH/USP, 1999.
______ Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ Edusp, 1975.
CANDIDO, Antonio: CASTELLO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira, vol. 1. São Paulo, Difel, 1968.
CARPEAUX, Otto Maria. Historia da literatura ocidental. Rio de Janeiro: Alhambra, 1980.
_________. Pequena bibliografia critica da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1979.
CARVALHO, Ronald. Pequena história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: F. Briguet, 1955.
CASTELLO, José Aderaldo. Manifestações literárias do período colonial (1500-1808/1836) São Paulo: Cultrix, 1972.
COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
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DURÃO, Jose de Santa Rita. Caramuru. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FERREIRA, Pinto. Historia da literatura brasileira. Caruaru: Fadica, 1981.
FRANCO, Afonso Arinos de M. “Prefácio”. In: ALVARENGA, M. I. da Silva. Glaura. Poemas eróticos. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943, p. IX-XXVII.
GOMES, Heidi Strecker. Análise de texto. São Paulo: Saraiva, 1991.
HOLANDA, Sergio Buarque (Org). Antologia dos poetas brasileiros da fase colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979,
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LITRENTO, Oliveiros. Apresentação da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Forense-Universitária/INL, 1978.
MARTINS, Wlson. A literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1967.
MOISÉS, Massaud, A Literatura Brasileira Através dos Textos. São Paulo: Cultrix, 2000.
________. A Literatura Portuguesa. São Paulo: Cultrix, 2001.
ROMERO, Silvio. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: José Olympioo/INL, 1980.
SODRÉ, Nelson Werneck. Historia da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasiléia, 1976.
TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Itatiaia, 1989.

VEJA MAIS:
SILVA ALVARENGA
GUIA DE POESIA

quarta-feira, janeiro 07, 2009

VAN LUCHIARI



Imagem: Light blue, de Daniel Oliveira.

A ESSENCIA CARNAL DOS VERSOS DE VAN LUCHIARI

FOME

Derrama o teu amor na minha língua
profano, devasso, proibido, viscoso.
Minha boca é feita para receber-te
duro, forte, explosivo, guloso.
Derrama-te em mim por inteiro
que todo o resto é nada
e é de ti que eu me alimento.
Eu desejo o teu gosto,
o teu cheiro, teu unguento.
Se escorrer uma só gota
eu recolherei com um beijo.
E se tu quiseres, amor,
podes me lamber que eu deixo.

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De baixo pra cima
O banquete completo:

Entrada
Prato principal
Sobremesa

Pode vir que tá na mesa!

TE COMER

Te comer.
Te comer com a língua, te comer com a alma.
Te comer no elevador, no corredor, te comer com amor.
Te comer com manteiga, com mel, com sorvete, com chantilly.
Em pé, sentado, no sofá, no chão, na cozinha, no restaurante,
No prato, em duralex, em eucatex, no provador e naquela estante.
Te comer sem medo, sem pudor, sem medidas, sem dó.
Ao sumo, molhado, fluído, sólido e duro.
Te comer na cama, na grama, na aspereza do muro.
Te comer com gosto, com gula, te comer com fúria e prazer.
Até que em mim te derrames todo, te dês inteiro até o talo.
Pra encher meu ser de ti e minha boca do teu falo.
Até que me sacies. Até que eu engula teu nome.
Te comer em goles. Te comer com fome.
Te comer com fome.

TUA

Essa noite eu serei tua.
Serei das tuas palavras que me atam gentilmente...
Farei da tua sede a minha amarra intensa e excitante.
Serei só da tua vontade, submissa aos teus quereres
Farei-me inteira tua posse, tua escrava, tua amante.
Essa noite eu serei tua.
Serei para ti as provocações suculentas e urgentes
Que a tua língua anseia e os teus dedos tremem.
Serei tua presa... oferenda vulnerável e nua.
Escorrendo coxas, esfregando pernas e mordendo dentes.

Seios, carnes, gozo, gemidos.... Serei tua aos pedaços.
Lentamente desvendada.... Nó a nó. Laço a laço.
Serei das tuas palavras, do teu pecado, da tua gula.
Essa noite eu serei tua. Essa noite eu serei tua.

