sexta-feira, novembro 30, 2007



Imagem: Nuda Veritas, 1899 [Oil on canvas] (Austrian National Library, Vienna), do pintor simbolista/Art Nouveau austríaco Gustav Klimt (1862-1918).

ALCOVA

I

ABECEDÁRIO PASSIONAL ERÓTICO

Luiz Alberto Machado

Aceno da anfitriã nua.
A partir de agora eu quero amar a sua presença que irrompe no adro da paixão, acessando o trono de sua realeza para viver à larga desse encontro que encanta desde longe como um fogo cruzado entre Romeu e Julieta em vias de fato, quebrando protocolo para que eu saiba o bê-a-bá do amor, reconhecendo todo terreno ao alcance do seu olhar furtivo na estréia do beijo.

Beijo: é bom demais.
Benfazeja sintonia da boca naufragada nos lábios vulneráveis da mulher amada com o seu sorriso arremessado na posição de ataque alvejando a noite e pretejando o dia com toda elegância feminina de beldade egípcia onde a carne da fábula na ponta da língua desliza o cais que quero aportar com o mais profundo teor da carícia.

Carícia na pele acetinada.
Cada qual cuide de nós enquanto eu pelejando toda opulência benfazeja e embalado erradio no encalço dos seus encantos e na perseguição gostosa de sua maciez salva-vida no desfile com cento e tantas variações de sedução na lingerie de toda graça hipnótica na mira lasciva do meu olho, quando ouso tocá-la com um cheiro alisando seu pescoço e abraço e aperto tudo que for do seu desejo.

Desejo no degrau da tentação.
Deu-se presente capaz da surpresa partilhando o toque, o arrepio, o contato, dois enamorados encenando suas danças e decolamos pelando de quente na ponta dos pés caixinha de música dionisíaca de saliva e gozo abundantes, até madrugar no corpo da gente e o dia faça coroar o encontro.

Encontro: carne na carne.
Ergue radiante com o prazer em chamas e estarei atento, comandando o fôlego e o fio da meada, afinal de contas parece que veio por encomenda, feito carne da minha carne, bailando ao som de Gismonti devolvendo-me o mundo com vertigem e furor.

Furor na revanche do nosso inferno delicioso.
Fisgo e sei que na verdade sou fisgado e fecundo travesso na terra fogosa primordial, sem cuidados, forno alto mexendo sempre a ondulação dos quadris para que eu possa fincar pé na entrada com o beijo de todas as peripécias dos amantes inundando tudo, alagados pelo doce afogar-se e eu me debatendo com suas garras.

Gozo: a véspera da eternidade.
Garras que divertem a sanha e engana galope e fica provado porque sabe onde têm as ventas, contorcionista com saltos mortais sobre meu ventre no fulgor da oferenda, a trepada e a proa declamada onde todas as frestas e reentrâncias me chamam em rosa para que eu seja sempre seu mais ardoroso hóspede.

Hóspede da delícia.
Hoje eu quero ser maior que o meu próprio desejo para sorrir impiedoso enquanto sobejo um delicioso bocado de comida enfiado em suas pernas no topo das paradas para ser ocupante autônomo pelo laço de sua sedução que me agasalha na enorme profundidade do seu íntimo.

Interior da catarse.
Íntimo que me faz familiar com o sândalo envolvente de sua carne com toda a intensidade de magia, toda imponência aconchegante da pele translúcida sedutoramente esguia na pose sonâmbula esfregando minha pele entre os dedos na supremacia das paixões juradas.

Jazo no delírio do mergulho.
Já me vejo indomável ambulante abusando dos limites de sua integridade, com toda gulodice dos deserdados, todo fôlego dos nômades, toda euforia dos aguerridos pronto para confundir noitedia de nosso rebuliço de luz.

Louca itinerância do prazer.
Luzidia emoção surpreendente e eu regando seu monte de vênus na matriz do querer, onde toda instância procede do amor fecundo rente a todas as brechas para travessuras, acessível para todas as traquinices impetuosas no seu saracoteio e que o resultado seja o espraiar da maravilha.

Mata desvirginada: botijas à flor da terra.
Maravilhado com o cheiro de buquê de rosas do seu ventre e batendo a macega púbica, a sua mata atlântica devastada e eu sorvendo os seus lençóis freáticos, revirando tudo, sangue fervendo na veia e acedendo a labareda da loucura que esborra estrepitosa para o meu lauto repasto que se agonia de vê-la se rendendo ao nirvana.

Nas nuvens etéreas da orgia.
Nunca mais um nome, nunca mais qualquer lei, só a entrega transgressora que se faz quentura no acasalamento viciado de amor e somos medonhos gemidos no nosso prazer onírico.

Onirismos das veias pulsantes.
Onde oscila os ventos de nossa obscenidade e vou na ventania do desejo língua de fora rangendo os dentes arrebentando com tudo para que me sirva integral mesa posta servida para alcançar a garupa da potranca.

Pódice: o alvo.
Possibilidade mágica com que eu chego rugindo qual leão com uma carícia na garupa gostosa alternando ritmos frenéticos, onde o meu lança-chamas com tamanha intensidade revida a nababesca magnitude carnuda da parelha que me completa com o seu punhado de doação, empinando a bunda para que eu libertino total possa repartir do poder aquinhoado de sua graciosidade e a se crer no que ela faz de mim com luxúria e paixão por seu atrevido torso pro meu quadrívio.

Quando tudo vai além da entrega.
Quando tudo é de seu céu e inferno na delícia de ser e não-ser por qualquer primazia que prevaleça quando tudo é nada e noite é dia e eu sou britadeira que implode suas estruturas e nos resta renascer.

Rastejando no assoalho nu.
Renascer de tudo no meio das rajadas medonhas a deparar um ao outro a refeição sanguinária de toda carnificina com toda ferocidade a estender um ao outro no tapete, quando rasteja ofegante para me render na surpresa da servidão.

Seminem in ore.
Servidão da boca com gosto de prazer, servindo-se com os refletores do seu sorriso quente no impulso de abrir fogo palpitante, afável e acolhedora na insaciável felação, felatriz total.

Transcendência antropofágica.
Totalmente entregues embaixo de nossa árvore, tal Melancia e Coco Mole e eu tomando de assalto, perfeita camaleônica mimética com toda graça dos mamilos rosados de Luciana Ávila no noticiário se desnudando a exalar das pernas flexíveis o perfume impregnado de sexo quando os braços pendem, relaxa as pernas num orgasmo duplo e somos toda a nossa unicidade.

Untando o desejo visceral.
Única e altaneira perfeição com o brilho de todos os diamantes no olhar e um sorriso em minhas mãos e seus seios ao carinho do meu afago e me chupa o dedo ereto a me conter por dentro dos braços, nossas luzes acesas e toda oportunidade vida.

Vicejando além dos limites.
Vida que vou circundando sua resistência na voz quente que sussurra abstrata na brisa, gritando meu nome, sonhos, poderes e tesão, esfregando minha ereção e seus dedos escapam pelas bordas do meu sexo em chamas sob risadas indecentes que se mexem pro meu xodó.

Ximão fisgado no jeito dela.
Xodó que me deixa a boca ofegante de náufrago esguichando o gêiser da minha agonia, que me faz enveredar na sua gruta com meus dentes a buscar sua herança secreta que mal dobra a esquina e que amanhece e é bom demais possuí-la, anfitriã gentil do zênite.

Zênite: graças à vida, o amor.
Zelozo vou febril cultivador zanzando suas entranhas, suplantando suas ofertas, transcendendo a barreira do auge na apoteose de todo ocaso até zurzir onde houver paradeiro para o nosso amor. E a cortina desce na alcova, tudo recomeça já e sempre. U-lá-lá! U-hu!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela. E se divirta com as previsões do Doro para 2008 de todos os signos.

quarta-feira, novembro 28, 2007



Gentamiga,
Hoje é dia de festa!
Hoje é o aniversário da Derinha Rocha, essa menina encantadora, pessoa muito gente, muito especial.
Por isso, nada mais justo que aqui eu faça uma saudação. Uma homenagem de gratidão: Feliz aniversário, Derinha, obrigado por tudo! Eis um poeminha:

ESSA MENINA

Luiz Alberto Machado

Essa menina é feita de lua. Ela voa na rua prontinha querubin. E me apronta tlin tlin no alto da campina onde tudo é cantina feita só de si.

Ah, essa menina que dança com jeito, somente a gingar. Qual estrela lá mansa na unha matutina, desde sonsa ilumina onde antes supunha nunca existir. Ela está sempre aqui como chama na retina, como a grama que mina todo o quintal. E se faz de vestal de todos os presságios. Ela alucina ao contágio. E ela só vale ágio na sina do apelo a brilhar nos cabelos toda magia. O que eu mais queria: roubar o seu cheiro, seu secreto terreiro de tangerina. Ah, fulmina iminente – ela não é gente – é deusa a mendigar.

Essa menina é feita de mar, intensa, quiçá, real mais divina. Quando vem cabotina só me desmantela. Ela vira a janela pronta pr´eu abrir.

Essa menina chega com o olhar ardendo de vida. Quase desvalida com a boca nas asas que vaza e é guia perdidas esquinas, toda emoção repentina com o sopro de aguerrida na pele. O paladar que repele na maior febre, que tudo se quebre ao sol posto - a saliva com gosto de boa cajuína. Ela é tão traquina: o seio da boca sedenta. E venta maior ventania. E, todavia, se põe a chover: o corpo queimando o prazer.

Essa menina é feita do rio que escorre ao quadril pra me afogar. Patati, patatá, é ela que me abriga como se eu fosse a viga que ela quer sustentar.

Essa menina, bailarina da noite, em carne viva, vitalina, essa flor menina a me servir sucessivas entregas, peças que prega nos meus cinco sentidos.

Essa menina é feita de peso: a coxa tatua o desejo que as pernas eqüinas rolam sobejo do sexo azul. Eu todo taful com seus pés nos meus braços que o abraço fulmina e lateja, água que poreja tão pequenina e vira ribeirão na luz feminina. Vingo-lhe a nuca que me ilumina e ela me sorri encantada, franzina com a gula que vai da glória à ruína.

Essa menina e a mão culpada de amor. Ela brota, ereta, me socorre, me empesta. Salta da grota, na greta, virada na breca, capeta, na alvura exalta, cristalina. E tudo se arrasta, arrebata, contamina. E me larga no sopro. Meu corpo oficina. Maior serpentina de carnaval. E me faz imortal. Vem e ilumina a vida toda esquecida no meio da paixão. É quando, então, ela cisma do mundo e reduz quase tudo na palma da mão onde ela mais que altaneira me deita na esteira e me nina um milênio de paixão.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

terça-feira, novembro 27, 2007



Imagem: Cupid and Psyche, detail, 1786-93 (Musée du Louvre, Paris, France), do escultor neoclássico italiano Antonio Canova (1757-1822).

