segunda-feira, junho 30, 2008

RUBENS DA CUNHA



Imagem: Armand Lluent

O POEMERÓTICO DE RUBENS DA CUNHA

OS FAZIMENTOS DO AMOR

Antes que se faça o amor,
o corpo se condiz no vazio.
Não tanto o corpo, mais o tato
em fúria, em vício de espera.
O crime inusitado de corroer-se
às margens da vontade:
cristo ressurrecto no ventre.
O amor antes de feito
não conduz azuis celestes.
Quer rubrar-se totem ávido.
Quer enegrecer clarividências.
Curta frieza de vento,
o amor no fazer-se furta febres,
desvia pulsos e pensamento.
Se não estilhaça a carne,
pelo menos des-memória
o mármore de cada poro.
Ateu de invisíveis tropos,
o amor desfaz-se em vértebra.
Desfeito, cambaleia tênue
por sobre o quase infarto
do sânscrito silêncio.
Vadio de destroços,
artéria-se em migalhas.
Ao quedar-se humano,
O amor, deus-feito, morre.

DESGOVERNO

Eros corrói-me
Não o desejo sangue dos menores
ou o ventre púrpuro dos grandes
Eros corrói-me ácido na seda
enchente nos jardins
fogo nos eucaliptos
Aos poucos
aos pormenores da dor
Eros desgoverna o que necessito de ar

A NUDEZ

a nudez
não serve ao calabouço
dos entregues
a nudez
se neblina e some
sumo no livro sagrado
a nudez
serva serena da vergonha
se disfarça em organza
e desaparece - defunta vestida - entre árvores e silêncio

INDEZ

no homem
porvir sangue
na mulher
escora de culpa e sabedoria
escorrem pernas
escadam desejos
antes do antes
quando os corpos
indefiniam-se nas florestas
Deus era nudez
mais
indez guiando instintos

A PELE

a pele
debaixo dos pés
sombreia cascalhos
ventania tudo
que crispa a vida
a pele
debaixo das mãos
saboreia confins
amoras
pureza
a pele
debaixo do olho
fosforeia a noite
vermelha da agonia
o corpo todopele salga-se salva-se tato e lume

ILHA

teu corpo
azul em névoa
ilha
porto
naufrágo que sou
voltei a respirar Deus

amor
nódoa sobre madressilvas

nítido escombro
preenche orifícios
com ventanias
linhos espermas
líquidas tumescências
cânfora vermelha
amor
palavra de foder a carne pasma

Sou mulher de apelos frágeis,
pêlos fáceis,
fêmea e banho.
Sou mulher de ontem.
Nos dedos: um resto de sêmen.
Nos ouvidos: um rastro de adeus.

RUBENS DA CUNHA – catarinense de Joinvile, o poeta e escritor Rubens da Cunha é acadêmico de Letras e integrante do grupo de poetas Zaragata que publicou a antologia poética Cordames & Cordoalhas. Ele também é vice-presidente da AJOLE. É autor dos livros “Campo Avesso”, “Casa de Paragens” e do excelente “Aço e nada”. Publica crônicas semanais no jornal A Noticia e edita o blog “Casa de paragens”.

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sexta-feira, junho 27, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: foto de Erin Baiano

PAS DE DEUX

Luiz Alberto Machado

No palco do meu coração sedento jamais houvera tamanha fascinação, jamais houvera, porque algo mais infrene se fizera aroma de seiva na noite fria de agosto: a presença resplendente do seu corpo de mulher.

Ah, jamais houvera tão irresistível: à meia luz seu jeito maçã desolada, cabeça pendida no ombro da solidão.
Na horagá, a minha chegada de sempre: a captura. E franze o rosto, cerra as pálpebras, morde os lábios e estremece suplicante a suspirar o magnetismo do coração que palpita na sintonia que nos impele um ao outro.
Nada a deter e o amor embala na rede dos devaneios quando nos píncaros da sedução se insinua num écarté para me provocar com requisições de gracejos acariciantes, a me insultar no entalhe pujante de costas com o pé na barra a dar-me todos os regalos de um ensaio fotográfico particular, ali exclusivo estourando meus sentidos.

Ah jamais houvera e nossos corpos fremem de desejos e já me precipito envolvê-la para o embalo íntimo de um atittude libidinoso, colados um no outro a inalar o incenso dos nossos laços de sentimentos transpassados.
Mas judia de mim a rodopiar com seu magnetismo. Rodopia incólume na noite enquanto eu afio os dentes. E rodopia mais o seu bailado sem fim, até que possessa, de repente, me leva ao nocaute num grand decárt sobre meu corpo.