DOS DIREITOS DE SER TUA

Reservo-me o direito de ser a pedra bruta
onde tu esculpes com teus dedos ávidos
o inevitável gozo.
Reservo-me o direito de esculpir meu corpo
no teu ir e vir frenético e pulsante
e deslizar minha pele na tua
até que a forma completa se conclua.
Reservo-me o direito de ser o rascunho rústico
onde tu experimentas o teu erotismo
e penetras intensamente os orifícios
sem argumentos ou artifícios.
Reservo-me o direito de ser tua!
Somente tua!
Tira-me os excessos. Mata-me as imperfeições.
E saboreia tua obra.
A minha pele te espera.... inteira e nua!
...
Vem

TUDO EM MIM

Despi-me. Estou nua.
Minhas mãos atrevidas invadindo os caminhos. As coxas abertas em entrega voluntária. Os dedos todos em mim. Penetram deliciosamente percorrendo os úmidos que me escorrem por tua causa. (Por tua causa) Respiro ofegante... Tudo em mim palpita. (Tudo) A boca seca implorando pelos teus dentes. Os lábios ensopados implorando pela tua língua. Os dedos lambuzados que eu levo à boca, tentando matar a minha sede de ti. Mas o gosto doce que sinto é o meu. (E é bom) Provo novamente. E denovo. Minhas fendas ensopadas sendo devassadas pelos dedos gulosos. Gemidos escapam trêmulos das entranhas do meu corpo. Tudo em mim se rende. E na cabeça só uma pergunta: Por que não é você? Por que não é você?

ARDENTE

O que eu preciso diariamente
Abrir-me aos teus dentes
Sentir-te entrando e queimando-me
num trago longo e quente.
Derramar-te meu gozo
dar-te minha pele nua e latente.
Sentir-te beber lentamente
meu peito, meu leite, minha mente.
Até não haver mais poro
ou buraco em mim que te ausente.
Sorver-te deliciosamente.
Até o fim, impiedosamente.

O que eu preciso diariamente
é de uma dose bem farta
da tua água-ardente

GUARDA-ME

A tua carne é uma gaveta
onde eu deposito os meus fluidos
onde eu guardo os meus segredos
onde eu arremesso os meus desejos.
A tua pele é um baú
onde eu armazeno os meus sonhos
onde eu abafo os meus éteres latejantes
onde eu decanto o meu gozar inebriante
O teu corpo é um recipiente
onde eu derramo minha essência mais pura
onde eu lambuzo e perfumo o meu sexo
e a minha língua prova a intumescida cura.

Noutras palavras....

RITUAL

Desejar-te é meu ritual diário.
Uma devoção insana
que me escorre pelo corpo
que me queima feito brasa.
Podes me queimar com tuas línguas!
Por ti eu queimo todos os meus fogos!
É porque eu te amo que eu sou tua!
E por ser tua, de mim mesma esqueço.
Querer-te é um altar onde me ofereço.
Aos teus pés me arreganho e sacrifico.
Desejar-te é meu ritual diário.
Por isso eu te quero. Por isso eu fico!

DEPUDORADA

Mostro-me! Revelo-me! Não tenho mais pudor!
Veja-me por inteiro. Receba o que te dou.
Esteja aqui. Invada meus sentidos, minha pele.
Pra ti eu dou meu gozo, minhas noites, meu amor.

EM TUDO

No meu corpo
nos meus olhos
nos meus dentros
nos meus centros...
Em tudo há você.
Nos meus cantos
nos meus profundos
nos meus olhos
nos meus mundos...
Em tudo há você.
No meu desejo
na minha umidade
no meu gozo
nas minhas metades...
Em tudo há você.
No chão em que me deito
no ar que eu respiro
no sonho em que te encontro
na nudez que eu transpiro...
Em tudo o que eu faço.
Em tudo o que eu vejo.
Em tudo o que eu fantasio.
Em tudo o que eu minto e sinto.
Em tudo há você.
Nos meus olhos fechados
Na minha alma despida
Em todas as músicas
Em tudo há tua vida.

Em tudo há você.

DIAS

Dia quente e eu te sinto em mim
Tua língua passeia voraz e furiosa
Degustando lábios e pingando uvas
Intumescendo grelos em tremor de vulvas
Despudorado e intenso meu amor escorre
Em tua boca aflita um gosto doce morre
Dia quente e eu te sinto em mim
Quisera o dia não tivesse fim.

VOCÊ VEIO

Foi num sonho... Você veio.
Invadiu-me sorrateiro
Pôs um beijo no meu corpo
Bico a bico, seio a seio
Você veio.
Delicado e faminto
foi sorvendo meu instinto
Dominando meu desejo
Arrepiando meus pelos
Você veio.
Intumescendo meu grelo
Sequestrando meus fluídos
Aprisionando meus anseios
Nas tuas unhas, nos teus dedos
Mordendo minha pele
Intoxicando meu cheiro
Batendo em minha bunda
Puxando os meus cabelos
Foi num sonho... Você veio.
Apaixonado e furioso
Penetrando sexo e orifícios
Devorando vulva e lábios
Possuindo meus anseios
Foi num sonho... Você veio.
Lobo em pele de cordeiro
E eu fui sua... por inteiro.