QUANDO QUEM MANDA É O AMOR

Luiz Alberto Machado

Vai a vida e nem aí. Tudo vai meio insosso, meia boca, tudo bem. Tudo sem sobressaltos, sem atropelos, até à toa e nos conformes, escorrendo na calha do racional, nem insinuando qualquer saída dos trilhos das metas ao alvo determinado. E é nessa hora que a gente se acha seguro, na certeza de que nunca mais definhará ou se submeterá ao estrupício de qualquer paixão. Ledo engano. Nada como uma noite entre um dia e outro para provar que, do inopinado, tudo se vira de pernas pro ar. Aí, segurar o tranco é que são elas, força redobrada no braço, pulso firme, punho determinado.
De nada adianta quando quem manda é o amor, nada mesmo. Basta rolar um clima que ninguém, mas ninguém mesmo, sabe de onde vem, onde se escondia ou de que raio de lugar chega a eclodir. E rola mesmo assim, do nada. Só se sente o flagra quando toca uma daquelas canções na pele da alma, como a do João Bosco, que diz "(...) o amor quando acontece a gente logo esquece que sofreu um dia...". Isso apenas só um olhar nada pretensioso que cruza sorrateiro na exaltação do flerte e traz o arrepio no corpo atravessando toda espinha dorsal. Chega com um frio no plexo solar minando o coração e acedendo a libido. Nessa hora as idéias dão um nó e seja lá o que deus quiser.
Mesmo assim, tudo é percebido como nada demais, levando a crer que vai se sair ileso: é só para ficar, mais nada. Nada o quê? Compelido pela imantação dos seres, vem surgindo devagar àquela revolução no peito que de tão estrondosa não se sabe bem o que é, mas que desarruma tudo a ponto de se desejar ardentemente estar ao lado daquela pessoa que vira tudo dos pés à cabeça.
Na maior desorganização o desgoverno reina na convergência dos olhares, na timidez insinuada, no encontro agradável aonde cada um vai se surpreendendo mais com o outro, uma gentileza infinita, uma identificação exaltada. E quando dar fé, nossa, um talqualzinho o outro, quanta coincidência, hem?
Pois é, mesmo nem sendo tão parecidos assim, tudo se inclina pro estreitamento no conluio dos afetos. É que no terreno do amor um passa a ser o outro e vice-e-versa, a viver pelo outro, a fazer tudo pelo outro, desmedidamente. Os dois passam a ser um: a unidade dos sentimentos. Isso sem contar com o febril perfume que vai incentivando aquele desejo desenfreado no mel da paixão avassaladora, acendendo a volúpia possante que desemboca num sim pro namoro das almas desgarradas. É aí que se perde a noção de si em mil ternuras que explodem demonstradas, milhões de carinhos dedicados, zis encantações afloradas, tudo em nome da entrega absoluta dos quereres mais arraigados. É o amor e quando ele reina não há espaço para mais nada. Ah é o amor na vez do seu domínio e com ele vem a febre do desejo ardendo, o fogo da paixão atiçando, os corpos pelando na combustão amorosa, tudo levando a saciar carências sedentas para satisfação do prazer de todas alucinações. Por causa dele, o sol brilha mais veemente, a vida é mais espetacular, o mundo passa a merecer a razão de se estar vivo, o universo é uma mera distância que exalta a infinitude do idílio, a natureza é o palco para a real felicidade.
Amar, por isso, é o sentimento mais sublime de comunhão humana. É nele que tudo é vivo, tudo é verdadeiro, tudo é a mais real manifestação verdadeira de vida.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela. E também Rol da Paixão.

segunda-feira, novembro 26, 2007



Imagem: Heart of Snow, do pintor ingles pré-rafaelista Edward Robert Hughes (1851-1914).

UM POEMA DE CHARLES BAUDELAIRE
“(...) Esta mulher, que é um bloco tão miraculoso, divinamente forte e alvamente delgado, é feita para a pompa de um leito suntuoso e o sonho e o lazer de um príncipe ou de um prelado. (...) A volúpia me chama e a paixão me cora. A este ser que é dotado de tanta realeza, vê que encanto excitante a gentileza doa!” (Charles Baudelaire (1821-1867), A máscara).

Veja mais poemas & canções de amor por ela. E no Tataritaritatá!

sexta-feira, novembro 23, 2007



Imagem: Adam and Eve (unfinished), 1917-18, do pintor simbolista e da Art Nouveau austríaca Gustav Klimt (1862-1918) - (Österreichische Galerie, Vienna)

ENVOLTO

Luiz Alberto Machado

Minhas mãos: o calor de sua carne meândrica
Preciso sabor da aragem para minha paz
Lenha para as chamas do meu fogo

Seus beijos são magia ardente
que acende a delícia do meu prazer

Meu desejo: a alma candente desnudada
- coisas da terra, mar, sofreguidão ubíqua

Nossos quereres: atração tremulenta
pele na pele
olhar no olhar
imã no sexo rigente

Eis o pavio passional: amor


© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela. E mais: a Confraternização Tataritaritatá e os clipes na Agenda.

quinta-feira, novembro 22, 2007



Imagem: Andrômeda, 1929, da pintora polonesa/americana de Art Déco, Tamara de Lempicka (1898-1980).

UM POEMA DE HILDA HILST
Antes que o mundo acabe, Túlio, deita-te e prova esse milagre do gosto que se fez na minha boca. Enquanto o mundo grita belicoso. E ao meu lado te fazes árabe, me faço israelita e nos cobrimos de beijos e de flores. Antes que o mundo se acabe, antes que acabe em nós nosso desejo. (HILDA HILST, Árias Pequenas. Para Bandolim).

CILADA

Música de Mazinho & letra de Luiz Alberto Machado

Você sequer fitou meus olhos
Pra saber da cilada que o amor pregou em mim
Desatinou
Nem reparou o dano
E o meu coração profano
Duvidou do que era sim
Enfim à mercê dos seus açoites
Pelas emoções da noite
Na batalha de se amar
No ter de sua façanha
Abissal paixão tamanha
Fez o fogo me queimar
E as garras hábeis de tocaia
Fez de mim sua cobaia
No contágio do calor
Era luz da maravilha
E sob os trilhos da armadilha
A partilhar do seu amor
Amor de fera mansa
No bailado dessa dança
Fez a guerra e o desertor
Sequer o meu olhar fitou
Não sabia da cilada
Qual picada envenenou
Mesmo fera indulgente
Seus desejos diligentes
Fez do canto o seu cantor
Rosnou no ar felicidade
Fez soar cumplicidade
No afã do caçador
E as garras hábeis de tocaia
Fez de mim sua cobaia
No contágio do calor
Era a luz da maravilha
E sob os trilhos da armadilha
A partilhar do seu amor.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife. Bagaço, 1992.

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quarta-feira, novembro 21, 2007



Ginofagia (Poemiudinhos). In: Crônica de amor por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Arte: Derinha Rocha.

DOIS HAIKAIS DE LENA JESUS PONTE
Entregue à alegria, eu beijo a boca do dia. A alma está no cio”.

Entregam-se ao sol as marias-sem-vergonha sem medo de escândalo”.

Veja mais Ginofagia. E vem aí o Reveillon Tataritaritatá!!!

terça-feira, novembro 20, 2007



Imagem: Jean Shrimpton, 1972, do fotógrafo inglês David Bailey.

A MAGIA DO OLHAR DE QUEM CHEGA

"Há no seu olhar algo surpreendente como o viajar da estrela cadente eu quisera ter tantos anos-luz quantos fossem precisar pra cruzar o túnel do tempo do seu olhar...“ (Gilberto Gil)

Luiz Alberto Machado

Quando o nome que não se pode dizer tocava - dlin! dlon! -, a campanhia estridulava e trazia o seu olhar - que olhos pidões, meu deus! - indigente de quem se encontra na carência de encontrar o meu; eu me dizia Romeu "é minha dama! Oh! ela é o meu amor! Oh! se ela soubera! Fala, entretanto, nada diz; mas que importa, falam seus olhos".... era um trasgo adusto e a minha lucidez se evaporava, e absorto me deixava ululante a ponto de encher com azáfama meus nervos e à cambalhotas o meu coração desencontrado. Era, com certeza, uma teopsia, onde Perséfone se transmudava em zis personagens para protagonizarem minha loucura. Eu sabia e me embevecia, me entregava ao seu enleio como quem se entrega à própria sorte.

...de quem vai se entregar
Seja em qualquer lugar
Onde a sorte vier...


O seu olhar se mostrava carregado de ternura e cobiça invadindo todas as minhas entranhas e todas as dependências do meu apartamento, removendo taciturnidades, solidões, monocórdios, varrendo a mesmice, a pasmaceira e a misantropia impregnadas no meu ser e no ar de todo ambiente, trazendo um clima festivo de luzes acesas e alvoroços siderais para a minha acomodação. Seu olhar me dizia Julieta "jura-me somente que me amas... toma-me toda inteira!"... era um rebuliço faceiro que sua figura altaneira causava no acorçôo de minha alma, do sol brilhar-lhe valorizando sua presença. E eu enamorado recitava com as forças do meu coração "com as leves asas do amor transpus estes muros, porque os limites de pedra não servem de empecilho para o amor. E o que o amor pode fazer, o amor ousa tentar... ai! Mais perigos há em teus olhos do que em vinte de suas espadas... amor, que foi o primeiro que me incitou a indagar; ele me deu conselho e eu lhe dei meus olhos"... Era a trapaça de ver-me rendido no lance, tantalizado com a sua chegada inopinada, acabrunhado com o seu jeito e com o leve toque descompromissado do seu olhar em minha direção a cobrar-me "jura pela tua graciosa pessoa que é o deus de minha idolatria... quanto mais te dou, mais tenho", rompendo a encruzilhada do prazer, exorcizando meus demônios com seus lábios - aquela boca linda de Liv Tyler, fissurando-me com seus lábios bom de morder, salientes e capaz de seu diâmetro escancarado abarcar meus segredos excitados, aliás, diga-se de passagem, a sua boca era uma entre tantas outras seduções capazes de me endoidecer, de sonhar com meu sexo duro, túmido, dentro, todinho, engulido por seu paladar - e seus seios de Mathilda May rodopiando na minha saliva, sua pele sedosa eriçada, seu corpo esgalgo, a sua carne de polpa saborosa, seu ventre humoso - aquele ventre estival e sápido -, a taça do seu veneno para beber ensandecido na doação de seu corpo maternal... "o amor corre para o amor"... entoei...