Ah, Cinderela exata do meu tope, Loba certa do meu querer. E eu sou todo delírio nessa festa que jamais houvera.
E na agonia dos quereres imponho poder nas minhas mãos que se acercam de sua feição, alisam seu rosto, se apossam de sua feitura para arrancá-la ao beijo, nos enroscando na dança.
E aos solavancos murmuramos arrastados pelo tapete de pétalas, pelo assoalho da pulsação vital, atrás da porta, das cortinas, esgotando calcinados nosso parque de diversão que traz o repique dos sinos no júbilo, crepitando a nossa fogueira de ímpeto selvagem nas alturas das suas nuvens para chover meu amor, na invasão da sua selva com todos os segredos de entrega e felicidade.

Ah jamais houvera e ofegantes usufruímos a vida e com ela nossos turbilhões mais que enlouquecidos derrubam colunas, grilhões, capitéis, pedestais, leis e limites, até alcançar o podium do grand finale a nos fartar embriagados da sidra dos nossos corpos desforrados.

Ah, jamais houvera pas de deux como devaneio do amor na noite fria de agosto, jamais houvera.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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quinta-feira, junho 26, 2008

CRÔNICA DE AMOR



Arte/Imagem: Derinha Rocha

FRUTOS



Música & letra de Luiz Alberto Machado

Somos frutos da mesma paixão
e o que importa é se entregar
e amar
depois no mormaço do amor
se dar enfim
no jeito doce
de escorrer pelos sonhos
até quando
se derramar pelas curvas do seu corpo
pelos rios
recifes
ondas
à deriva
até quando naufragar
por todos horizontes
que você navegar
no enleio
no anseio
do amor.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992.

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quarta-feira, junho 25, 2008

GINOFAGIA




Imagem: Foto/arte de Derinha Rocha.

RITUAL

Luiz Alberto Machado

O seu mistério é o meu doce predileto. O meu refrigério. Tudo é repleto de magia quando ela chega com a sua carne trêmula, o seu olhar pidão, quando ela encena toda sua manifestação nos seus lábios saborosos que se esfregam nos meus abismos para nascer em mim o meu poema mais vigoroso, para que eu seja o seu almoço e jantar, seja a sua gula de nunca se empazinar numa eterna dança onde as suas pernas molhando o estio e o seu corpo esguio em quais lençóis desvelando o universo mágico recôndito sob a saia nascendo a fornalha que me abrasa por inteiro e a me fazer timoneiro insone por todo seu percurso abissal. É pra lá de legal quando alcanço toda sua majestade e ela já sem qualquer identidade desliza sobre mim com sua graça de querubim se agachando enquanto eu sussurro meu derradeiro verso obsceno ao seu ouvido. É aí que ela vira um mar revolto com ondas letais. É aí que ela perde o anjo e a domesticação dos animais para virar fera insaciável, com seu ritual inigualável a brincar de dares e tomares. Ritual onde ela me entrega a fechadura e faz de mim a sua chave caindo de boca sobre a minha lâmina iluminada e a cada abocanhada dou-lhe a lapada com a lapa do meu poder até desaguar abundante a invadir todas as cercanias amantes porque ela deu-me o prazer ao beber minha vida na festa de viver.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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terça-feira, junho 24, 2008

DELÍCIA DA PAIXÃO



Imagem: Adam and Eve, c.1106, do escultor italiano Wiligelmo (1099-1120).