TEU

Meu corpo é o depositário do teu amor
O invólucro do teu desejo, do teu querer
O abismo onde o teu gozo explode
em jatos fortes e quentes.
Meu corpo é o guardião da tua insanidade
A cura de todos os teus males
Meu corpo é um mergulho profundo
em águas densas e mornas
Meu corpo é um deslizar macio
onde se esconde tua fuga, teu mundo.
Meu corpo é a tua cama,
teu aconchego, teu tudo.
Brasa queimando em ardor.
Lava latejante de vulcão.
Meu corpo é o recipiente dos teus pecados
Meu corpo é teu. Por todos os lados.

DEMORE-SE

Coma-me.... e pronto!

Demore-se nisso.
Teu corpo é onde eu existo
é onde eu me encontro.
Demore-se em mim, amor.
Que eu preciso esquecer a dor
reaprender o desejo, o calor.
Devolva-me a minha fome
a minha alma, o meu ardor.
Agora que você me tem
Deguste-me até o fim
Até que não reste nada
Pra mais ninguém.
Pra mais ninguém.

INSTANTES

Eu tenho mil instantes para te dar
Mil beijos, mil unhas, mil peles...
Mil desejos, mil pedidos, mil gozares.

Eu tenho mil instantes para te amar
Mil fomes, mil línguas, mil entradas...
Mil perfumes, mil pecados, mil mordidas.

Mil infinitos. Mil eternidades.
Mil vontades. Mil caminhos.

Tu tens mil instantes para mudar a minha vida!

ADVERTÊNCIA

O meu corpo é guloseima
para a tua boca faminta e exigente.
O meu corpo é iguaria
para saborear com fúria e lentamente.
Lambendo dedos, poros, dentes...
Mordendo lábios, grelos, peles...
Meu corpo é intoxicante
de efeito imediato e inebriante.
Rasga o teu desejo numa fome urgente.
Meu corpo é vício.
Toma-o.
Não aprecie moderadamente.

SOB TEU DOMÍNIO

Sob o teu domínio eu me rendo
Sou presa em cativeiro
à mercê da tua luxúria.
Sob o teu domínio eu me prendo
entregue às tuas unhas, à tua fúria
misturada à tua carne, ao teu cheiro,
aos teus gozos, línguas e dedos...
Submissa dos teus quereres
vou cumprindo os meus deveres
de amar-te assim corajosa e constante
Tua fera, teu anjo, teu pecado, tua amante
Delicada e nua, ponho tudo ao teu alcance.
Sob o teu domínio, coisas que nunca tive...
Sob as tuas presas, sinto-me livre!

VIRA-ME

Vira a noite, vira os olhos...
Tu me invades e revira tudo.
Vira-me o corpo, enfia-me a língua
penetra-me fúria, áspero e veludo.
Vira-me inteira pra ti
caminhos abertos, lubrificados...
Transformo todo o desejo em pecado.
Derramo-me nova, doce e sal
Como uma fruta desconhecida, carnuda
Virada em mistério, carne desnuda.
Oferecida assim à tua boca, ao teu mundo...
Viro-me em êxtase profundo.
Reviro-me em gozos e gritos
Minha alma é minha pele.
Lisa e nua, sou pra sempre tua...
Fêmea úmida de natureza crua.
Em ti, serei pra sempre fome e fartura.
Vira o ano, vira a vida...
Tu me reviras sempre!
Só o meu amor não muda.
Só o meu amor não muda.

VAN LUCHIARI – poeta, cantora e compositora paulista Van Luchiari, tem uma série de trabalhos poéticos e musicais publicado na rede. Destaque-se o blog Love Secret Love, a sua página no MySpace e a sua comunidade Van Filosofia.

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segunda-feira, dezembro 22, 2008

FELIZ ANO NOVO




Gentamiga,
Agora entro de férias até o dia 12 de janeiro!

Beijabrações & Feliz Ano Novo!!!

Luiz Alberto Machado

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MUSA TATARITARITATÁ 2008

sábado, dezembro 20, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Naked Lights V, de Nuno Belo.

POR VOCÊ

M´amour, m´amour o que é que eu amo e onde estás?” (Ezra Pound)

“...por você vou roubar os anéis de Saturno” (Rita Lee)

Luiz Alberto Machado

Por você tenho estado a levitar incólume pelas nuvens mágicas do amor, a cantar o Exagerado de Cazuza para orbitar contumaz toda flor de sua emanação.