Quero que você me venha de manhã
Plantar a luz do sol
Com sua fonte a minar
E em mim se escorrer...


E me contornava inóspita, toda exata com sua blusinha de alça, deixando prevalecer todos os seus atributos, a proeminência dos seios latentes, as vestes coladas no corpo realçando a sua vitalidade e seus dotes corpóreos aliciando a fogueira ardente do meu corpo sedento por tostar-lhe a alma agradável sussurrando em sonho ao meu ouvido... "e como o amor é cego, combina melhor com a noite!... vem, tu, dia da noite, pois sobre as asas da noite parecerás mais branco do que a neve recém-pousada sobre um corvo!... vem, noite gentil!... vem, amorosa noite morena... Dá-me meu Romeu!...."

...e aguando esta ternura
A gente dê vontade de nascer
Beijar-lhe o ventre
E ver a vida a rolar... vai ser demais!


E ela caminhava citígrada na noite da minha solidão, pesunhando minha alma e eu seguindo seus passos insones, ah! pequena aljôfar de olhos súplices fitando-me compenetrada enquanto chupava sorvete só para me provocar; deixando-me antever a textura de sua língua exuberante e aveludada naquele rostinho lindo, semi-angelical, de uma beleza ostensiva tripudiando meus quereres decíduos e arruinados pela sua supremacia toda acanhada, silente, sonsa, excitante, solaçosa, enxuta, fermentosa, édule, usurpando minha quietude com a sua blusa a mostrar-me o rego dos seios generosos, onde eu já via na minha ilusão instantânea a sua manifestação de naja com seu capuz estufado para me devorar e premida pela sua necessidade, a suavidade de suas curvas desafiando minha perícia para um test drive por seus traços angulosos, suas formas assombrosamente sedutoras. - parece que se vestia assim para mim, na provocação vindicativa do seu olhar imantando o meu gândulo, não se desgrudando imbrífera dos meus segredos mais remotos.

O tempo vai ruir prá nós
Desexistir
Incendiar o corpo, a voz
A sede saciar na foz
Assim, sedento
A diluir-se em flor pelos confins...


Não havia jeito de me desvencilhar de sua imagem onímoda e deslumbrante, provocando um redemoinho em todas as minhas certezas defenestradas dali, deixando-me débil com seu ar brizomante, parece que adivinhando os meus sonhos de vê-la estirada na minha bandeja, nua esurina, trincadeira.

Onde está o que sou eu?
Será renúncia de querer você?
Amor, que vai ser de mim
Se um dia esta vontade de viver
Perder o amor de vista e esquecer
Angústia de não ter raiz
E o ar desvencilhar-se do nariz...
Será de mim?
O que será do meu coração?


A sua voz arrastada, manhosa, mais parecia Nelli Sampaio sussurando versos luxuriosos na minha alucinação, sotaque que mais acrescentava a minha filoginia e nos dava a urgência de nos estreitar mais convergindo ao centro da minha paixão desnudada.
Não forcei a barra, fui manso, deixei a coisa rolar. Eu estava a fim, ela, ao que parece, idem, mas afastada. Ela dava bandeira, mas se resguardava quando eu me insinuava, podando-me a iniciativa. Ela bateu forte, fundo, aguçando a minha imaginação para peripécias zis. Eu sabia que dali sairia um bom caldo. Saquei seu timing, o seu jeito guerreira, altiva e cosmopolita, um tanto animalesca, dando-lhe um trato terno na geografia curvilínea, não poupando um centímetro de sua graça corporal que evocava sabores, brincando com o meu apetite. Eu a desejava da ponta dos pés ao último fio de cabelo e quando exaltava na minha cobiça, seus olhos pareciam mais um pelotão de fuzilamento. Eu recuava, cedia, certo de que haveria ocasião melhor para a minha investida amorançada.
Para puxar assunto inquirí sua data de nascimento, ao que me respondeu caí logo numa sessão horoscopeta, puxando-lhe pela intimidade, descobrindo-lhe que "da mesma forma que damos e fazemos pelos outros, dessa mesma forma receberemos e teremos sucesso na vida", revelando o sentido da troca do amor, da permuta do querer e que, por sua natureza bondosa e muitas vezes desprendida, carecia de se soltar, cobrando-lhe uma reciprocidade clara aos meus intentos. Nenhuma atitude esboçara, impassível. Por ser uma pessoa liberal, franca, honesta, desprezando o enganoso e o ilícito, fixei minha retórica valorizando lugares como a Babilônia, a Pérsia, o Egito, a Palestina e as veredas estranhas do Oriente, onde sabia que se desmanchava por curiosidade, estendendo-se por países como o Egito, China e Japão. Ela estava hipnotizada com minha falácia e eu sabia disso, aguçando ainda mais seu êxtase pelo que eu discorria. Parece que eu adivinhava e ela se desnudava por inteiro perante minhas considerações. Ela me fitava a ponto de engolir-me inteiro. Estava receptiva, ao que acertei em cheio os seus mistérios. Repentinamente, escapulira pela porta à fora, deixando-me a falar sozinho. Com isso perdi a noção de ser feliz. Fiquei por horas e dias a esperar-lhe a presença à minha porta, tocando a campaínha para realizar-me os desejos desenfreados que me afligiam. Sumira. A campanhia calara. A minha desolação ficava cada vez mais aguda ao som do Concierto de Aranjuez. Eu me entregava ao abandono, mastigando meu platonismo.
Não fora esta a única em que me sentira jogado ao abandono. Não, tantas e muitas tantas outras vezes a paixão se platonizara, jogando ao sacrificio da existência. Desde meninote embalado pelos seios da professora do primário, Ilmena, peituda, reboculosa, linda de morrer que me enveredara pelos caminhos do amor impossível. De outra, mais taludo já, bigodinho ralo, uma professora de Ciências, Linalda, ah! esta arrebatara todas as minhas atenções a deixar-me morrer onanista. E Chumbinho, uma coleguinha miudinha, mas troncuda, do ginasial, me extasiara na adolescência. Livânia, uma varapau maravilhosa, quase duas de mim na altura, que ao encontrar-me absorto apaixonado, virava o rosto para o céu como a pedir clemência.
Entre escanteios e desencontros musas mil se enviesaram em meus caminhos, parece até que por vingança de Perséfone. Eu me afligia no centro da repulsa e mais construía meus castelos de invenções: era Malésia que me falava com seu jeito Leila Diniz: "sou uma mulher meiga, adoro amar. Quero mesmo é fazer amor sem parar". E cantarolava: "...brigam Espanha e Holanda, pelos direitos do mar... porque não sabem que o mar é de quem o sabe amar..."
Assim fora, sem Pomona, sem Maristela que vivia de peitica com a minha timidez a mostrar-me seu derrière, atrepando-se a qualquer saliência a me provocar como naquela cena antológica de Sonia Braga no telhado quando Gabriela; sem o riso ao vivo de Marina Lima, que teimava em se manter colorindo meu cérebro; sem a altiva presença de Luciana Ávila ou Mônica Waldvogel atualizando-me com o noticiário nacional, enquanto eu morria de paixonite aguda; sem a Leila sacando no volei ou Isabel paramentada com a mais estonteante torcida pelo Flamengo; sem a Débora Rodrigues, aquela sem-terra sedutora que arrepiava numa direção da Fórmula Truck; sem a nudez de Carolina Ferraz no Pantanal; sem a meiguice de Fátima Guedes, cantando as coisas mais mansas de sua feminilidade; sem a altaneira figura de Vera Fischer, o vinho mais nobre da minha cobiça; sem a viúva Thereza, a residente mais contumaz do imaginário masculino; sem a pele trigueira de Suzy Rego, sedutora feiticeira; sem a magnífica expressão de Kátia Maranhão; sem o impacto do jeito manso de Adriana Calcanhoto, sem o lindo enleio de Leila Pinheiro, sem...
Perséfone aprontara comigo, mais uma vez. Eu ruminava minhas paixões alucinadas e desmedia de mim, do meu próprio tamanho, crescendo, dilatando com meu sofrimento, mergulhando no vórtice da solidão.
Não conseguia me desvencilhar de Pomona, presente em todos os meus projetos de vida, meus sonhos e meus desejos. Eu sentia a sua falta, mas nada podia fazer. Estava distante e eu mesmo me recusara reencontrar-lhe, recusara tudo, até de mim mesmo. E com isso sofria, derramava meus lamentos em tons e páginas, sem a menor piedade. Tinha que sofrer e dessa loucura sair emancipado, adulto, refeito. O que pode o coração? E aguando esta ternura a gente dê vontade de nascer, de renascer, de ser feliz. Que será do meu coração? Eu ouvia Clarice Lispector no centro da maior das minhas contradições. Eu que me desencontrava à toa. E era a minha catarse. Soubera de nada.

© Luiz Alberto Machado. Direitos Reservados.

Veja mais Rol da Paixão. E vem aí o Reveillon Tataritaritatá!!!

segunda-feira, novembro 19, 2007



Imagem: Hercules et Djanira, de Agostino Carracci.

DE UM POEMA DE W. H. AUDEN:
“(...) Na nudez democrática, os seus sexos mentem; se não fosse por peso ou idade, não se distinguiria guardado de guardador” (W.H.Auden, Ilhas).

UMA DICA DA KIKI SUDÁRIO


Vamos comemorar os 13 anos da adolescente 'Doces Vinganças'. Local: Praça das Papoulas 30, 2 º andar (Centro Comercial de Alphaville) galeria Doces Vinganças dia 13/12/2007 às 20:30 hs. São Paulo. Traje a fantasia, festa fechada somente para convidados e a imprensa. Confirme sua presença no e-mail: kikisudarioproduções@uol.com.br maiores informações: no site www.kikisudario.com.br Tels: 4688 29 95 - 9230 88 80

Veja mais W. H. Auden & Kiki Sudário.

sexta-feira, novembro 16, 2007



Imagem: One Second Before Awakening from a Dream Caused by the Flight of a Bee Around a Pomegranate, 1944 (Collection Thyssen-Bornemisza, Madrid, Spain) do pintor e escultor surrealista espanhol Salvador Dali (1904-1989).

ALEGORIA DA LOUCURA

"Os dois se tornaram uma só carne" (Coríntios, 6:15-16)

"Quem não percebe que, sem as mulheres, não extrairemos qualquer prazer ou satisfação da vida, a qual, se não fossem elas, perderia o encanto e seria mais bárbara, mais selvagem do que a dos animais ferozes? Quem não percebe que somente as mulheres podem libertar nossos corações de todos os vis e falsos pensamentos, ansiedades, sofrimentos e do lamentável mau humor que frequentemente os acompanha? E, se realmente considerarmos a verdade, devemos também reconhecer que, em nosso discernimento sobre grandes problemas, longe de nos distraírem, elas despertam nossas mentes..." (Castiglione, O Livro do Cortesão, séc. XVI).