PROVOCAÇÃO

Luiz Alberto Machado

Naquela manhã meus olhos flagraram o frêmito dos seios dela tremulando dentro da sua blusa decotada e ela sequer desconfiava o quanto a amava por inteiro, a desejava além da vida e da morte, a venerava além do querer e poder e persigo e persevero e a quero comigo para sempre e a todo momento. Ela a minha anfitriã que amo e ela pensa que não, insegura e dando o melhor de si só por dar e por amar num pirão que o meu mar engrossa e eu raspo a panela de todas as suas deliciosas emanações.
O seu jeito lindo de ser era mais que sensacional com um encanto pronunciado na exibição daquelas duas frutas saborosas mexendo-se a cada movimentada de seu corpo nos afazeres domésticos. Ela inteiramente dedicada à labuta enquanto eu fazia juras silenciosas de amor e paixão por ela. Ela remexendo inocente e eu fazendo estréia da cobiça buscando os agasalhos do seu corpo.
Havia poucas horas da nossa chegada, mas ela logo se dedicara às arrumações colocando suas vestes sumárias, provocando instantaneamente em mim o vuque-vique de seus caprichos corporais: era o tempo do cozimento e eu fervendo imaginando a nossa gangorra. E eu me deliciando qual voyer descarado imaginando suas curvas, remexidos, sensualidade, tudo dela ao meu dispor.
Ali eu me continha fazendo um esforço danado para agarrá-la atrapalhando sua diligência. Mas, a cada olhadela, eu suava frio e tudo desembocava ventre abaixo se avolumando nas minhas partes baixas só para fazer-lhe um parque de diversão além do que eu podia dar. Era a explosão do amor na paixão mais medonha que eu já tivera oportunidade de viver. Era a paixão mais devastadora de todas. E ao lado de uma tesão que surgia inopinadamente para consagrá-la integralmente dona do meu coração. Com isso eu me insinuava aproximando-me o máximo que podia de sua dedicada atuação na limpeza da cozinha. Cada sacudidela dela no arremate das funções, mais eu me achegava lambendo os beiços e atacando sutilmente suas intimidades, roçando-lhe a nuca, as reentrâncias, o osso do mucumbu, enfeitiçando-lhe para arrancar os seus suspiros mais vibrantes e a deixá-la minando de emoção. Ela ainda sequer tinha a mínima idéia da minha mais absoluta paixão. Quanto mais amava, mais queria e queria. Era ela, sim, ela, tudo o que sempre quis e passaria a querer dali por diante.
Com os meus ardis em pauta mais procurava domá-la nas intenções mais safadas a ponto de apoderar-me por inteiro de todo seu desejo, seu corpo e alma. Dominada, ela se entregava como quem se dar ao carrasco. E eu deliciosamente sorvia cada bocado de sua mais extremada emanação corpórea e anímica.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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segunda-feira, junho 23, 2008

A ESPADA DO GUERREIRO



Imagem: Julie avec un athlete, de Agostino Carracci.

A ESPADA DO GUERREIRO

Graça da Praia das Flechas

Por sua causa,
me sinto cada vez mais descarada,
a cada dia, mais despudorada,
e disposta a satisfazer os seus desejos...
A deixar que você explore o meu corpo,
com sua língua e seus beijos,
e dele retire todo o prazer possível,
como um irracional, tal qual um animal...
Sou a sua putinha sacana, e estou aqui,
bem aqui, na minha cama, nua, me bolinando,
à espera de que você apareça logo
para acabar com esta minha febre,
para saciar meu tesão,
que me provoca convulsão...
Me alucina e me faz sofrer de saudades,
quase enlouquecer,
quero esse membro rijo, gostoso e quentinho,
venha, venha logo,
vamos amar bem devagarinho...
Vamos saciar nossa sede de amor e de sexo,
somos um do outro, o reflexo...
Vamos deixar que nossos corpos se sintam unidos,
de todas as formas possíveis e imagináveis,
como se xipófagos fôssemos...
Vamos inventar novas posições e delírios,
novas fantasias, cópula ardente,
entre dois amantes dementes...
Vamos gozar, com nossos licores, nos lambuzar,
até que a exaustão venha nos saciar...
Adoro ser sua, adoro a forma como você me pega,
me possui e me usa, sou sua puta,
e para amar, não tenho regras...
Quero que você me beije, me bata no ato,
e me faça de gato e sapato...
Me virando de um lado para outro,
para encontrar sempre,
a maneira mais gostosa e matreira,
de encaixar o seu corpo ao meu...
Você não sabe o prazer que me proporciona,
ao entrar em mim, com essa espada em riste,
qual guerreiro em luta,
que da guerra não desiste...
Meu corpo é a sua casa, faça dele o que quiser,
estou aqui, para o que der ou vier...
Afinal, eu sou mesmo a sua putinha sacana,
me devore, me coma, mate minha fome,
pois você é meu Homem...
Estou toda molhadinha,quero me esfregar em seu rosto
Em suas costas vou montar, cavalgar.
Lamber você todinho, na frente e atrás também,
é um delírio extravagante, mas você é meu amante...
Deixar você bem taradão,colocar chantilly e uma cereja na minha bichinha,para você lambê-la todinha...
Até naquele lugar, bem apertadinho,
que tanto você gosta, quando de quatro eu estou,
fazendo-me dar urros, de prazer e de amor...
Acabei de tomar banho só para você,
estou toda cheirosinha e gostosa,
para te endoidecer...
Venha, amor, sou toda sua,
para a gente fazer todas as loucuras,
e de prazer enlouquecer...
Quero ser devorada, em todas as posições,
em todos os lugares...
Vou sentar, aqui na beira da pia,
abro minhas pernas, e você me penetra de pé,
é puro tesão e agonia...
Eu mordiscando seu membro rijo,
com minha gruta apertada,
pelo prazer encharcada,
com toda força que tenho na danada...
Depois ela o sugará, bem devagarinho,
e você muito doidão, com ela se contraindo
fechando, engolindo, o membro todinho...
Deixando você, a ponto de ensandecer,
querendo apenas explodir,
inteiro dentro de mim..
Pode dizer que não presto, sou vadia, vagaba, sacana,
mas, burra é a mulher que não sabe preencher
seu homem pela cama...
Por você, faço todas as loucuras,
HUMMmmmmmm, e ainda invento mais algumas ...
Sou sim, uma Fêmea de amor insaciável,
quero deixar meu Macho em delírio,
porque rotina, querido,torna a vida
puro Martírio... Para mim, no sexo vale tudo,
Só não gosto de sentir meu Macho ficar mudo...