Por você tenho dedicado todo infrene teor do meu verso lascivo, toda meta da minha perseguição da felicidade, todo meu corpo, minha alma, idéias e pensamentos e já não consigo distinguir o que é meu de seu nessa correspondência para lá de imantada pelos nossos mais aderentes desejos.

Por você sigo perseverante a desafiar de deus, do mundo e de tudo, a fazer da minha crença apenas a sua deificação.

Por você vou rompendo barreiras porque recito de cor um a um dos cinco mil versos d´Os Cantos de Pound enquanto aliso a corcova de suas ancas miríficas onde perco todos os pontos cardeais afiançando a valia de todos os seus atributos.

Por você subestimo convenções porque quero passear de mãos dadas e trocando beijos apaixonados no meio do espetáculo da aurora boreal até a austral e vê-la seguir com o meu monograma tatuado no seio como o distintivo do nosso amor.

Por você vasculho o universo de sua compleição, faço surf no tsunami de suas carnes, viro goleador no Maracanã do seu ventre, percorro a nado todo Amazonas de suas águas profundas, faço happy hour na lua dos seus seios, enfrento a fera do seu desejo exaltado e recolho de sua mais absoluta e íntima graciosidade todos os acepipes exatos da minha esfomeada vontade de você.

Por você todo limite usurpado no fogo insano do prazer a ponto de não haver extintor de incêndio capaz de apagar a feroz volúpia de possuí-la a mais das suas dimensões angulares.

Por você toda exata e possessa como uma naja de capuz estufado, premida pela necessidade excitante de ver-me enveredar por seu olho pidão, por seus lábios bons de beijar, pelos seios de todos os sabores, pelas pernas carnudas, nádegas voluptuosas até o ventre ávido com nuto pro concúbito.

Por você terei o muito de todo tudo, porque na paixão, o que for demais além da infinitude, para o querer, ainda é muito pouco.

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MUSA TATARITARITATÁ 2008

segunda-feira, dezembro 15, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Em sonhos fui sereia, de aoluar

AMAR VOCÊ

Luiz Alberto Machado

Amar você é minha festa porque é a maior maravilha do universo o seu amor.

Por isso você é a minha religião, meu credo, minha devoção; a sintonia do meu dial, meu porto de abrigo na chegada, o meu pouso, o meu combustível para viver.

Amar você é o meu prêmio porque você é a camisa 10 da minha predileção, craque de fazer embaixadinhas de mim, firulas, banhos de cuia, toques de arrodeio, marcando de letra e a me deixar extasiado com seu gol de placa na minha paixão.

Você é a pole position na minha preferência, sempre largando na frente, batendo recorde em todas as voltas e recebendo a bandeirada da minha mais exaltada satisfação.

Você é a obra-prima da natureza representada na mulher de Copacabana com seus olhos de mar, seu feitio sedutor, seu riso cativante, sua grandiosa generosidade.

Amar você é a minha vida.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
MUSA TATARITARITATÁ 2008

terça-feira, dezembro 09, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Fran Nua, de Amanda Com

EU TE AMO

Luiz Alberto Machado

Quanto mais os dias renascem em manhãs ensolaradas ou frias, mais eu te amo como quem busca na tua fonte a água de todas as sedes

E quanto mais as horas se consomem por si só na voracidade do tempo, mais ratifico a minha confissão de dívidas com o teu amor, sem o menor arrependimento ou culpa, como se cumprisse à risca a nossa mútua promessa de escoteiro, o nosso anímico pacto de sangue

E quanto mais os dias passam loucamente uns nos outros na maior confusão da vida, mais eu te amo como súdito fiel que guarda a recompensa e a devoção pela lua-de-mel das nossas mil e uma noites

E quanto mais os meses viram cinzas na página virada que já será jamais, mais persigo megalômano ao ninho do nosso repasto mútuo, miss minha, como um marupiara encantado tal qual Aquiles venerando Pentesiléia e que jamais deixará morrer a vibrante incandescência da musa

E quanto mais os anos revolvam nossas vidas anunciando que o futuro jamais chegará, mais eu te amo e chegarei sempre ávido e pronto a decorar de cor e salteado o teu mapa para massagear com apalpadelas acariciantes e manusear febril de desejo e paixão o teu corpo de deusa, minha Vênus de Milo estonteante

E quanto mais de ti me vieres com nuto afirmativo, mais te amarei derrubando as muralhas dos nossos limites, cultivando a liberdade da nossa entrega, e mais me escravizarei ao teu encanto, e mais me fascinarei pela posse do teu afeto, e mais me extasiarei com o toque do teu afago e mais te agarrarei a efígie, o busto, a epiderme, a aura, o gesto, o jeito, a alma, a pérola de tuas sensações mais desacorrentadas de ti, o perfume mais inebriante de tua expressão

E quanto mais te achegares ansiando por descobrir meus mistérios mais ignotos, quanto mais faminta e encantadora, quanto mais vívida e sedutora, quanto mais possessiva e acasaladora, mais te amarei e mais e mais estarás me cativando ao paraíso de teu domínio que me promete a felicidade além dos céus e a paixão além dos confins de tudo.