Luiz Alberto Machado

Na atmosfera do perfume que exala da voluptuosa escultura do seu corpo, toda loucura de mim se acerca e, jacente, arremeto de cima para que receba embaixo todo calor da minha possessão gulosa em perpetuá-la estrela da minha noite escancarada.
É tudo demais além do flagra estonteante de sua realeza súcubus que amanhece entre as pernas e reluz pela aura anímica de sua ostentação impune e me faz labareda até aquecê-la, lábios rubros e imaculada pele da minha hedonística devoção.
Tudo é espetacular e mágico. E absorvo toda sua sedução e faço do meu corpo o tapete mágico para manipular a sobrecarga do deleite dos seus dotes, explorando seus nervos no trânsito enlouquecido pela tentadora delícia dos segredos da alcova.
Tudo é quentura e aconchegante.
Suor na chama do êxtase onde digladiam braços e poderio, pernas e estreitamentos, engalfinhando beijos no paraíso idílico e estrelado da sua boca para que eu seja mel no seu paladar e todo sabor de sua preferência imantada, incendiando a fogueira e mandando ver no prazer do seu estado de sol.
Nesse espetáculo corpóreo repleto de fantasias por se realizar, cometo as manobras mais radicais até exaurir todas as performances contorcionistas do intercurso previstas no Kama Sutra para o gol dos zilhões de orgasmos.
E nisso invisto para navegar as carnes de mar bravio a me fazer foguete explorando seus abismos siderais na umedecida fonte inexaurível do santuário da vulva, onde saboreio toda recompensa na câmara da noite nupcial do nosso lauto banquete, como festim que serei vândalo para deixá-la incinerada pela maior loucura na pira sacrificial do amor.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

Veja mais Crônica de amor por ela.

quinta-feira, novembro 15, 2007



Imagem: Xênia Antunes.

UMA IMAGEM, UM POEMA & UMA CANÇÃO.

Cada vez que me possuem cada vez fico mais pura mais casta mais virgem Cada vez que fico nua cada vez sou mais louvada beijada aleluia Cada vez que eu me entrego cada vez eu sou mais santa mais salve rainha Cada vez que estou parindo cada vez sou mais mater mais ave Maria”. (Xênia Antunes, Maria A dos Prazeres)

ÊXTASE

Música de Santanna, o cantador & letra de Luiz Alberto Machado

Singrei a vida e o mar no ver do seu olhar
Sua imagem a me seduzir tentando lhe encontrar por ai
Onde insisto em não sonhar
Fazendo a flor do meu amor pagão, meu coração
Absorto deu de lhe amar com possessão
Obsessão de se entregar
Tudo é tão difícil sem você aqui
Ainda resta indícios do amor em mim
Está tudo fora eu quero o seu calor
Não vá embora ainda não chegou
A hora exata de querer partir
Eu dou de mim ainda o que puder
Fazer da tarde o amor de uma mulher
Que se depara à noite a me seguir
Enfim quero o fascínio que invadiu
Quero o domínio que bramiu da sua paixão
Que chega em mim, caçoa do fim e já não faz questão
Que o vento anuncie presságios
Dos naufrágios da minha solidão
Me dê a sua mão e que o mar recolha os olhos
E refaça a fantasia da minha ilusão
Quero ver-lhe então na canção
Na sombra azul de um eterno blues.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992.

Veja mais outras canções de amor por ela.

quarta-feira, novembro 14, 2007



Ginofagia (Poemiudinhos). In: Crônica de amor por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Arte: Derinha Rocha.

Caí nas areias do teu olhar. Movediça, afundo. Enlaça-me com tuas garras. Ferocidade e sede. Respingo em tumores, atravessa minh´alma como um animal, lobo dos meus sentidos. Intuído pelo cheiro da caça, resgato-me diante do delírio, martírios e desejos que tenho e fujo arrastando meus olhos para a lua que me faz nua e aumenta a cobiça corpo inerte. Meus passos calam, os teus exalam minha imobilidade. Prazer de tua língua traz teu corpo ataca meu pescoço teu gosto meu alvoroço entras em meu olhar sem bater. Estremeço... entrego-te a alma e o amor de meu corpo” (Maisa Cristina Vibancos, Poema).

Veja mais Ginofagia

terça-feira, novembro 13, 2007



Imagem: Nude Reclining on a Chaise, ca 1855, do fotógrafo frances Auguste Belloc (1800-1867).

O GOSTO DA ÚLTIMA VEZ

Quem é esta que aparece
como a alva do dia,
formosa como a lua,
pura como o sol...
" (Cânticos de Salomão, 6, 10)

Luiz Alberto Machado

...a falta que Pomona me fazia ao coração, levou-me a loucuras sentimentais estabanadas. E enamorei por paixões carnais, tanto em contatos imediatos de quarto grau, quanto em devaneios exacerbados.
Foram desfilando no cenário da minha retina mulheres várias, ternas e inescrupulosas, enredeiras e pin-ups, caras-metades e linguarudas, deusas e profanas, lívidas e resolvidas.
Era Diana, a deusa latina da lua que lavava seu corpo virginal na água espumejante da fonte como Artêmis para um sujeito selenito como eu. Era Íris, a deusa do arco-íris, a raínha dos deuses; era a árabe Amália, abelha do lar; era a grega Cora, virgem; a hebraica Ana, graciosa; a latina Celestina, vinda do céu; era Cleópatra, a glória da terra; a Amanda, digna do amor; a Vênus, Afrodite, com o seu cinto bordado que tinha o poder de inspirar o amor; ou Hero, sacerdotisa de Vênus, amada por Leandro; ou Dânae da torre de bronze onde seu pai a havia aprisionado; Calíope com a poesia épica; Euterpe, com a poesia lírica; Melpômene, com a sua tragédia; Terpsícore, com a dança e o canto; Érato e sua poesia erótica; Polínia e a sacralização poética; Urânia e a astronomia; Talita e a comédia; a teia de Penélope; a solidão de Ariadne; Dafne que fora o primeiro amor de Apolo; Prócris, a amada de Céfalo; Coatlicue com o seu manto feito de serpentes entrelaçadas; ou Xochiquetzal, a deusa do amor, mentora das volúpias sexuais, protetora das prostitutas e dos hermafroditas, reinando sobre todos os prazeres terrestres e sobre as flores; Sila, a linda donzela favorita das ninfas da água, caminhando ao longo da praia à procura de um ponto tranqüilo; Shiva, a terceira pessoa da divindade hindu; Antígona, uma frágil jovem de vontade indomável; e aquelas que os tempos se ocuparam de escorrer pelas minhas mãos.
Nas minhas andanças em busca de Pomona, o magistrado Armstrong me dissera um alerta que se a mulher possuir olhos francos e vivos, ou se tiver ímpeto felino, deve fugir dela; se for do tipo que está sempre querendo que o marido vá com ela aos bailes, esteja cansado ou não, fuja enquanto for tempo; se for pouco inteligente por mais atraente que seja, dá sempre errado, além dos filhos correrem o risco de nascerem bestas quadradas; e, finalmente, se forem santas, cuidado, é muito difícil para um pecador dividir existência com uma santa.
Nisso, eis que aparece Kisagotami procurando uma semente de mostarda. Eu senti a dor do seu sofrimento. Queria salvar o filho morto procurando a semente da mostarda em casa que não tivesse morrido ninguém. O Buda assim exigira para a ressurreição. Eu chorei com ela, vez que em todas as residências choravam os mortos de suas reminiscências. Ela deixou-me tonto até que me recolhi num ambiente amigo.
Desfeito o sonho esbarro com a realidade. David saíra para fotocopiar uns textos que eu fizera, deixando-me à vontade em seu apartamento, bisbilhotando umas partituras.
Ouvi o barulho de que alguém chegara por ali. Olhei em volta, certo que seria David que retornara. Não fora. O barulho se repetia, embora ninguém aparecesse, nenhum sinal de vida.
Investigando, não havia ninguém por ali, nem no sanitário, ninguém em qualquer cômodo do apartamento, senão teria visto quem deveria ser.
Aquele bulício me incomodava, onde era? Investiguei tudo com o olhar e constatei que não havia vivalma ali.
A minha curiosidade se acentuava. Vôte! Quem roubava meus sentidos? Algum fantasma, encosto, duendes, lêmures, flibusteiros, assombração, não acreditara nisso nunca.
Depois de muita curiosidade descobri uma pequena fresta no piso de madeira e fui levado a verificar o que se passava, lembrando do tempo em que me punha por curioso menino nas fechaduras de mulheres alheias. Não, não era aqui isso.
Agachei-me e vi pelo buraco no chão: era ela, linda e faceira se desnudando, jogando suas vestes com calma, alisando seu corpo branquinho e liso.
Era ela, meu, eu que perseguia seu jeito dia a dia, me excitava a cada peça do seu vestuário arrancada, parecia um streep tease só para mim.
Logo eu que a desejava muitas e tantas vezes quando cruzávamos nas visitas imprevisíveis que fazíamos ao David, para que pudéssemos exercitar nossos instrumentos, visando maior virtuose durante a execução de nossos modestos concertos. Líamos partituras com o fito de decorá-las e executarmos com maior sentimento após a compreensão de suas notas e contornos musicais. Ele, o meu amigo, morava ali, no sótão da casa do pastor, um apartamento modesto mas acolhedor. Morava sozinho, viera de Paulo Afonso, quinhentos e tantos quilômetros daqui, para ser o pianista da igreja. Eu, um ateu convicto, ali no sótão da casa de um pastor batista.
Prendi a respiração para não ser notado, nada poderia atrapalhar aquele espetáculo exclusivo.
A mulher do pastor estava ali embaixo, nua, linda, no meu tope, cabelos negros, olhos pretos, lábios carnudos, carinha bem desenhada, corpinho roliço e sensual, pernas bem torneadas, toda uma elegância de forma combinada com sua vozinha sensual e mansa. A pele branca, lívida e casta para minha loucura, se sobressaía nas vestimentas em cores escuras e discretas, sempre se vestindo de tons sombrios, dando-lhe um ar senhorial, uma transparência de idade maior do que na verdade possuía, contudo, bem aquinhoada na composição corporal.
Vendo-a ali imaginava mil peripécias sexuais explorando sua branquitude no menir do amor. Eu bailaria com ela por imensidões infinitas, estrelas candentes, planetas inabitáveis, galáxias vindouras. Era a promessa do amor, secreto.
Ela depois desapareceu nua, não sei para onde, recompondo-me, então, para não ser flagrado ali.
Acomodei-me na cadeira, não antes, de vez em quando, voltar curioso, para a fresta aguardando seu retorno para aquele palco exclusivo e íntimo.
Não, demorou muito e David já estava de volta exigindo-me concentração na papelada. E assim ficamos na empreitada.
Certa tarde depois, eu e David estávamos ensaiando uma sonata que eu havia composto às escondidas para ela, quando o seu vulto aproximou-se de nós. Empalideci com a surpresa, o sangue sumira da minha tez. Eu nada dissera ao amigo, nunca diria, nunca revelaria nem com uma espada na goela, tá doido?
- Que bonito! -, elogiou-me, flertando meu coração, ela sem saber disso.
- Obrigado. -, agradeci meio que cheio de pernas, vermelho da febre de timidez.
Reunindo todas as forças que ainda restariam em meu ser, tentei mais algumas sílabas em sua direção e fiz convite oportuno para a apresentação da peça no próximo final de semana. Eu que ensaiara palavra por parágrafo, ordenando frases sintaticamente corretas no quengo, tudo certinho para quando ela aparecesse faceira, assim, mas, não tinha jeito, uma confusão explodia na minha cabeça, eu não sabia mais nada, tartamudeava, pisando na bola, enrolando a língua, dando nó na idéia, pára!
- É mesmo? -, respondia ela provocando-me as entranhas.
- É sim, será no teatro e melhor ainda se a senhora se fizer presente -, enrolei-me e fiz o maior esforço para concatenar as idéias, continuando: - Eu e David apresentaremos umas novas canções que compus, dentre elas, essa sonata que eu...
- Que bom, vou ver a agenda do meu marido para ver se a gente pode ir, você sabe, a gente tem culto no final de semana.
- O concerto só começa depois das vinte e uma horas, depois, claro, do culto. -, interrompi, temendo sua recusa: - Podem ir, eu esperarei ansioso por vocês.
- Tudo bem. Vou ver se dá, tá bom?
- Tá.
Sangue de Cristo tem poder! Notei lá no fundo que ela estava trêmula, não sei. Eu, pelo menos, estava por um fio. Disfarcei o máximo. David nem notara, creio.
Ela saiu e nós continuamos a ensaiar a tarde inteira, noite adentro até quase de madrugada.
Trabalhamos mais no dia seguinte, no outro, três dias depois, ela nada de aparecer, até que resolvemos descansar para o show de sábado.
Por volta das dezenove horas eu, David e os músicos, passávamos a afinação, corrigindo algumas dúvidas até acertarmos que eu faria, naquela sonata que virara balada, um momento solo. Isso, ela não me saía da cabeça.
Encerramos o ensaio geral e liberamos todos para se aprontarem.
Fui para o camarim visando relaxar, tomei um banho e deitei no divã, folheando uma revista que levara para dissipar a tensão nervosa.
A figura dela ocupava minha mente, não conseguia me desvencilhar de sua imagem.
Cochilei com um sonho, finalmente juntos e sozinhos, ninguém por perto e não dizíamos qualquer palavra. Fitávamos um ao outro, irresistivelmente. Líamos em nosso olhar que também mexera com as suas estruturas, éramos cúmplices de um idílio impossível. Ela estava mais linda que nunca e o sol iluminara a sua beleza celestial, sentindo que dos pés à cabeça, seu corpo me imantava, seu lábio me necessitava, tudo me depusera a sua disposição. Não nos tocávamos, não precisávamos, pois que nosso abraço espiritual era suficiente, comungávamos nosso deleite acima das necessidades corporais num acasalamento de sentimentos recíprocos.
Abruptamente o sonho se espatifara, era meu secretário que me retirava daquele espasmo, avisando-me que eu devia me aprontar para o início do espetáculo.
Calmamente me recompus sob a exigência de pressa, concentrei-me e abri o peito no palco. Esgoelei o tempo inteiro sem encontrar sua presença na platéia. Desfilei canções oriundas do coração. E lá para as tantas chegou o momento xis, os músicos depuseram seus instrumentos e foram para o camarim. Sozinho, fui até o piano e recitei algumas palavras sobre este amor impossível que me envolvia por dentro naquele momento. Dedilhei os acordes iniciais da balada e interpretei o meu poema de amor, entregue por inteiro.
Ao término da minha façanha os aplausos me afagaram o ego, levantei-me e fui até o proscênio onde agradeci a todos os presentes. Eita! Ela estava na terceira fila, vi-lhe, sozinha, aplaudindo e com os olhos brilhantes. Uh, ru! Aí sim, a banda retornou e continuamos o show até o seu término. Ao final atendemos bis, depois outro e encerramos as atividades numa jam session apoteótica. Fora a minha catarse.
Um bando de gente veio parabenizar pelo feito no corredor que dava para os camarins. Fotos, entrevistas, autógrafos e abraços muitos. Tudo muito efusivo. Eu não tinha nem onde me escorar com tanta receptividade, os dentes no coarador.
No meio dessa maratona eis que ela me apareceu timidamente, me lançou um olhar de grata e com um ar de quem sabia o que se sucedia comigo, leu-me a alma. Fiquei empulhado. Será que a minha canção tocara-lhe o coração? E no meio daquela multidão fez menção de falar ao meu ouvido e me beijou a face, sussurrando...