NITERÓI-RJ - 13/10/2005 - GRAÇA DA PRAIA DAS FLECHAS

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sexta-feira, junho 20, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Foto de Nato Canto.

GALOPE DO AMOR DOIDO DE ALEGRIA

Luiz Alberto Machado

O galope só é bom quando a beira-mar é o corpo da mulher amada, mar que é o amor e o amor é o que o amor faz: festa nos meus olhos, balbúrdia no meu coração súdito acorrentado na vertigem de todas e tantas taras.

O galope é festa no movimento gracioso - glória mulher nas alturas que minha alma anseia! - e atrai todas as atenções: é ela danada violentando as águas como quem bota pra quebrar no que me sobra em ser feliz e lavro armado pela rampa onde ocupo o espaço, tamanho de tudo.

É ela protagonista do meu verso agalopado quando seu corpo todo talento para me surpreender é a guitarra cósmica e eu me faço dedos de Stewe Howe dedilhando sua carne a dar lugar ao poema vida acesa, águas navegáveis, nave ligeira, a fúria do inarredável.

É ela fêmea desvairada galopando enjaulada pelo meu desejo nas coxas de fruta nativa estendidas com seu encrespado ventre onde vou chovendo na lavoura, superfície e entranha, os meus ventos nela e todo dia renasço com os raios indômitos do seu vulcão faustoso.

É ela ventura que me atrai toda contumácia em estado de graça doido de alegria pelo tesouro de mina fabulosa e vou roubando seus sabores porque nela bebo as ondas do mar: seus braços e pernas aceitam de bom grado o vazio que sou e não me poupa e todo meu ser se faz inteiro nas carícias por todos os atalhos dela como um sino aos dobres no meu coração.

É ela tarde enorme nos louros da vitória de paixões inventadas, alma de safira, pele de turquesa, seio em flor, pérola do colo, alívio do meu viver, mexendo toda na apoteose do galope do amor.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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quinta-feira, junho 19, 2008

CRÔNICA DE AMOR



Foto/Imagem: Derinha Rocha

ENTREGA



Música de Mazinho & letra de Luiz Alberto Machado

Dê-me sua mão nessa rua
nossos sonhos são tantos
que já nem sei seguir
por veleidades
por esta eternidade
de sentir só
oh! tenha dó

sou curumim da flor de anil
mil emoções a mil
darão vigor a nossa lida
ressurreição da vida
quando valer o pó

por favor
não vá fingir
sorriso de manhã
sou o carinho da areia
na entrega do mar
e até invadiu minhas veias
o fogo de amar

não vá fazer do desejo
agonia malsã
porque nossas mãos anunciam
o amor já está prá chegar

Dê-me sua mão
as minhas são suas
e faça delas duas
a fonte que jamais secou
faça delas a alegria
da vitória e do vencedor
faça assim
no calor dos seus dias
e de noite
no feitiço do amor

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: "Sutilmente" de Mazinho. Recife.2003. 7120412-0 4´33´´.