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segunda-feira, dezembro 08, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Eine Tanzerin, 2003, de Jan Saudek.

JURAMENTO

Eu juro te querer enquanto o ouro do turno da tarde cair no beiral (...) meu lado, luz acesa de pescador bom de mar, quer me ver sonhar? Traz a tua vida mais pra perto de mim...” (Djavan, Beiral).

Prometo te querer até o amor cair doente, doente...”
(Chico Buarque & Cristóvão Bastos, Todo sentimento)

Luiz Alberto Machado

Quando a tarde faz vida no mormaço do seu corpo, eu juro por todas as delícias de céu e terra mergulhar nos ventos agitados de sua prodigiosa nudez sacudindo minha lucidez nas raias da loucura e é quando sou de mim mais que real.

Eu juro por sermos feitos pelo amor e para o amor onde tomo por testemunho o meu corpo e o meu sangue no seu corpo e sangue, que não haverá perjúrio porque juro dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade porque a verdade é a sua alma nua exposta para a minha iniciação. E prometo pelo fogo do prazer no calor do seu sexo que se empanzina com o meu, linda, nua, caprichada de beleza acendendo a luz de todas as noites na beira do amor, pelando de febre, que cantarei aos berros a canção viva com versos queimando a pele, a cumprir que nos seja dado gozar feliz da vida para ir até longe de onde não se volta mais.

E juro com os olhos vendados de paixão por seu corpo que carrega o tempo de muitas sedes no seu minadouro, como a maior e mais completa maravilha do mundo, enquanto a terra gira entre suas pernas e sexo febris com a gula das minhas mãos côncavas agarrando enlaçado na idade dos sonhos que giram sem parar na corda bamba que me devolve multiplicadas vezes a vida que me faz mais vivo que nunca!

E juro pela doçura dos seus lábios de orquídeas molhadas com o cheiro do riso destamanho com o amor queimando a face, relâmpago nos seios na promessa de que em mim tudo de seu sobreviva, a tesão apaixonada se fortaleça e o que for do amor se concretize em nós. E juro por seu olhar de titânio com toda atração do meio dia de místicos fulgores dos que dão tudo à vida debaixo da chuva do edredom onde a tempestade demorada inflama o paiol de todos os gozos desgovernados até o derradeiro pousar da voz de zis luxúrias do seu doce-de-leite coração.

Por isso e só por isso eu canto inteiro com toda paixão a nossa eucaristia.

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domingo, dezembro 07, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Estella, de Tuta.

PARTILHA



PARTILHA

“(...) E por entre as coxas da noiva envolvente, a mulher com seus seios e o pássaro de crista celestial, foi ele enfim derrubado ardendo no leito nupcial do amor, no torvelinho do centro desejado, nas dobras do paraíso, no botão rodopiante do universo”. (Dylan Thomas, Conto de inverno).

“(...) Debaixo de ti e de mim, tu e eu, sinceramente, teu cadeado afogando-se de chaves, eu, subindo e suando e criando o infinito entre tuas coxas”. (César Vallejo, Doçura por doçura).

Luiz Alberto Machado

Saibam todos quantos virem esta canção entoada que eu amo esta mulher nua e linda como a terra que me faz abrigo e me reparte toda a felicidade universal de sua beleza ruidosa no meu coração.

Saibam. E que este poema exaltado seja o testemunho do quanto vivo e me sou dado à propícia magia da boca fresca de uma mulher com o seu riso refulgente espalhando o prazer perpétuo, onde fecho os olhos para imergir no beijo e seja lá o que deus quiser.

Por isso eu canto toda canção para ela nua e linda, porque eu conheço todas as astúcias de quem cavalga na minha carne onde o seu nome é o sexo úmido a pulsar exsudando gozo aos grandes goles.

Por isso eu declamo aos quatro ventos todos os versos viscerais do meu poema imperfeito, porque conheço a fundura do paladar de quem se debruça oferecendo a maçã com um verso na mão estendida e uma poesia na carne de todos os molhos para que eu faça festa impudente e reine com açoites para ocultar-me no porão de sua alma.