"o seu falar é muitíssimo doce;
sim, ele é totalmente desejável.
"
(Cântico, 5,16)

E que me amava e partiu imediatamente. O seu sussurro: - Te amo! -, nossa! Fiquei cheio de uma alegria imensurável, estava vitorioso, feliz, alcançara a graça de ouvir de seus lábios singelos uma declaração voraz. Ninguém notara a cena, acredito, havia muita gente no recinto, contudo meu ímpeto estava flagrante. Viajei minha ilusão.
No dia seguinte aquilo não me saía da cabeça, inventei uma maneira de ir até à casa do David resolver alguma pendência. O quê? Sei lá! Qualquer coisa, inventa aí, meu, qualquer propósito, vai, arruma na hora um motivo qualquer. E fui. Contornei o templo e fui ao portão lateral que dava na casa do pastor, abri a fechadura com certo barulho para que fosse notada a minha presença ali e me encaminhei ao cubículo para pegar a escada que dava para o aposento do David.
Ao passar pela porta da residência em direção à escada ela me interpelou. Que susto! Ela, justo ela! Surpresa mais que agradável. Minha cabeça rodou, rodou. Sua mão sobre o músculo do meu braço me aplacara a caminhada. Nada dissera, olhávamos um para o outro, de repente, fiz menção de beijá-la, rejeitou-me, entretanto, segurou minha mão. Eu disse...

"Arrebataste-me o coração com um dos
teus olhares;
"
(Cântico, 4,9)

Olhou dos lados e me puxara até outra dependência onde se instalara a biblioteca. Disse-me...

"De noite no meu leito, busquei
o amado de minha alma!
"
(Cântico, 3,1)

Lá, avidamente, me beijou, senti seus lábios, sua língua, enamorado no enleio da paixão profunda. Ela arrematou:

"...Que desfaleço de amor."
(Cântico, 5,8 )

Demoramos não sei quanto tempo até que ela se assustou e me empurrou porta afora, recompondo-me até a saída dali.
Na rua meu coração era verdadeiro espalhafato a dar cambalhotas doidas.
Liguei o carro e saí sem direção, até que divisei um bar e lá ancorei numa mesa, sozinho com meus pensamentos, ingerindo uma cerveja gelada, fumando um cigarro atrás do outro.
Passei por rabiscar um poema no guardanapo, solfejando cada verso como numa canção... e guardei ao bolso:

Ao prever o amor afinal
Em meu peito desabrochou
Toda gula da sedução
Toda opção na avidez do querer
Quando o truque do amor dominou
Foi capaz de ter emoção
Assustando o meu coração
Sem ter razão prá se defender...