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TERCEIRO ENCONTRO LUSO-BRASILEIRO DE ESCRITORES
MUSA TATARITARITATÁ DA SEMANA
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segunda-feira, junho 09, 2008



Gentamiga,
Estarei viajando nos próximos dias e retornarei dia 20 com muito mais poemas, crônicas, canções & textos de amor por ela.

Enquanto isso eu convido você para curtir:

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
POEMAS & CANÇÕES DE AMOR POR ELA
AS CANÇÕES DO SHOW CRÔNICA DE AMOR
O ROL DA PAIXÃO
GINOFAGIA
&
DELICIAS DA PAIXÃO

Ah, outra coisa:
Antecipando as comemorações pro dia dos namorados, veja o clipezinho do meu poeminha em canção “O AMOR” abaixo:



E pros festejos juninos da rádio Tataritaritatá, veja também o clipezinho do forró que fiz em parceria com o saudoso Félix Porfirio “PERDI A NOÇÃO DE SER FELIZ” abaixo:



Beijabrações & tataritaritatá!

sexta-feira, junho 06, 2008

CRÔNICA DE AMOR POR ELA



Imagem: Woman in the Tub, 1884, do pintor e escultor do Realismo/Impressionistmo frances, Edgar Degas (1834-1917).

SUBMISSÃO

Luiz Alberto Machado

Esta noite,
Ah, esta noite e você como archote na minha escuridão.
Não digo nada ao vê-la espalmada,
Impetuosamente despertada pela cúmplice excitação,
Tempestuosamente me envolvendo pela chama do fogo de seus atributos,
Onde sou calcinado pelo raio de sua prodigiosa exuberância.

Ah, esta noite,
Não digo nada e vou conduzido pela alada sedução do seu corpo febril, a saber-me sacrifício no sol causticante que arde cumulado de prazeres.
Não digo nada da imantada abissal calcinha verde além da sedução dos seus graciosos quadris de deusa a me encantar na saliva – boca cheia, lambendo os beiços, enlouquecido a navegar o seu mar bravio provocante.

Não digo nada
E vou pelo convite das pernas para que eu atravesse por inteiro a sua porteira do mundo,
A desnudá-la no nosso confronto corporal aquiescente, que arrepia o plexo solar, eriça a espinha dorsal, baba, geme, lambe, suga e goteja na entrega da noite, ah esta noite que vira e revira de quatro tigresa selvagem e insaciável até nocauteá-la no tatami de todas as carícias exaltadas.
E com afago delineio as curvas macias dos seus seios fartos
Deslizo minha língua inquieta saboreando a púbis à flor d´água da sua pele onde queimo e inflamo na rosa escarlate do seu sexo,
E sinto seus lábios por vontade própria prestando contas com a minha gula enquanto o seu corpo é um botão em flor.

Ah, esta noite onde não digo nada até tatuar meus dentes na sua carne viva como um canibal a servir-se da presa domada em sua total submissão.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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quinta-feira, junho 05, 2008

CRÔNICA DE AMOR



Imagem: arte de Derinha Rocha.

COBIÇA


COBIÇA from LUIZ ALBERTO MACHADO on Vimeo.

Música de Mazinho e letra de Luiz Alberto Machado

Quando eu me perdi por entre as estrelas do céu da tua boca
sabia que era o amor que vinha pra ficar
era sideral
bem mais que visceral
maior que a cobiça do teu negro olhar
era o álibi da paixão
se apoderando do meu coração sem domicílio
envolvendo-me no idílio que supunha sonhar.

Maior que a tentação de se afogar nesse rio
era a sedução de querer-te noite a fio feito um talho
que nos custa pra sarar
a espera que não mede o aceno de quem vem
e por findar-se em sonho sendo presa e refém
do teu amor
do teu amor
do teu amor

Quando me perdi nas profundas águas do teu corpo
sabia que era o amor que ocupava o seu lugar
em ser-mos um até na dor
no mais das vezes
corações siameses
na glória infinita do amor.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992.