Por isso vou vociferando com meu coração barulhento todas as rezas da maior adoração de quem na lonjura conhece o abraço do jeito irrigado que tece a luz do sol e vou decidido a transpor além das margens e colunas do seu jeito crepuscular à maneira de quem soterra quente rajada do que sou por todos os lados até levar-me tapete mágico por todos os seus dons ao alcance do meu canto.

Por isso sou terno eternamente grato porque conheço o perfume de quem me espera nua em cada esquina, porque conheço o aguaceiro que nos lava o íntimo envolto em névoas oníricas até sermos alagados de suspiros na luz rubra do archote que empunhamos em nome da paixão.

Por isso sou reiteradamente grato porque conheço o namoro do olhar que não repara de nada e reata amorante as distâncias por todos os ângulos de espera e se arrasta até pôr-se de pé pedinte e acossada que eu seja infindável na minha poesia rústica até a fronteira que nos divide quando somos na total comunhão.

Por isso me faço cantor para envolver os braços de cisne jurado de amar que não medem um palmo sequer, nem se demora um triz e prevalece na altura estelar adivinhando a vigília de quem é capaz de empreender a mais inescrutável loucura na voz que trespassa tudo a me dizer que amar é costume gostoso que dá na gente e faz da vida a festança de partilhar do amor.

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sábado, dezembro 06, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Capa revista com modelo no estadio futebol do Cor, de Daniel Segundos.

CONFISSÃO

Luiz Alberto Machado

Hoje amanheci repleto de sol pleno dos dias claros e das noites tórridas matando a sede milenar dos meus desejos desenfreados pela musa que me cativa confessando um grande amor, ah! eu nunca fui feliz!

Para quem sempre se dera por voraz Varnhagem, abrindo a porta atônita da procura, flagrando os olhos do mar de Copacabana, beijando o rosto dos lábios do sorvete de morango, abraçando o corpo da felicidade amarela, ah! nunca tivera mesmo a oportunidade de ser feliz

Aí que me banhei no chafariz de todos os seus líquidos,
que debulhei os carinhos mais ternos e amorantes,
que esqueci das ruínas da minha vida no colo da verdadeira pedrália de Schaffer,
que exorcizei minhas maldições nas sinuosidades do mais saboroso retângulo de Cruls,
que dilapidei todas as querências do mais delicioso quadrilátero de Goiás,
que despenquei extasiado em queda livre na arquitetura de aeronave enfeitiçadora das latitudes 10 e 15 graus sul da tua tropical climática,
até alcançar o pico do Roncador na serra do Sobradinho do teu planalto central,
ah! logo eu que nunca pude ser feliz!

E me confessei amante incorrigível sob o lençol macio que encobria a nossa nudez,
que saculejei profano como um candango indômito sob o edredon de nossas vertigens mais desvairadas,
que me danei a beijar o riso lindo e safadinho de tua satisfação apoiada no travesseiro da sorte apaixonada
e que retribuí desaguando-me por toda a tua sedução incorporada na minha alma pedinte,
deixando-me as marcas do teu sotaque carioca no cerrado imenso de tua esplendorosa magnitude,
a me fazer migrante retido a cultivar teu solo fértil
e pronto para ser servido,
ah! como eu nunca fui feliz!

E desse amor me vem a mais absoluta constatação de que não poderei jamais te deixar
porque não mais haverá de mim nada mais que teu magnífico esplendor
e a verdadeira sorte de ser,
pela primeira vez,
verdadeira e estrondosamente feliz.

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sexta-feira, dezembro 05, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: flies to me, de Daniel Oliveira

CIRANDA

Luiz Alberto Machado

Sim, foi você singela e nua quem veio do fundo dos oceanos para redimir meu abandono, veraneando a minha vida enquanto eu estava na beira da praia ouvindo as pancadas das águas do mar.

Foi exatamente com a sua súbita aparição que meus devaneios revividos puderam entoar o enleio pelos estribilhos de cirandeira, sua mão na minha mão, de braços dados e na cadência da zabumba, tarol, saxofone, gingando descalços nas areias do mar.

Foi quando pude ter a noção de que seria encurralado por seu domínio e por seu feitiço solaçoso, me iniciando em seus mistérios no tamanho cósmico da nossa entrega na beira do mar.

Foi, portanto, a minha oportunidade de ser feliz.

Foi e meu coração cresceu de amor e exagerou na dose dos versos mais audaciosos, até saber-me cantor dos quereres que nos anima a alma.