Fiquei imaginando como seria possível aquilo acontecer outra vez. De novo? Claro, a sanha acesa. O pior é que não via qualquer possibilidade, já que era casada e, por sinal, muito bem casada, de vida resolvida e equilibrada, possuindo seus afazeres religiosos e, na certa, cumpriria à risca os mandamentos. Se parecia até com um casal feliz, feito Filemon e Baucis, os bem casados. Ou mesmo Adah, deus do raio e da tempestade com seu touro; ou Ishtar, deusa da fecundidade e também da guerra, com o leão e a pomba. Ou aqueles cônjuges de Hanra-roa, quando ela não quis deixar seu marido que estava leproso, acompanhando-o no leprosário onde também contraiu a terrível doença.
Não haveria espaço para mim, sabia. Morria a esperança, sabia que aquilo era impossível, jamais ela trocaria uma vida ajustada por uma aventura estabanada com um reles compositor maluco que ainda não havia resolvido nada de sua vida, ateu, perdulário, descompromissado com tudo e todos e sem direção na venta, guiado pelo devaneio, de embarcação onde o vento levar. Era trocar o certo pelo duvidoso. Eu sei, a cara do pastor não era lá das boas, não me parecia de boa feição, havia, inclusive, a minha predisposição em odiá-lo porque não cria em nada do que ele pregava, rótulo de um charlatão, a exemplo do que pensava de padres e mensageiros estúpidos que se diziam discípulos de uma mentira inventada para enganar incautos e prosperar deslavados sobre as dúvidas dos desmiolados.
Era a vida dela, isso sim. Será que eu poderia invadir com meu despudor desestabilizando tudo com o meu egoísmo? Será que eu mereceria ter aquela a quem endoidara meu coração com sua santa inocência? Era pouco provável que aquele episódio se repetisse. Teria de lutar para ter-lhe de novo. E todos os dias eu inventava o que fazer no sótão, falando alto para que me escutasse e já me desencantando pelas repetidas vezes sem sucesso.
Mais de mês se passara, eu morrendo por dentro, me matando, cumprindo a minha própria pena de ser solto, heterodoxo e poeta, inventei de viajar, avisei ao David que iria, no dia seguinte, até à capital alagoana, tentar desaparecer daquilo e me despedi.
Ao descer a escada me assustei, o pastor. Meu coração foi nos pés, será que ele descobrira alguma coisa? Será que ele iria me proibir de ir ali ou mesmo tirar alguma satisfação comigo? Que terá sido?
Fui descendo a escada de cabeça baixa, nunca trocara qualquer palavra sequer com ele e não seria agora que trocaria, justo agora que era meu algoz. Fiz apenas um aceno com a cabeça e segui meu caminho quando me chamou pelo nome.
- Pois não? -, disse-lhe.
- Você está indo para Maceió? -, perguntou-me.
- Sim, por que? -, respondi desconfiado.
- É que Idalice está precisando de resolver umas pendências minhas lá, será que você poderia dar uma carona para ela, isto é, se tiver vaga no seu carro, claro?
Puta-que-o-pariu! -, pensei comigo, estourando de alegria, esbugalhei os olhos e disse:
- Claro! Tem vaga sim.
- Então, que horas você vai?
- Vou sair cedo, umas sete e meia, tá bom?
- Idalice, Idalice! Ele vai lá pelas sete e meia, fique pronta, onde ela espera o senhor?
- Não se incomode, passo aqui e apanho.
- Oh! quanta gentileza sua!
- Nada, passo aqui sim!
- Não será incômodo?
- Que é isso? Pelo contrário, será um prazer!
- Muito grato.
- Até amanhã.
- Até amanhã!
Porra, meu! Meu coração estufou de alegria, nossa! Saí doidinho dali sem saber nem para onde ir, inventei uma viagem sem nem esperar para quê, quando já desistia daquele affair e a coisa cai do céu assim, sem mais nem menos, será obra do acaso? O acaso não existe, sim, será predestinação? Ôrra, meu, que coisa!
Saí dali e fui logo abastecer o veículo. Depois em casa arrumei as coisas que tinha por fazer, na verdade não tinha nada, inventaria qualquer coisa, o mais importante é que ela iria comigo e sozinha e se ela não quisesse ir sozinha comigo? Eu arrasto assim mesmo, digo que vou pegar algumas pessoas e depois dou umas rodadas e faço então que as outras desistiram de viajar. E assim foi, nem dormi direito, passei a noite em claro.
Às sete e meia estava eu na sua porta, ela pronta já, sozinha, me esperando. Veio até o carro, abri-lhe a porta e assentou, seguindo viagem. Nada dissera. Eu tremia, nem acreditava; As coisas faziam confusão na minha cabeça, davam reviravoltas e não conseguia concatenar as idéias. Estava perdido, completamente néscio, quando lembrei do som, empurrei um cd e a música rolou. Adivinhei: Debussy, nada mais encantador.
- Isso é lindo -, dissera ela.
- Mais linda é você! -, dissera eu.
Enrubescera e nada dissera. Pra que eu disse isso? Condenei-me. Tinha que dizer, não agüentava mais o escalpelo.
Já estávamos na BR 101, um silêncio devastador.
- Você vai para que bairro em Maceió? -, tentei abrir um diálogo depois de horas e horas de confusão na minha cabeça.
- Vou para a Jatiúca, mas não se atrapalhe por mim, pode me deixar em qualquer lugar que eu pego um táxi e vou.
- Que é isso? deixarei você lá, tranqüilamente. E a que horas você pretende voltar?
- Não se atrapalhe por mim, pode resolver suas coisas que eu volto de ônibus hoje mesmo. -, frisou rispidamente.
- Eu também volto hoje, posso passar lá e lhe apanhar.
- Não se embrome por mim, vou resolver umas coisas e volto logo -, sentenciou sem querer dar trela nem abrir espaço para a minha ousadia.
Friamente respondia e nem sequer olhava para mim, eu quase grito com tanta indiferença. E aquele beijo? Foi de graça? Não havia nada, será? Pensei já me aborrecendo com a atitude fria dela, tentando me recompor.
- Que nada, será um prazer, eu também tenho pouca coisa para fazer, aliás, para ser mais sincero, eu não tenho nada que fazer em Maceió, foi só um pretexto para lhe ver ou conseguir alguma reação sua depois daquele beijo, agora que já estamos em Ribeirão indo para Maceió, vou levá-la até lá e trazê-la de volta quando quiser, na hora que achar por bem sua conveniência, estando, portanto, meu coração e eu à sua inteira disposição. Peço desculpas por essa ardilosa situação, é que eu não agüentava mais...
Pôxa, danei-me a falar que quase não paro mais, abri o jogo, que coisa!
Agora eu quem estava avermelhado, tímido do jeito que eu sou, falando assim, ela viu, finalmente, olhou pra mim e pôs a sua mão sobre a minha.
Encostei o veículo no acostamento e fitei fundo seu jeitinho manso.
Aos poucos fui me aproximando. Senti-lhe a respiração. Encostei bem devagar meus lábios nos seus. Ela nem ofereceu resistência. Lentamente fui me aproximando, a respiração, o aroma do batom, a sua face trêmula, seus lábios carnudos, me apoderei de sua alma indefesa e fechei os olhos ante o labirinto do amor. Nos beijamos longamente.
Assustados, ficamos com a velocidade dos caminhões que passavam e nos recompomos do mergulho fundo nas águas violentas da paixão.
Agora poderíamos falar mais abertamente, ela repousou sua mão sobre a minha coxa e meu pênis já forçava para sair da calça, não havia como evitar a saliência, ela já notara, tinha certeza, assim deixei, repousei a minha mão sobre a sua, alisei; ela apertava a minha perna, pôrra, por que não coloquei meu caralho do lado direito, se ali estivesse ela estaria a mílimetros da minha glande. Mas do outro lado, que distância, essa mania de guardar a rola do lado esquerdo é estranha. O que faço?
A mão dela sobre a minha coxa, apertando-a carinhosamente e eu alisando-a com maior furor, não me continha de tanta satisfação, quando busquei seus dedos e entrelaçamos os meus nos seus, de mãos dadas prosseguimos.
Mais na frente estacionei novamente no acostamento e me agarrei aos seus cabelos, sedento, minhas mãos buliçosas contornavam seus seios, seu ventre, lambuzei-lhe a face, ela ofegante; busquei suas pernas, levantei-lhe a saia e alcancei-lhe o ventre, estava úmida, investi um dos dedos entre a calcinha e com o indicador acariciei sua vagina, quase desmaia, respirando fundo pela boca, senti seu hálito, deitei minha cabeça sobre suas pernas e beijei suas entranhas e lambi sua vulva. Desfaleceu, arrancando-me ferozmente dali. Abaixou a cabeça e ficou com a mão direita sustentando a testa como que se auto-reprovando daquilo, da minha atitude, silente, arfante, descontrolada.
Virei as chaves do veículo, debreei e continuei a viagem. Estava em chamas, tudo queimava dentro de mim.
Ela, após um bom pedaço de tempo, permaneceu imóvel, alisei sua mão esquerda que descansava agora sobre a sua coxa, acariciei e novamente entrelaçamos os dedos. Ela parecia rezar.
Trouxe-lhe então sua mão para a minha coxa e fiquei massageando sua palma, o seu braço, emborquei e toquei suas unhas, seus dedos e aos poucos a cada vez que passava a minha sobre a sua, puxava-a um pouquinho em direção ao meu ventre, aos poucos e com muito cuidado, lentamente, meu caralho ereto quase fazendo buraco na calça, pronto para desabar cueca e zíper, pulando fora doido, quando consegui, finalmente, remover sua mão até ele, atos imobilizados, apertou carinhosamente, alisou, quase morro, e assim ficamos, sozinha me bolinando, me punhetando, soltei o botão da calça, arriei o zíper até embaixo e trouxe-o de dentro para fora da cueca e sua mão afagou-o com determinação.
Ao mesmo tempo rocei-lhe as pernas, incendiei sua alma e, a certa altura da ida, divisei um motel e fiz que ia entrar.
- Podemos?
- O quê?
- Podemos parar um pouco aqui?
- O que é?
- É um lugar aprazível, ninguém por perto para que a gente possa se conhecer melhor.
- Não, por favor, tenho hora para chegar ao compromisso.
Obediente, segui em frente. Coloquei um cd de Egberto Gismonti no som, trouxe sua mão de volta às carícias anteriores e rumei para Maceió. Ouvimos entre carícias Keith Jarret, Edson Natale, Kitaro, Duofel.
Uma hora e meia depois estávamos próximos do lugar que ela ficaria e, preocupado com a volta, marquei às treze e trinta da tarde para apanhá-la e podermos almoçar. Acertamos tudo, ela me pediu que não lhe beijasse ali, se recompôs e desceu para os seus acertos pessoais.
Fiquei zanzando: Ponta Verde, Jatiuca, Mangabeiras, Pajuçara, Cruz das Almas, Jacarecica, Guaxuma, Sonho Verde, Ipioca, Riacho Doce, quase indo pelo litoral norte ao som de Djavan, de Hermeto Pascoal, o Mirante da Sereia, Ilha da C'roa, Paripueira, Barra de Santo Antonio, os poemas de Arriete Vilela, até me debruçar numa mesa dum bar da orla belíssima dali. Era como se estivesse no meio da criação de Jorge de Lima, de Graciliano Ramos, Ledo Ivo, ou num poema erótico de Marcos Farias Costa.
Um calor brabo naquelas paragens, apesar do vento da praia.
Falaram do litoral sul, Francês, Barra de São Miguel, Jequiá da Praia, o Gunga, Lagoa Azeda, Miaí, Lagoa do Pau, Pontal de Coruripe, Pontal do Peba onde o São Francisco se encontra com o Atlântico.
Lia poemas de Arriete Vilela, Ari Lins Pedrosa, Sidney Wanderley.
Uma e meia, suado que só pelo álcool ingerido, estava eu aguardando a sua chegada. Atrasou-se.
Duas e meia, uma hora depois, esbaforida chegou..
- Desculpe, foi que eu tive que pagar uma conta num banco do centro e demorei muito lá na fila, alem de ter de trazer o comprovante do pagamento para o escritório daqui, mil desculpas.
- Não precisa se desculpar. Podemos almoçar? Se não for incômodo.
- Claro que não.
- Vou escolher um restaurante ideal ou prefere um local discreto, eu mesmo precisaria tomar um banho, este calor me deixou bastante suado.
- Você é quem sabe -, disse-me.
Ora, acionei o motor e segui rumo a Jacarecica.
Lá chegando adentrei num motel e pedi nosso almoço com uma garrafa de vinho. Ela estranhou o local, olhava os quatro cantos, a cama, os vidros, os espelhos, deixei que se aclimatasse, fitando toda sua feitura grácil.
O vinho chegara, apanhei duas taças e servi, degustou com classe e, finalmente, brindamos. Ela sorriu com a minha atitude. Recitara-me, sussurrando, novamente, parte do Cântico dos Cânticos de Salomão.