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quarta-feira, junho 04, 2008

GINOFAGIA




Imagem: foto/arte de Derinha Rocha

ABRAÇADOS

Luiz Alberto Machado

Foi preciso que eu acordasse atônito naquela manhã escura com um poema em riste e a voz aos prantos a derramar meus versos devassos loucos aos montes sobre a sua carne nua de amor imenso
Foi preciso que eu entoasse a minha canção aos lamentos de veias, nervos, sentimentos, emoção na goela das tripas coração pela boca nas mãos e lhe doasse toda ternura desnudada nos seus seios de maio
Foi preciso que eu me danasse todo mundo afora vida adentro a cometer os versos inspirados na paixão medonha que me faz cativo do seu jeito amante de ser
Foi preciso que eu me visse em você para sermos um no abraço inteiro de mãos e braços beijo no mormaço da alma corpo e sexo feito a vida que eu semeio e cultivo e meneio e vivo no seu coração azul.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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terça-feira, junho 03, 2008

DELÍCIA DA PAIXÃO



Imagem: Overflow, 1978, do pintor do Realismo contemporâneo norte-americano Andrew Wyeth.

ENGATINHANDO NA NOITE AZUL

Luiz Alberto Machado

De repente tudo fica deliciosamente excedente entre nós. A dimensão dela deixa tudo com ar de fantasia cosmogônica num idílio para lá de transcendental. E isso era mais que um sonho real. Toda a via-láctea ali, ao nosso dispor. E ei-la linda mameluca com sua angélica brancura na noite azul, com sua franzinice primaveril e uma gula gigantesca no seu olhar Sinéad O´Conoor, com as querências inauditas dos seus desejos mais secretos. Tímida com o querer maior que o mundo. Parceira de ir além da última curva do universo.
Por um lapso de tempo nos espreitamos atraídos pelo mútuo ardor das carnes incendiadas de paixão. Quase não ser possível manter-me distante da sua provocação corpórea nua, com seus peitinhos de goiaba-boa que me enche a boca d´água e deságua no meu sexo como lança pronta para desferir o golpe certeiro. Impossível desgrudar daquele corpo que é um verdadeiro aconchego de gozo.
Para minha grata surpresa, ela arqueia e sai engatinhando na minha direção: língua lambendo os beiços, olhos imantados no meu sexo. Ousei uma artimanha: recuei dificultando sua chegada. Mas ela engatinhou e sorriu safada como quem se dispunha a bordejar genuflexa entre as estrelas oníricas do nosso cenário jubiloso. Perseguiu firme ela por todos os cantos da cama, perseverou com desassossego até que com seu jeito Cristina Kirchner fermento do meu desejo a me envolver e se apoderar da minha emanação total, levando-me pelos limites do prazer. É quando ela jura todo o seu amor eterno e perjurando das suas para batizar-se nas minhas crenças, a se entregar por inteiro como quem vai pro carrasco no cadafalso da sua última hora.
Ah, como tudo é tão bom! Bom demais. Muito demais. É quando todas as delícias degustadas, exauridas e satisfeitas, ela tão Marina Lima sela o nosso amor com um beijo de paixão.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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segunda-feira, junho 02, 2008

MANUEL BANDEIRA



Imagem: The Three Graces, detail, do escultor francês James Pradier (1792-1852]

O UNIVERSO ERÓTICO DE MANUEL BANDEIRA

POEMETO ERÓTICO

Teu corpo claro e perfeito,
- teu corpo de maravilha,
quero possui-lo no leito
estreito da redondilha...
teu corpo é tudo o que cheira...
rosa... flor de laranjeira...
teu corpo, branco e macio,
é como um véu de noivado....
teu corpo é pomo doirado...
rosal queimado do estio,
desfalecido em perfume....
teu corpo é a brasa do lume...
teu corpo é chama e flameja
como à tarde os horizontes....
é puro como nas contes
a água clara que serpeja
que em cantigas se derrama....
volúpia da água e da chama...
a todo momento o vejo...
teu corpo... a única ilha
no oceano do meu desejo...
teu corpo é tudo o que brilha,
teu corpo é tudo o que cheira...
rosa, flor de laranjeira....

VULGÍVAGA

Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!
Não sei entre que astutos dedos
Deixei a rosa da inocência.
Antes da minha pubescência
Sabia todos os segredos.
Fui de um... Fui de outro... Este era médico...
Um, poeta... Outro, nem sei mais!
Tive em meu leito enciclopédico
Todas as artes liberais.
Aos velhos dou o meu engulho.
Aos férvidos, o que os esfrie.
A artistas, a coquetterie.
Que inspira... E aos tímidos - o orgulho.
Estes, caçôo e depeno-os:
A canga fez-se para o boi...
Meu claro ventre nunca foi
De sonhadores e de ingênuos!
E todavia se o primeiro
Que encontro, fere a lira,
Amanso. Tudo se me tira.
Dou tudo. E mesmo... dou dinheiro...
Se bate, então como o estremeço!
Oh, a volúpia da pancada!
Dar-me entre lágrimas quebrada
Do seu colérico arremesso...
E o cio atroz se me não leva
A valhacoutos de canalhas,
É porque temo pela treva
O fio fino das navalhas...
Não posso crer que se conceba
Do amor senão o gozo físico!
O meu amante morreu bêbado,
E meu marido morreu tísico!