E cantei o amor porque essa ciranda quem me deu foi Lia que mora na ilha de Itamaracá.

Sim, é o fogo do seu corpo que revitaliza o meu, é a candura da sua alma que restabelece a minha, é a grandeza do seu amor que me faz ser seu.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

quinta-feira, dezembro 04, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Curvas, de Mircea Marinescu.

PAINEL DAS FÊMEAS

Luiz Alberto Machado

A mulher jaz do meu lado
E de mãos dadas
Somos finalmente felizes
Felizes além da vida
A vida pelo amor

A nossa consangüinidade sob a auréola da paixão
A pérola dela que mastiga meus pensamentos
E me atrevo chegar ao seu trono
Súdito sem cetro do seu querer
Inculto fiel da imagem dela

A quem seria dado à permissão de lhe desposar
Que plebeu afortunado alcançaria sua majestade
E renunciando um reinado
Seria apenas seu amante
Um rei destronado
Entronizado apenas pelo amor

A mulher jaz do meu lado
É quase de manhã
E a nossa distância cislunar
No que pese ser feliz

Ainda sinto seu cheiro quente
Seu repouso incólume
Depois da entrega dos corpos
Sem condenação inquisitorial
Sem gravidez rejeitada
Sem a perseguição de sicários

Dorme sem saber Heloísa
Sem a despedida de Tzvetaeva
Pelos vitrais dos sonhos
No prisma de turmalina
A deusa mulher que jaz do meu lado

Seu corpo modelado
Sua ferida santa e viva
Seu jeito grácil
O milagre da prodigalidade
Seu rosto belo
Feliz semblante de Thereza
A viúva bela
Mais bela sem par
Seu nome endereçado
O seu condão
O seu sexo desejado
Sua graça e seu feitio

A mulher jaz do meu lado
E insulto primeiro afeto
O seio embaixo da blusa
As mãos ungidas pelo prazer
A boca dos desejos que não se dizem
O corpo de tão puro recheio

- os maus pensamentos de Moliére repousam na minha cabeça

Minhas mãos resvalam e apalpo e enlevo
Pelo evasé de sua saia bandô
As coxas grossas
Roliças
A anca macia
A vulva
Fulvas redondas
Remexe o quadril a minha intemperança
A minha concupiscência

Hei de vê-la ferver no molde exato
A dar o que me falta
Coisa feita de coisas que não se dizem

Seu olhar lânguido na avareza do querer
Endemoninhando minha sede

Bebo na sua boca a água que me sacia
E me incendeia
Testemunho, portanto, seu poder de seduzir minha alma

Deusa Maceió
Invado sua maldita reclusa
Reclusa que detona o viço
E me engalfinho em seu esconderijo
Por suas peças íntimas
E intumescido e cheio
Me afogo
Bebo o seu rio
Mordo a sua carne
- sou seu canibal!!!

Índia pura
Seu corpo baila no meu Albertville
Achega-me
Sua chama me domina
A mira
O alvo
Tonta
E dança
Mais dança o meu coração
A dança do ventre de Sheyla Matos
Quando pudesse estimar o meu extermínio

E ela vem tão indomável quanto santa
A se despir
- um pênalti na pequena área do meu coração

E ela vem bulindo
Dinamitando meus sonhos
A se dissolver em mim
Com meu dedo na boca
E despejo a minha vida
E engole o meu sêmen
No centro do feitiço

Viúva alada
Dorso febril
E a febre e a cintura
Roço-lhe o esfíncter até Grafemberg
Na sua nudez Carolina Ferraz do Pantanal
Na penumbra ardente do seu ser

O seu gemido me extasia no movimento sensual
De Margret, de Durga, de Rachel
Das três uma de cabelos lisos em seu tamanho menor
Da geografia colada no vestido curto
No Delicate Sounds of Thunder

Faz valer a minha fantasia e desmaia
Oh! coreografia do prazer
Bundinha vai-e-vem

Viúva bela
Minha tenda de Maria Brown
Me enlaça e diz que sou a camisa dez do seu coração!!!
Me espera que eu contarei das aventuras
Ao me reabilitarem entre os vivos
E reinarei sobre sua volúpia
E derramarei meu esperma
E saltarei fundo na paixão

Vou dormir nos seus olhos
Com toda a minha agonia de ilha encantada
E cantarei a linda canção de amor de J. Alfred Pruckfork
E será lindo acordar com você do lado

A mulher jaz ao meu lado
Depois de um xeque mate no xadrez de Midleton

Sua meiguice sem pudor
No dever de sermos o protótipo dos deuses

Me acuda
São juras sinceras de um poeta vário e um verso lascivo

Amar não faz mal a ninguém
E ensaio versos pros seus olhos
Faço cantigas pro seu jeito
Rainha minha, rainha nua