"Beija-me com os beijos de tua boca."
(Cântico 1,2)

Aproximei-me com cuidado e beijei-lhe ardentemente.
Levantamos e sai conduzindo-a até a cama onde estatelou-se. Agachei, beijei-lhe os pés, as pernas, as coxas, a vulva, ela gemeu horas e horas, contorcendo-se toda e gritando. Entoei-lhe:

"Como és formosa, querida minha,
como és formosa!
"
(Cântico, 4,1)

- Não aguento mais! Não aguento mais! -, gritou-me ao ouvido e prosseguiu:

"o meu amado é para mim
um sequitel de mirra,
posto entre os meus seios...
"
(Cântico, 1,13)

E mais eu enfiava minha língua no seu alçapão, alcançando seu clitóris,

"manancial recluso, fonte selada."
(Cântico, 4, 12)

ela jogando a cabeça de um lado pro outro, gemendo, gritando, até que puxou-me pelos cabelos e me beijou ardentemente,

"a sua mão esquerda esteja debaixo
da minha cabeça, e a direita
me abrace...
"
(Cântico, 2,6)

reabri a calça, livrei-me da cueca e introduzi-me todo em sua buceta molhada, dando-lhe estocadas violentas. Oh! que méquia!

"Às éguas dos carros de Faraó
te comparo, ó querida minha!
"
(Cântico, 1,9)

- Meu amor! Meu amor! -, gritava ela: - eu te amo! Te amo!
Cheguei ao ápice, o mundo rodando num bailado frenético, faíscas, relâmpagos, girava a valsa eterna do prazer e gozamos juntos.

"Os meneios dos teus quadris são como
colares trabalhados por mãos de artista.
"
(Cântico, 7,1)

O oxigênio era pouco para os nossos corações disparados. Fiquei um tempão jogado em cima dela, beijando-lhe os lábios, as faces, os olhos, o pescoço, minha bimba lá dentro presa, ela apertava-me de forma de não poder retirar meu caralho de suas entranhas.

"O meu amado meteu a mão por
uma fresta, e o meu coração
se comoveu por amor dele!
"
(Cântico 5,4)

Depois de um tempão, descontraída, deixou que deslizasse pro seu lado, encolhendo-se toda, esfregando-se em mim.

"O teu ventre é monte de trigo,
cercado de lírios!
"
(Cântico, 7,2)

Mirávamo-nos, ela entregue à minha sanha. Passamos muito tempo assim.
Levantei-me e fui ao banho. Seguiu-me, ficando em pé na porta do box, fiscalizando a me molhar.

"Desejo muito a sua sombra
e debaixo dela me sento,
e o seu fruto é doce ao meu paladar.
"
(Cântico, 2,3)

Veio então de mansinho, passeando seu tato levemente por todo meu corpo, segurou firme meu caralho, esfregou-o, ensabuou-o, alisou-o, até que ficasse enrijecido novamente; de cócoras deu-lhe um beijo... mais outro... até que sua língua chegou a tocá-lo...

"os teus lábios são como um fio
de escarlate, e tua boca é formosa!
"
(Cântico, 4,3)

...a glande engulida, o aguaceiro da ducha molhando-lhe, ela chupando-me. Que doçura! Ronronei:

"Mel e leite se acham debaixo da tua língua!"
(Cântico, 4,11)

Excitação total, mais rápido, aninhei meus dedos entre os seus cabelos prendendo-os mais e mais, eu louco, virando o globo ocular, já não agüentando mais sua perícia, ejaculei na sua boca vertiginosa, largando-me no seu terreno abissal. Enguliu tudo e continuou com sisifismo na felação, como se fosse um doce predileto, devaneios múltiplos, quimeras mil, loucuras extremas, ah! Ahhhh! Estava vencido, dominado, entregue, reconfortado, rendido, oh! quanta ebulição.
Por fim, concluindo o banho, almoçamos com os olhos pregados no olhar do outro. Beijamo-nos ininterruptamente, prova do amor e do carinho que nos dedicávamos.

"Quão formosa e quão aprazível és,
ó amor em delícias!
"
(Cântico, 7,6)

Saímos dali, eu mais ancho que de costume, retornamos da viagem e ao chegarmos deixei-lhe em sua casa e parti para os meus aposentos.
Durante toda noite sonhei com aquele bailado inesquecível. Ela já estava toda por dentro do arcabouço do meu corpo. Ela era tudo em mim, minhas veias, meu sangue, meus pensamentos, minha vontade, meu desejo, tudo.
No dia seguinte fui visitar David com o intuito de vê-la. Ao passar pela passagem lateral de lá, notei a porta do templo aberta, entrei e olhei, lá estava sozinha, ajoelhada, rezando. Me viu e abriu um sorriso lindo.

"Vem depressa, amado meu,
faze-te semelhante ao gamo
ou ao filho da gazela,
que saltam sobre montes aromáticos!
"
(Cântico, 8,l4)

Não me contive, fui até seu encontro, abracei seu corpo e beijei com fervor. Nada falamos.

"dar-te-ei ali o meu amor!"
(Cântico, 7,12)

Ali mesmo, ensandecido, levantei seu vestido negro, encostei seu corpo no púlpito e me servi.

"os teus beijos são como o bom vinho!"
(Cânticos, 7,9)

Amei demais. Ejaculei. Ainda gozando empurrou-me, fiz força para agarrá-la, rejeitou-me violentamente e tive de sair até a rua.
Havia o gosto da última vez. Nunca mais sequer dedicara qualquer palavra a mim, estava sempre com o seu marido, no sacrossanto reino do lar.
Algumas vezes o telefone tocava e quando atendia uma voz sussurrava: eu te amo! E desligava imediatamente.
Três a quatro vezes ao dia o trinado do telefone me sacudia, às vezes nem falava, ouvia só a respiração. Era ela, tinha certeza. Aproveitava o silêncio e a respiração e recitava poemas tórridos de amor, declamava loucuras mil, solicitava sua presença, exigia, intimava, enlouquecia e o sussurro no fim: eu te amo! Era ela.
Eu marcava encontros, ela não ia. Ensaiava ir buscá-la, ousava invadir sua residência e estuprá-la lá mesmo, nada, ninguém. Só o sussurro mais nada.

Sacudiu a vida em mim
Coloriu como a um jardim
Foi depressa foi sem pena
Rebuscou na cantilena
Toda fúria do que quis
Não previu todo embaraço
Veio com estardalhaço
Pra me fazer feliz.
Tão aguda, tão insana
Percebi que essa fulana
Era a deusa do meu sim.
(Cantilena, música de Santanna, o cantador & letra de Luiz Alberto Machado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992).

©Luiz Alberto Machado. Direitos reservados do autor.

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segunda-feira, novembro 12, 2007



Imagem: Pink Nude, do pintor e escultor do Fauvismo francês Henri Matisse (1869-1954).

Quando estás vestida, ninguém imagina os mundos que escondes sob as tuas roupas. (Assim, quando é dia, não temos noção dos astros que luzem no profundo céu. Mas a noite é nua, e, nua, na noite, palpitam teus mundos e os mundos da noite. Brilham em teus joelhos. Brilha o teu umbigo. Brilha toda a tua lira abdominal. Teus seios exíguos – Como na rijeza do tronco robusto dois frutos pequenos – Brilham.) Ah teus seios! Teus duros mamilos! Teu dorso! Teus flancos! Ah, tuas espáduas! Se, nua, teus olhos ficam nus também: teu olhar mais longo, mais lento, mais líquido. Então, dentro deles, bóio, nado, salto, baixo num mergulho perpendicular! Baixo até o mais fundo de teu ser, lá onde me sorri tua alma, nua, nua, nua”. (Manuel Bandeira, Nu).

Veja mais Crônica de amor por ela.

sexta-feira, novembro 09, 2007



Imagem: "Capri" - Oil Painted Resin - size 20" x 25" x 19" – Realistic, 2005, da escultora realista Americana Carole A. Feuerman.

ELIXIR

Luiz Alberto Machado

Ela nua é linda na beira da fonte e me faz neófito na senda dos seus encantos de mil maravilhas, onde se esconde o elixir além da vida que me faz adulto e acalma meus desatinos de elo perdido na ebulição dos sonhos.
E tal Poimandres nua e linda na beira da fonte, ela me inicia com sua voz de fogo pelos mistérios que mantêm ocultos e se revelam ajoelhando-me rente ao seu sexo de talhe além da medida do prazer para que tudo seja perseguido até se mostrar inteiro e visível no cósmico gozo de nossa entrega queimando de amor.
E tal exaltada natureza de beleza insuperável com sua nudez demiúrgica de fonte total reunindo todas as obras de arte em si, a dar-me o sopro do verbo encarnado e me leva ao umbral além dos tempos e pelo sublime ar ígneo de sua carne em chamas além dos espaços e comigo em todo lugar refletida na água da paixão a superar do universo e tudo de mim.
Ah, prodígio surpreendente na sua voz doce que me guia dignada para ascender cósmicas lonjuras além dos sentidos, a governar meu destino no gozo de plenos poderes, a confundir de mim o princípio anterior ao começo e sem fim de nada que sou relegado ao seu domínio.
Panacéia alquímica que me cativa em suas espirais tortuosas de labirinto místico e me eleva divino pela força poderosa de reunir nosso legado amoroso a partilhar do prêmio - e o troféu reparte o que de mim não é mais meu na sua posse integral.
Arquetípica nua fonte vital linda que consagro e rendo graças e me rejubilo acima de todos os louvores, com toda devoção, todo esplendor, toda euforia a me esbaldar nos cursos fluentes dos seus rios até a revelação completa das coisas na iniciação: a minha âncora errante encontrando a paz e a vida no seu porto seguro.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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quinta-feira, novembro 08, 2007



Imagem: The good reputation, sleeping, 1938, do fotógrafo mexicano Manuel Alvarez Bravo (1902-2002).

SERENAR

Letra & música de Luiz Alberto Machado

Ah, o amor brotou de mim como se fora a flor de lis
Seguiu no triz e nem se revelou
logrou a dor em certos sonhos infantis

Ah, o amor predestinado a ser eterno aprendiz
Fiz e refiz e nem se serenou
E arrumou o que de breve não se quis

Chegou de dentro como chama de vulcão
Queimou com força e fez a vez do coração
E nem sequer sabia onde encontrar você

Amor, fez a loucura dominar a solidão
Me diz que não que a ilusão não vai mandar
E vai me dar um sim até não ter mais fim

Chegou de dentro como chama de vulcão
Queimou com força e fez a vez do coração
E nem sequer sabia onde encontrar você
Pra me iluminar até que o mar
Seja comigo agora
Não vejo a hora de poder tocar na sua mão
Toda emoção pra se valer
Precisa ter o dom da vida
Vida vivida pelo coração.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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quarta-feira, novembro 07, 2007



Ginofagia (Poemiudinhos). In: Crônica de amor por ela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Arte: Derinha Rocha.