BODA ESPIRITUAL

Tu não estás comigo em meus momentos escassos:
No pensamento meu, amor, tu vives nua
- toda nua, pudica e bela, nos meus braços.
O teu obro no meu, ávido, se insinua.
Pende a tua cabeça. Eu amacio-a... afago-a...
Ah, como a minha mão treme... como ela é tua....
Põe no teu rosto o gozo uma expressão de mágoa.
O teu corpo crispado alucina. De escorço
O vejo tremer como uma sombra nágua.
Gemes quase a chorar. Suplicas com esforço.
E para amortecer teu ardente desejo
Estendo longamente a mão pelo teu dorso...
Tua boca sem voz implora em um arquejo.
Eu te estreito cada vez mais, e espio absorto
A maravilha astral dessa nudez sem pejo...
E te amo como se ama um passarinho morto.

PIERROT MISTICO

Torna o meu leito, Colombina!
Não procures em outros braços
Os requintes em que se afina
A volúpia dos meus braços.
Os atletas poderão dar-te
O amor próximo das sevícias...
Só eu possuo a ingênua arte
Das indefiníveis carícias...
Meus magros dedos dissolutos
Conhecem todos os afagos
Para os teus olhos sempre enxutos
Mudar em dois brumosos lagos...
Quando em êxtase os olhos viro,
Ah se pudesses, fútil presa,
Sentir na dor do meu suspiro
A minha infinita tristeza!...
Insensato aquele que busca
O amor na fúria dionística!
Por mim desamo a posse brusca.
A volúpia é cisma elegíaca...
A volúpia é bruma que esconde
Abismos de melancolia...
Flor de tristes pântanos onde
Mais que a morte a vida é sombria...
Minhalma lírica de amante
Despedaçada de soluços,
Minhalma ingênua, extravagante,
Aspira a desoras de bruços
Não às alegrias impuras,
Mas a aquelas rosas simbólicas
De vossas ardentes ternuras,
Grandes místicas melancólicas!...

INGÊNUO ENLEIO

Ingênuo enleio de surpresa
Sutil afago em meus sentidos,
Foi para mim tua beleza
A tua voz nos meus ouvidos.
Ao pé de ti, do mal antigo
Meu triste ser convalesceu.
Então me fiz teu grande amigo,
E teu afeto se me deu.
Mas o teu corpo tinha a graça
Das aves... musical adejo....
Vela no mar que freme e passa...
E assim nasceu o meu desejo.
Depois, momento por momento,
Eu conheci teu coração.
E se mudou meu sentimento
Em doce e grave adoração.

BALADA DE SANTA MARIA EGIPCÍACA

Santa Maria Egipcíaca seguia
Em peregrinação à terra do Senhor.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
Santa Maria Egipcíaca chegou
À beira de um grande rio.
Era tão longe a outra margem!
E estava junto à ribanceira,
Num barco,
Um homem de olhar duro.
Santa Maria Egipcíaca rogou:
Leva-me à outra parte do rio.
Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
O homem duro fitou-a sem dó.
Caía o crepúsculo, e era como um triste sorriso de mártir...
-Não tenho dinheiro. O Senhor te abençoe.
Leva-me à outra parte.
O homem duro escarneceu: - Não tens dinheiro,
Mulher, mas tens corpo. Dá-me o teu corpo, e vou levar-te.
E fez um gesto. E a santa sorriu,
Na graça divina, ao gesto que ele fez.
Santa Maria Egipcíaca despiu
O manto, e entregou ao barqueiro
A santidade de sua nudez.