Sequer suspeita que eu já morria
Enrubescido e despudorado
Com a cara e a coragem peculiares aos enamorados

Cadê você? Pedi tanto pra São Lunguinho lhe encontrar
Logo jamais deixarei partir

Amando com voragem até saber
O feitiço do cogumelo de Alice
Que me rasga e me cura
E com todo ímpeto eu espero sem medo, viúva
Espero ver-lhe o talhe a alma o ser
Anestesiado na moita
Repousado às suas coxas
Na noite roxa e olhos revirando
No gemido de estar gozando
O prazer extremo
O átimo
O ápice
Da minha jugular aberta
Minha aorta infecta
De ser feliz deste lado
E do seu lado, viúva
Pra mulher que jaz
Agora aqui comigo.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

quarta-feira, dezembro 03, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: 3036, de Luis Azevedo.

SOB O VÉU DA VIÚVA NEGRA

Luiz Alberto Machado

A minha alma no aranzel de nossas juras amorosas

Oh! meu amor

Minha matrona
Que sei mais nada
No visgo da tua teia

O jugo que me recolheu
E atendi todas as suas súplicas nos arredores da paixão

És abelha-raínha reinando sobre a colméia
E eu sou o teu zangão no vôo nupcial
O teu alimento é sugado do meu ventre

Vasculho teu corpo, teus contornos
Minha vestal que viceja,
Minha cortesã e o coito é meu elixir

Gosto de ter esses seios expostos,
essas coxas adúlteras,
esse pescoço e a minha mordida,
essa respiração ofegante à espera de que eu invada a tua vulva
no encontro mais desejado de chegar à citera,
inteiramente submissa,
se esgazeando perante o meu carinho obsceno

E eu deslizo o teu tegumento
Matando a minha sede no teu pote

E o teu rosto, o meu ombro
E teu sorriso de carícia
Beijando os meus olhos e amando e gozando
E teu prazer me amarrará,
Me coagirá nossas núpcias e serás meu credo

Deste-me o fruto do prazer e em retribuição dar-te-ei minha vida

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

segunda-feira, dezembro 01, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: S/T, de Pedro Gonçalves

UMA VEZ NA GRUTA DO CÉU

Luiz Alberto Machado

Visitei teus aposentos
Tua tenda,
Gueixa minha,
Uma fragrância calmante de delírio no ar

Adentrei fervendo de paixão
E te desnudei
Oh! Não se esquive,
Oh! Não se esquive,
vou te conquistar
e como vou!
Inteiramente
Totalmente

E vou capturar o teu olhar faminto
A tua sede mulher
Quando me debruçar no teu corpo
E devorar tua oferenda: a gruta do céu!

Vou invadir teu território
Acariciando teu rosto
A tua expressão imaculada

Vou invadir teu hangar
E deslizar impune escancarando tuas pernas
E provando de todo sabor do teu fruto exposto à comida para pecaminosas mordidas de amor

E vou fustigar com afago tuas entranhas
O teu desejo sedento
E toda tua exaltação

E vou lamber teu umbigo
Chupar tua América do Sul
Alcançar teu profundo poço
E me afogar enaltecido de ti, minha odalisca tão lasciva

E vou eriçar teu pelo e te montar, égua minha,
No pleno domínio com meu talismã de Sigefredo
O meu poder sobre o teu
O teu sob o meu
Com toda a tua beleza
Tua prodigalidade

Verás o meu dardo empurrando a espada rija
No vai-e-vem do remexido dos quadris
Arrepiando tua alma
Revolvendo tuas entranhas
E te fazendo mulher amada

Vou sorver todo o teu néctar, Hero minha
Entregar-te com toda inquietude para que meu dna possa te fecundar na fúria louca do prazer

E suaremos juntos
E gozaremos mútuos
E desfaleceremos iguais

E saberemos unidos a plenitude e a agonia do amor
Qual Filemom e Baucis
Eu feito Abelardo condenado de heresia pelo amor de Heloísa
Tal qual Endimião morto pelo amor à deusa Selene
Feito Dáfne e seus versos à Cloe

O teu nome ficará para sempre na tarja do meu coração
Preso ao sortilégio do amor
A morar para sempre no Monte Latmo, totalmente minha

E quando eu morrer
me salvarás, Minha Ísis,
Juntarás meus pedaços de Osíris
E eu serei todo teu ressuscitado
Refém eterno de tua delícia

Minha alma a ti se revelou
És meu amor

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