Sob meu pescoço ela pôs os braços ebúrneos, mais alvos do que a neve da Sitônia; colocou, entre beijos de línguas cobiçando-se, suas coxas lascivas sob a minha, e me chamou seu dono e me disse coisas ternas com as banais palavras de costume...” (Ovídio, Os amores, VII - fragmento)

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terça-feira, novembro 06, 2007



Imagem: The Fisherman and the Siren, ca.1856-58, do pintor e escultor do romantismo victoriano ingles, Lord Frederic Leighton (1830-1896).

A LOBA

Luiz Alberto Machado

Numa manhã nublada ela chegara furtiva e graciosamente cadenciada no seu andar elegante, vestida com seu blusão negro sobre o decote pronunciado numa blusinha de alça a mostrar-lhe os seios proeminentes, o umbigo divisado pela calça jeans ligada aos contornos dos seus quadris, coxas e pernas realçadas pela bota preta de salto alto, tudo impactando com o penteado ruivo de loba-vermelha nos seus olhos de mar dos muitos naufrágios, lábios salientes na boca arrebitada e sedutora do seu rosto lindo e apaixonante.
Meu coração barulhava mais que a Harley Davidson acelerada na Avenida Paulista e tudo me metia num redemoinho que me arrastava por sutiãs, calcinhas, lingeries e aromas da mais pura feminilidade.
Sempre gostei dessa sensação de ver-me invadido e dominado pela sanha da fêmea a me deixar absorto pelos confins do prazer.
Não fora menor a sensação de ver-me rente ao seu jeito de loba fatal, pousando na mesa no restaurante do hotel, ao meu lado, a ponto de me soltar numa viagem sideral com o perfume delicioso de fera insana.
Lado a lado, confrontamos os rostos com um beijo de recepção quando ela olhou-me firme e segura do que queria ao lamber os lábios como quem denunciava o meu esquartejamento.
A minha potência canibal mais se aguçava com o alarme de que eu seria devorado naquela manhã.
Não poderia haver melhor sensação porque ela não escondia a sua ferocidade esguia no jeito nômade de quem estava pronta para me estraçalhar com a vitalidade faminta de suas garras prontas para o bote.
Eu tremia radiante fisgado por seu olhar esfaimado de quem se valia das tentações que povoam as florestas de todos os hemisférios noturnos. E mais saboreava a expectativa de ver-me embrenhado pelos labirintos de sua carne fugitiva.
Desgrudamos instantaneamente o olhar enquanto ela se servia de uma xícara de café, pousando uma das mãos sobre minha coxa, alisando devagar. O seu alisado formigava-me todo. Restituía a vontade de aprisioná-la entre meus braços perseguindo a viagem dos corpos à plenitude do gozo.
Logo seu contato tátil alcançou meu membro que não resistia rijo naquela provocação inflamável. E mais incendiava meu corpo alisando carinhosamente todo o contorno da minha glande agoniada.
Seus dedos pareciam magnetizar tudo em mim.
Servimo-nos do rápido café da manhã e ela obrigou-me a levantar seguindo para o meu apartamento.
Sabedora do estado em que eu me encontrava, tudo fez para que eu não fosse visto daquele jeito, postando-se sempre à minha frente, escondendo-me por trás do seu corpo.
Aguardamos o elevador e quando este chegou, seguimos para o meu apartamento. Nono andar. E enquanto subíamos, ela se acocorava arreando o zíper da minha veste e alcançando meu caralho duro doido de tesão. Ela começou lambendo-o e depois chupando em longas abocanhadas de suas mandíbulas fortes. Delícia a felação ali enquanto o elevador passava de andar em andar até o nono. Verdadeira viagem.
Quando chegamos, a porta abriu e ela foi olhar se havia alguém. Ninguém.
- Onde é? -, perguntou-me.
- Ali -, respondi.
E seguimos com uma das mãos dela agarrada no meu pau.
Abri a porta e atravessamos para o interior do negrume insinuante do apartamento, onde, à meia luz, tudo era de uma magia inenarrável.
Nem bem fechei o trinco, ela retornou à felação de antes. Era providente demais o prazer dela roubando minhas forças e fortificando minha pica com sua língua sedosa, sua boca faminta e de mágicas artimanhas.
Ao me deixar a ponto de bala, pronto para explodir de gozo, ela afastou-se, recuando para arrear a calça até os joelhos e se pôr de bruços na cama com a bundinha mais linda do universo exposta para minha ceia total.
- Vem! -, disse-me com sua voz agateada.
E fui sem dó nem piedade. Entrei de sola e a cada estocada explodia seus uivos lancinantes como uma sirene rasgando o silêncio e a loucura de nossa aventura sexual. Aventura que prosseguia com o deslizar do meu pênis no interior da caverna úmida que se escancarava cada vez mais para desafiar seu esconderijo e mais usurpar os limites da invasão. Aventura que me fazia poderoso acima das deidades de todos os panteões, dono absoluto de todas as vontades de usurpar e perseguir enlouquecidamente toda a sua íntima compleição. Aventura que explodia o meu gozo até esborrar demasiado alagando toda a boceta gostosa da loba. Ela gritava, gemia, pedia mais e gozava nervosamente. A respiração entrecortada e os gemidos de satisfação tomavam conta de nossos corpos que agora se acumulavam um sobre o outro. Era gostoso demais sentir-lhe a pele morena da obra de arte do seu corpo nu entregue ao meu poderio. Nada melhor que sentir-se arreado sobre as costas daquela a quem me devoraria e fora atraiçoadamente rebentada por mim. Beijei-lhe demoradamente as faces enquanto sentia seu rostinho lindo de olhos fechados curtindo toda minha ejaculação.
De repente ela desvira me jogando de lado, arregaça as vestes, se arruma aprontando para saída imediata, nem me deixando aplacar-lhe a fuga.
Ao sair, lançou-me um sorriso rasgado e um olhar com a expressão: um beijo, Loba.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados do autor. In: Rol da Paixão, inédito.

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segunda-feira, novembro 05, 2007



Imagem: Love in the Golden Age, ca.1540-96, do pintor renascentista dos Paises Baixos, Paolo Fiammingo (Pauwels Franck – 1540/1596).


“(...) Às vezes saía, pelas tardes, com um longo cortejo de luzes de todas as cores, atravessando pelo ar, serenamente (...) Da sua cabeleira, as estrelas iam caindo todas, uma a uma, apagando-se e virando pedras. A mulher que visse desprender-se uma dessas luzes e fizesse um pedido antes dela apagar-se, seria servida pela Mãe do Ouro. Mas ficar-lhe-ia pertencendo para sempre; todas as noites, enquanto dormisse, o seu corpo sairia todinho da pele, sem ninguém perceber, sem a própria pessoa no dia seguinte lembrar-se, e ia aparecer no palácio da Mãe do Ouro. Ali se realizavam festas maravilhosas, as mulheres mais lindas, casadas e donzelas, compareciam envoltas em roupagens riquíssimas e transparentes, vendo-se umas às outras, mas sem se poderem falar, sem se poderem tocar, com os cabelos transformados em algas luminosas, com as pernas justapondo-se, confundindo-se, alongando-se, em forma de caudas de peixe. Iam ser amadas pelos gênios encantados no rio (...) Entrelaçavam-se demoradamente, cada um a cada uma, e as horas marcavam delicias orgíacas, valsas infinitas cantaroladas pelos seixos, pelas arestas luminosas, ao coro dos rochedos de uma a outra margem, num ritmo dolente e suave. (..) E pelos recantos, os pares se dissimulavam, zumbia a colméia de beijos, soluçavam as caricias nupciais, ardentes, de intermináveis desejos”. (Veiga Miranda, Mãe do Ouro. In: Mau Olhado. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro & Murillo, 1919).

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sexta-feira, novembro 02, 2007



Imagem: Untitled, do fotógrafo italiano Fabrizio Ferri.

PERFUME DE MULHER

Luiz Alberto Machado

É dela todo perfume que emana da vida. E vem dela, ah, mulher nua, linda e cheia de graça, o bálsamo do sol no sexo pra gosto nenhum botar defeito ou achar pouco porque é a fragrância caudalosa na sedução da carne de todos os sabores mais apetitosos de todo paladar aguçado de fome.
Vem dela o sândalo do amor, mulher nua, linda e cheia de graça que aquece estirada com o nascedouro a dar passagem e faz de mim iluminado deus todo-poderoso a sentir o primeiro cheiro de rosa silvestre de suas entranhas ao embalo dos gemidos manhosos rente ao coração além do universo.
Vem dela a alfazema que me faz hóspede no movediço lençol alvacento da poesia a me ofertar o baú de suas posses secretas com todas as maçanetas arrancadas, todos os trincos destrancados, todas as portas escancaradas para que extremamente amada e querida tanto quanto a minha própria vida possa em sua mágica dádiva seguir abrindo, fechando, prendendo, soltando, tudo disparando a nossa peleja prazerosa no fogo da felicidade.
Vem dela nua, linda e cheia de graça, todas as lanternas acesas do seu desejo vigoroso na sua secreta fogueira, de onde me nascem asas e vôo amparado pela égide de sua devotada oferenda.
É nela que vou como chama a sua boca, como querem seus braços, como desejam suas perversas coxas erguendo o véu e colhendo as horas no ar da tarde demasiada no mormaço do querer.
É nela que vou como um rei apaixonado com todos os versos fesceninos imersos no gozo, adestrando o seu impetuoso desejo até a bifurcação dos destinos da nossa dança perfumada, a me satisfazer com o cheiro gostoso da mulher amada.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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RAPIDINHA

quinta-feira, novembro 01, 2007



Imagem: Leda Atomica, 1949, de Salvador Dali (1904-1989), pintor e escultor surrealista espanhol.


CANTILENA

(Música de Santanna, o cantador & letra de Luiz Alberto Machado)

Ao prever o amor afinal
Em meu peito desabrochou
Toda gula da sedução
Toda opção na avidez do querer.

Quando o truque do amor dominou
Foi capaz de ter emoção
Assustando meu coração
Sem ter razão pra se defender.

Sacudiu a vida em mim
Coloriu como a um jardim
Foi depressa foi sem pena
Rebuscou na cantilena
Toda fúria do que quis
Não previu todo embaraço
Veio com estardalhaço
Pra me fazer feliz.

Tão aguda, tão insana
Percebi que essa fulana
Era a deusa do meu sim.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. In: Primeira Reunião. Recife: Bagaço, 1992.

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ESTIGMA
FONTE
COBIÇA
FRUTOS
PONTE SOBRE ÁGUAS TURVAS.

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