BALADA DAS TRES MULHERES DO SABONETE ARAXÁ

As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam.
Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!
Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá!
São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?
São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?
Meu Deus, serão as três Marias?
A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse...Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!Se me perguntassem: queres ser estrela? queres ser rei?
queres uma ilha no Pacífico? Um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

IMPROVISO

Cecília, és libérrima e exata
Como a concha.
Mas a concha é excessiva matéria,
E a matéria mata.
Cecília, és tão forte e tão frágil
Como a onda ao termo da luta.
Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta.
Cecília, és, como o ar,
Diáfana, diáfana.
Mas o ar tem limites:
Tu, quem te pode limitar?
Definição:
Concha, mas de orelha:
Água, mas de lágima;
Ar com sentimento.
- Brisa, viração
Da asa de uma abelha

BELO BELO

Belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.

ARTE DE AMAR

Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus - ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

CÂNTICO DOS CÂNTICOS

– Quem me busca a esta hora tardia?
– Alguém que trenas de desejo.
– Sou teu vale, zéfiro, e aguardo
Teu hálito... A noite é tão fria!
– Meu hálito não, meu bafejo,
Meu calor, meu túrgido dardo.
– Quando por mais assegurada
Contra os golpes de Amor me tinha,
Eis que irrompes por mim deiscente...
– Cântico! Púrpura! Alvorada!
– Eis que me entras profundamente
Como um deus em sua morada!
– Como a espada em sua bainha.

AD INSTAR DELPHINI

Teus pés são voluptuosos: é por isso
Que andas com tanta graça, ó Cassiopéia!
De onde te vem tal chama e tal feitiço,
Que dás idéia ao corpo, e corpo à idéia?
Camões, valie-me! Adamastor, Magriço,
Dai-me força, e tu, Vênus Citeréia,
Essa doçura, esse imortal derriço...
Quero também compor minha epopéia!
não cantarei Helena e a antiga Tróia,
Nem as Missões e a nacional Lindóia,
Nem Deus, nem Diacho! Quero, oh por quem és,
Flor ou mulher, chave do meu destino,
Quero cantar, como cantou Delfino,
As duas curvas de dois brancos pés.

PEREGRINAÇÃO

Quando olhada de face, era um abril;
Quando olhada de lado, era um agosto.
Duas mulheres numa: tinha o rosto
Gordo de frente, magro de perfil.
Fazia as sobrancelhas como um til;
A boca, como um o (quase). Isto posto,
Não vou dizer o quanto a amei, nem gosto
De me lembrar, que são tristezas mil.
Eis senão quando um dia... mas, caluda!
Não me vai bem fazer uma canção
Desesperada, como fez Neruda.
Amor total e falho... puro e impuro...
Amor de velho adolescente... e tão
Sabendo a cinza e pêssego maduro.

NU

Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –
Brilham.)
Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua...

ESTRELA DA MANHÃ

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte
Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã
Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário
Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos
Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
Depois comigo
Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

CARINHO TRISTE

A tua boca ingênua e triste
E voluptosa, que eu saberia fazer
Sorrir em meio dos pesares e chorar em meio das alegrias,
A tua boca ingênua triste
É dele quando ele bem quer.
Os teus seios miraculosos,
Que amamentaram sem perder
O precário frescor da pubescência.
Teus seios, que são como os seios intactos das virgens,
São dele quando ele bem quer.
O teu claro ventre,
Onde como no ventre da terra ouço bater
O mistério de novas vidas e de novos pensamentos,
Teu ventre, cujo contorno tem a pureza da linha do mar e céu ao pôr do sol,
É dele quando ele bem quer (...)

MADRIGAL MELANCÓLICO

O que eu adoro em ti
Não é a tua beleza
A beleza é em nós que existe
A beleza é um conceito
E a beleza é triste
Não é triste em si
Mas pelo que há nela
De fragilidade e incerteza
O que eu adoro em ti
Não é a tua inteligência
Não é o teu espírito sutil
Tão ágil e tão luminoso
Ave solta no céu matinal da montanha
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.
O que eu adoro em ti
Não é a tua graça musical
Sucessiva e renovada a cada momento
Graça aérea como teu próprio momento
Graça que perturba e que satisfaz
O que eu adoro em ti
Não é a mãe que já perdi
E nem meu pai
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto matinal
Em teu flanco aberto como uma ferida
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que adoro em ti lastima-me e consola-me:
O que eu adoro em ti é A VIDA!

MANUEL BANDEIRA (1886-1968) poeta, critico literário e de arte, professor e tradutor pernambucano, integrante do movimento Modernista de 1922 e autor de uma obra que é admirada desde a poesia, como a prosa, tradução e crítica.

FONTE:
BANDEIRA, Manuel. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1974.

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